O impacto da urbanização no surgimento de novas infecções

Publicação identificou mais de 400 cidades que se expandem em áreas de alta biodiversidade, criando oportunidades para que vírus migrem de animais para humanos

O avanço de áreas urbanas em regiões com grande biodiversidade pode criar mais oportunidades para o chamado “transbordamento zoonótico”, fenômeno em que um vírus que afeta animais passa a infectar seres humanos.

O novo coronavírus provavelmente migrou de um morcego para outro animal, que depois o transmitiu para uma pessoa. Doenças como o vírus ebola, que atingiu a África a partir de 2013, e a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que surgiu na Ásia em 2002, também são casos em que ocorreu transbordamento zoonótico.

Em entrevista ao Nexo em maio de 2020, o escritor de ciência americano David Quammen afirmou que vírus estão pulando de animais para humanos com mais frequência nos últimos 50 ou 60 anos pois “atualmente, há mais pessoas em contato com animais”. Segundo ele, a covid-19 “nos lembra que há consequências quando perturbamos a natureza. Agora estamos vivendo essas consequências.”

Trabalhos acadêmicos já apontaram a urbanização acelerada como um processo que facilita a transferência de zoonoses para organismos humanos. Em um estudo de 2008, a chefe de ecologia e biodiversidade da universidade UCL, de Londres, identificou 335 doenças surgidas entre 1960 e 2004, das quais pelo menos 60% vieram de animais não humanos. A densidade populacional humana foi apontada como fator significativo associado à aparição de novas doenças infecciosas.

Urbanização e ecologia

Uma publicação americana de 2017 oferece um dos mais completos mapeamentos da perturbação causada pela urbanização desenfreada. Chamado “Atlas for the End of the World (Atlas para o fim do mundo, em tradução livre), foi concebido por Richard Weller, professor de arquitetura paisagística da Universidade da Pensilvânia.

Disponível online, o trabalho identificou 423 cidades com mais de 300 mil habitantes situadas nos 36 focos de tensão de biodiversidade existentes no mundo. Estas regiões contêm pelo menos 50% do total de espécies vegetais e 42% dos vertebrados terrestres do mundo.

Por meio da modelagem de dados, o Atlas estimou que cerca de 90% dessas cidades, ou 383 locais, provavelmente continuarão se expandindo em cima de habitats anteriormente intocados.

Uma das seções do atlas destaca 33 cidades como sendo as maiores em população e de crescimento mais rápido. A lista inclui Bogotá (Colômbia), Cidade do Cabo (África do Sul), Houston (EUA), Santiago (Chile) e duas brasileiras, Brasília e São Paulo.

Cada umas das 33 metrópoles é retratada em um mapa que mostra dois indicadores: “zona de conflito” entre urbanização e biodiversidade e projeção de crescimento urbano. No caso de São Paulo, o perímetro urbano é cercado por um anel de conflito no grau máximo da escala proposta pelo estudo.

A publicação contém seções com diversos infográficos, mapas e dados estatísticos sobre crescimento urbano, biodiversidade, uso da terra, entre muitos outros temas relacionados.

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