Como a realidade da pandemia pressiona as mães solo

Mulheres que são as únicas responsáveis pelos filhos estão frequentemente sobrecarregadas, com dificuldades financeiras e têm problemas para acessar o auxílio emergencial

    Durante a pandemia do novo coronavírus, mães solo brasileiras enfrentam sobrecarga, maiores dificuldades financeiras e têm sua saúde mental prejudicada.

    Esses efeitos não se aplicam exclusivamente a elas na crise sanitária. Mas se destacam por expor ainda mais a condição de vulnerabilidade das mulheres – na maioria negras e pobres – quando são as únicas ou principais responsáveis pelo sustento e cuidado de filhos.

    11,6 milhões

    era o número de arranjos familiares monoparentais chefiados por mulheres em 2015 no Brasil, segundo dados do IBGE

    As condições de vida neste grupo

    De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a maioria (61%) das mães solo no país é negra. Entre os domicílios compostos por mulheres negras com filhos de até 14 anos, 63% se encontram abaixo da linha de pobreza.

    Isso também implica um pior acesso à moradia adequada, saneamento básico e internet, recursos fundamentais que ganharam importância ainda maior durante a pandemia, garantindo respectivamente uma prevenção mais eficaz contra o novo coronavírus e a continuidade dos estudos das crianças e adolescentes.

    Assim como acontece com mulheres em outros tipos de arranjo familiar, muitas mães solo precisam dar conta de uma jornada tripla: trabalhar, cuidar da casa e dos filhos.

    O agravamento na pandemia

    Uma reportagem publicada em junho pela revista AzMina descreve a situação enfrentada atualmente por mães solo que perderam suas fontes de renda ou que, empregadas, precisam coordenar sozinhas o trabalho, as lições escolares dos filhos em casa e demais tarefas.

    Elas também lidam com a ansiedade financeira em relação aos próximos meses e com o medo de adoecer, por não ter com quem contar para cuidar dos filhos.

    Segundo Thaiz Leão, diretora executiva do Instituto Casa Mãe, as mães e principalmente as que são chefes de família “já sofrem [normalmente com o isolamento], porque a dimensão do compartilhamento social do cuidado dos filhos não existe”.

    “O que temos hoje é um agravamento, porque as poucas fontes de compartilhamento desse cuidado, como escola, o acesso ao trabalho e ao mundo, foram limitadas para essas mães”, disse à revista AzMina.

    Além disso, as chefes de família podem estar mais vulneráveis à covid-19. Um levantamento realizado pelo Instituto Pólis entre 21 de março e 27 de maio mostrou que as áreas da cidade de São Paulo com maior número de mortes pela doença – bairros periféricos como Brasilândia e Capão Redondo – são também as que têm maior concentração de famílias de baixa renda chefiadas por mulheres, acima dos 12% da média municipal.

    Essa exposição maior não ocorre apenas em função do território. As mães solo pobres estão entre os grupos para os quais o isolamento social é praticamente impossível.

    O relatório “Mulheres em tempos de pandemia: Os agravantes de desigualdades, os catalisadores de mudanças”, da organização Think Olga, lembra que grande parte dessas chefes de família atuam como autônomas, microempreendedoras ou na informalidade, sem a possibilidade de migrar para o home office.

    As dificuldades de acesso ao auxílio emergencial

    Levando em conta as vulnerabilidades específicas desse grupo, o governo federal vem pagando desde abril o auxílio emergencial em valor dobrado, de R$ 1.200, para mães sem cônjuge – o equivalente ao que recebe uma família com dois adultos que atuem no mercado de trabalho informal.

    Uma série de reportagens publicadas após o primeiro mês de pagamento do auxílio documentaram problemas enfrentados por muitas dessas mulheres para acessar o benefício.

    Um deles, segundo várias mães ouvidas por reportagens dos jornais O Globo e Folha de S.Paulo, foi o uso do CPF dos filhos por ex-companheiros para solicitar o auxílio, o que fez com que o pedido delas fosse negado.

    Segundo elas, esses pais não detêm a guarda das crianças, nem são os principais responsáveis pela criação – muitas vezes, sequer pagam pensão – o que faz com que o pedido possa configurar fraude.

    Na tentativa de solucionar o problema, um projeto de lei que confere prioridade à mulher chefe de família no pagamento do auxílio quando houver informações conflitantes nos dados cadastrais foi aprovado no Senado em 8 de julho. A medida aguarda a sanção do presidente Jair Bolsonaro para entrar em vigor.

    Como apoiar as mães solo na pandemia

    Entre as muitas campanhas voltadas a apoiar setores vulneráveis durante a pandemia, algumas são especificamente voltadas para as mães.

    Projeto da Cufa (Central Única das Favelas), o Mães da Favela é uma campanha de arrecadação que custeia a doação de cestas básicas e de vales – no valor de R$ 120 – para mães que moram em comunidades de todo o país durante a pandemia. Segundo o site da campanha, 900 mil famílias já foram atendidas.

    Também está aberto a doações online o Segura a curva das mães, projeto da Casa Mãe e do Instituto Massa que mapeia mulheres mães de todo o Brasil que estejam em situação de vulnerabilidade durante a pandemia.

    Elas fornecem apoio emergencial financeiro (no valor de R$ 150) para essas mulheres e suas famílias e também incluem as mães em grupos de apoio online, fornecendo “escuta, atendimento e encaminhamento para assistência profissional quando necessário”.

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