Como crianças mais velhas propagam a covid-19, segundo este estudo

Pesquisa com quase 60 mil pessoas na Coreia do Sul aponta riscos de retorno às aulas devido ao potencial de transmissão do novo coronavírus por pessoas de 10 a 19 anos

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    Os adultos e os mais velhos têm sido os mais afetados pela pandemia do novo coronavírus em todo o mundo. Em São Paulo, estado que mais sofre com a doença no Brasil, a faixa etária que mais concentra casos é a de 30 a 39 anos, segundo dados divulgados na terça-feira (21). Apenas 1,9% das crianças até 9 anos e 3,6% das crianças e jovens de 10 a 19 anos tinham se contaminado até a mesma data no estado. Entre os mortos, 75% se concentravam entre os maiores de 60 anos.

    Embora crianças e adolescentes aparentem pelas estatísticas estar mais protegidos contra a covid-19, o que justificaria, entre outros fatores, o retorno das atividades escolares, não é exatamente isso que um estudo de pesquisadores sul-coreanos publicado em 16 de julho pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, nos Estados Unidos, mostrou.

    A pesquisa feita com quase 60 mil pessoas aponta que crianças de até 9 anos têm realmente menos chances de transmitir o vírus, por se contaminarem menos, mas as pessoas entre 10 e 19 anos podem ser tão vulneráveis à infecção pelo novo coronavírus quanto os adultos. Como essa faixa compreende um público em idade escolar, o retorno às aulas poderia levar a novos surtos da doença, segundo os pesquisadores.

    Como a pesquisa chegou a suas conclusões

    O trabalho foi feito por meio do rastreamento de contatos de doentes de covid-19 na Coreia do Sul entre janeiro e março. Primeiro, os pesquisadores identificaram 5.706 infectados por meio de testes PCR, que apontam a presença do vírus no organismo a partir da coleta e análise de secreções do nariz e da garganta. Desse total de doentes, quase um terço tinha de 20 a 29 anos, o maior grupo da amostra. Apenas 2,2% eram crianças mais velhas e adolescentes (de 10 a 19 anos) e só 0,5% eram crianças pequenas (de 0 a 9 anos).

    A partir desse grupo inicial de doentes, o estudo identificou 59.073 pessoas que integravam suas redes de contato: 18% dividiam a mesma casa com os contaminados e 82% viviam em casas diferentes.

    Os pesquisadores então dividiram esses contatos em faixas etárias, começando por crianças de 0 a 9 anos, depois crianças e jovens de 10 a 19 anos, e assim por diante.

    Foi então que se chegou à conclusão da pesquisa. Crianças de 0 a 9 anos que estavam na mesma casa de um infectado tiveram taxa de contaminação de 5,3%. Já as crianças e jovens de 10 a 19 anos que também estavam na mesma casa de alguém diagnosticado com a covid-19 tiveram taxa da contaminação muito maior, de 18,6%.

    A taxa de pessoas contaminadas com idade entre 10 e 19 anos, ou seja, crianças mais velhas e adolescentes em idade escolar, foi maior, inclusive, do que a taxa registrada entre pessoas de 60 a 69 anos (17%) e praticamente a mesma de pessoas entre 70 e 79 anos (18%).

    A conclusão, portanto, foi que crianças mais velhas e adolescentes não estão tão protegidos contra o vírus como se acreditava. Eles podem se contaminar tanto quanto os adultos e, portanto, espalhar a doença. A diferença é que, nas escolas, esse grupo amplia o leque de contatos, o que pode levar ao surgimento de novos surtos.

    O risco do retorno às aulas

    Um estudo publicado em junho na revista Science apontou que as crianças têm apenas um terço das chances de um adulto de contrair o vírus. Uma hipótese para que isso ocorra está no fato de que o vírus atinge menos as crianças por elas supostamente terem os receptores usados pelo novo coronavírus para entrar nas células em menor quantidade do que os adultos. Isso também explicaria por que elas manifestam sintomas mais leves quando infectadas ou mesmo não apresentam sintomas.

    A maior parte dos sistemas de saúde, como no Brasil, testam apenas pacientes com sintomas ou quadros mais graves da doença. Crianças e adolescentes assintomáticos poderiam, portanto, estar ficando de fora das estatísticas. Isso explicaria a discrepância entre os dados oficiais e o observado pelo estudo sul-coreano.

    Crianças também podem disseminar menos o vírus por, em geral, exalarem menos ar (por onde o agente infeccioso é propagado) do que as pessoas mais velhas, segundo especialistas ouvidos pelo jornal The New York Times. Também liberam o ar mais perto do chão, o que reduz as chances de os adultos entraram em contato com o vírus propagado por elas.

    O problema é que, em tempos de aulas, elas têm três vezes mais contatos com outras pessoas, o que significa três vezes mais oportunidades de infecção pela doença. Fechar as escolas, portanto, pode reduzir de 40% a 60% a circulação do vírus, segundo o estudo publicado pela Science.

    Os pesquisadores sul-coreanos ressaltaram que crianças pequenas “podem apresentar taxas maiores de transmissão quando terminar o período de fechamento das escolas, contribuindo para a transmissão comunitária da covid-19”.

    A volta de algumas escolas

    Em alguns países que já passaram pela fase mais crítica da pandemia e que conseguiram manter o contágio controlado em níveis baixos, as escolas retomaram as atividades com algum sucesso, como na Dinamarca e na Finlândia.

    Na Alemanha, um levantamento em 13 escolas divulgado em julho com 1.500 alunos de 14 a 18 anos e 500 professores de 30 a 66 anos identificou a presença de anticorpos no sangue de apenas 12 pessoas, ou 0,1% da amostra. A conclusão foi que na cidade de Dresden e em duas vilas próximas, onde estão as escolas estudadas, não houve novos surtos após a retomada das atividades escolares.

    A reabertura, porém, segue no país uma série de regras rígidas. Seu início, de maneira gradual, começou em abril, primeiro para alunos do ensino médio que são considerados mais capazes de executar práticas de higiene e de distanciamento. Cada um dos 16 estados alemães possui seus próprios cronogramas de reabertura, mas todas as escolas adotaram medidas como o distanciamento de 1,5 metro entre as carteiras, locais para a lavagem das mãos e fornecimento de produtos desinfetantes.

    A Alemanha, que também investiu em testagem da população e conseguiu frear a pandemia, tinha 203.565 casos de infecção pelo novo coronavírus e 9.099 mortos até a terça-feira (21).

    Outros países, como China, Israel e a própria Coreia do Sul, tentaram reabrir as escolas, mas tiveram que voltar atrás após novos surtos. Em Israel, o retorno dos estudantes às aulas ocorreu em meados de maio. Duas semanas depois, porém, 42 escolas tiveram de fechar devido ao aumento de novos casos. Numa das escolas de Jerusalém, 116 alunos e 14 professores contraíram o vírus.

    O cenário no Brasil

    Alguns estados, como São Paulo, anunciaram planos de retorno das escolas em setembro. A volta também seria gradual, com uma combinação, no início, entre aulas presenciais e a distância. A capacidade das salas de aula ficaria em 35% num primeiro momento, em esquema de rodízio. Depois subiria para 70% e, numa terceira fase, voltaria ao normal.

    Para que as escolas voltem a funcionar, todas as regiões do estado de São Paulo precisam permanecer por ao menos quatro semanas na fase amarela do plano de reabertura, a terceira de cinco etapas de flexibilização que permite o funcionamento de 40% das atividades de comércio, serviço e consumo local.

    No início de julho, escolas particulares em Manaus foram autorizadas a retomar as aulas. Há rodízio semanal entre os alunos, limite de 50% nas salas de aula, distanciamento de 1,5 metro entre as mesas, uso de máscaras e álcool em gel. No Amazonas, a média de mortes vem caindo diariamente desde maio. O número de casos também apresenta queda desde junho. Não há notícias de que a volta na rede particular tenha ocasionado novos surtos da doença.

    Alguns pesquisadores, entretanto, discordam da reabertura das escolas no país nos próximos meses. Durante uma participação num seminário online, em 14 de julho, o professor Eduardo Massad, da Escola de Matemática Aplicada da FGV (Fundação Getulio Vargas), chamou de genocídio a reabertura das escolas no atual estágio da pandemia no Brasil.

    Mesmo com o uso de máscaras pelos alunos e a distância de 2 metros entre as carteiras, o número de mortes de crianças com menos de cinco anos em todo o Brasil saltaria de 300, em 14 de julho, para 17 mil nos dias subsequentes a um retorno das aulas no país a partir de 1º de agosto, segundo estimativas do professor. “Nós estamos falando de vidas. Se perder um ano letivo, ninguém vai morrer por isso”, defendeu.

    No início de julho, um inquérito com o uso de testes rápidos realizado em todo o Brasil sob coordenação de pesquisadores da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) também mostrou que as crianças brasileiras pegam o vírus na mesma proporção das pessoas mais velhas, embora tenham menos chances de evoluir para casos mais graves. As maiores vítimas da doença são maiores de 60 anos por já terem outras complicações de saúde.

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