Quais os sinais positivos na reabertura de escolas alemãs

Estudo com 1.500 alunos e 500 professores constatou que covid-19 pouco se espalhou após retomada de aulas presenciais. Papel de crianças e adolescentes na transmissão do novo coronavírus ainda é cercado de incertezas

Um levantamento divulgado na Alemanha em 13 de julho mostrou baixos níveis de transmissão de covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, entre estudantes e professores de 13 escolas que retomaram as atividades no país europeu.

Os pesquisadores do hospital da Universidade de Dresden analisaram amostras de 1.500 alunos e 500 professores colhidas em maio, mês em que as aulas foram reiniciadas. As análises constataram que apenas 0,1%, ou 12 pessoas, apresentou anticorpos contra o vírus, ou seja, foi infectado antes ou durante a volta às aulas.

A conclus��o é de que não houve disseminação das contaminações. Os alunos tinham entre 14 e 18 anos e os professores, entre 30 e 66.

O estudo foi o maior já realizado com crianças em idade escolar e professores na Alemanha. As amostras foram colhidas em maio e junho em Dresden e em duas vilas próximas, Bautzen e Gorlitz.

As localidades ficam no estado da Saxônia, que tem um índice relativamente baixo de infecção em comparação com outras unidades da federação alemã. A Saxônia foi o único dos 16 estados alemães a reabrir escolas com as salas de aula completas, ainda que com protocolos de distanciamento.

Na avaliação do professor Reinhard Berner, chefe de medicina pediátrica do hospital da Universidade de Dresden e líder do estudo, os resultados permitem observar que as crianças funcionam como “um freio na infecção. Nem toda infecção que as alcança é passada para a frente”.

Como é a reabertura de escolas na Alemanha

A Alemanha começou a reabrir gradualmente os estabelecimentos de ensino no fim de abril. Inicialmente, foram escolas do ensino médio pois os alunos são considerados mais capazes de entender e seguir as práticas de higiene e distanciamento.

Em maio, junto com playgrounds, foi a vez de alunos de 11 e 12 anos começarem a retornar às aulas. Nesta faixa etária, as classes foram divididas em dois grupos, que se alternam entre receber a matéria em casa ou na escola.

Cada um dos 16 estados alemães é responsável por seu próprio cronograma e regras de reabertura. No entanto, todos implementaram medidas, como manter 1,5 metro de distância entre carteiras nas salas, mais locais para a lavagem de mãos e disponibilização de produtos desinfetantes.

Se os números de infecção permanecerem baixos, todas as escolas da Alemanha devem reabrir de forma integral após as férias de verão, que terminam no fim de agosto. Grandes eventos escolares seguirão banidos até o final de outubro.

Em março, a Alemanha chegou a ser um dos países com maior número de novos casos diários no mundo, com um recorde de 6.294. Em junho, os novos casos diários caíram para 534, número registrado no dia 16 daquele mês, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

No Brasil, onde a doença não está controlada, a retomada das aulas foi confirmada já em sete estados, para os meses de agosto e setembro: Acre, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Pará, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Tocantins e São Paulo.

Em Goiás e Tocantins, os índices de mortes por covid-19 têm registrado alta. Em declaração bastante repercutida na imprensa, Eduardo Massad, professor da Escola de Matemática Aplicada da FGV (Fundação Getulio Vargas), classificou os planos de reabertura das escolas de “genocídio”.

Transmissão entre crianças e adolescentes

Números de diferentes países indicam que o desenvolvimento da doença e os óbitos em crianças e adolescentes são baixos em comparação com outras faixas etárias.

O site do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos registra que 6,4% dos infectados naquele país têm entre 0 e 17 anos. No primeiro grande relatório do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, de fevereiro de 2020, de 44.672 casos confirmados, apenas 2% eram de crianças e adolescentes.

No entanto, uma pesquisa brasileira divulgada no começo de julho verificou que, embora desenvolvam menos a doença, crianças e adolescentes no país são infectadas na mesma proporção que os adultos. Financiada pelo Ministério da Saúde, a pesquisa foi encabeçada pelo epidemiologista Pedro Hallal, da UFPel (Universidade Federal de Pelotas).

Nos Estados Unidos, alguns estados têm registrado um aumento considerável na proporção de crianças e adolescentes infectados. É o caso da Califórnia e Mississippi, em que esses grupos já respondem por 10% dos contaminados.

A respeito do papel de crianças e adolescentes na transmissão do novo coronavírus permanecem muitas incertezas. Em maio de 2020, uma revisão de quase 500 publicações acadêmicas sobre covid-19 na área pediátrica não conseguiu um caso comprovado sequer de transmissão realizada por criança abaixo de dez anos.

Na contramão, um estudo publicado em maio pelo virologista alemão Christian Drosten, um dos maiores especialistas no novo coronavírus em seu país, alertou que crianças tinham a mesma probabilidade de disseminar a doença que adultos.

Entre os motivos apresentados está seu comportamento. Crianças são menos capazes de manter o distanciamento físico, mais inclinados ao movimento e mais propensos a cantar e chorar, atividades que lançam no ar gotículas com a mesma intensidade de uma tossida ou um espirro.

“As crianças não têm concentrações de vírus em suas vias respiratórias significativamente diferentes das dos adultos”, disse Drosten em um podcast no site NPR. Seu levantamento examinou as cargas virais de 3.721 pessoas em Berlim que haviam testado positivo para o novo coronavírus, incluindo 100 crianças.

Fatores externos também influenciam índices de contágio ou morte entre crianças.

Um estudo realizado pelo demógrafo francês Christophe Guilmoto, do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) da Universidade de Paris, à pedido do G1, mostrou que a letalidade entre crianças e adolescentes brasileiras por covid-19 é 65,4% maior que o mesmo grupo nos países desenvolvidos.

Uma reportagem da revista Science ouviu de especialistas que o sucesso da reabertura escolar pode não depender apenas das medidas de proteção e higiene, como uso de máscaras e distanciamento social, mas também do nível de circulação do vírus na comunidade em que a escola está inserida.

Reaberturas em outros países

Israel

Em meados de maio, escolas israelenses retomaram completamente as atividades. Duas semanas depois, pelo menos 42 estabelecimentos de ensino tiveram de voltar a fechar depois de diversos surtos entre alunos e professores. No Gymnasia Rehavia, em Jerusalém, 116 estudantes e 14 professores se infectaram. No início de junho, o país contava com cerca de 244 estudantes e funcionários infectados. Mais de 6.800 alunos e professores voltaram à quarentena.

Texas

No estado americano do Texas, pelo menos 1.335 pessoas em creches registraram infecção pelo novo coronavírus, segundo dados de 6 de julho. Dos infectados, 894 eram funcionários e 441 eram crianças, em um total de 883 creches analisadas. Esse tipo de estabelecimento teve a reabertura autorizada em 19 de maio. A reabertura gradual de atividades no estado foi suspensa em 25 de junho pelo governador Greg Abbott devido a uma subida vertiginosa de casos, com 5 mil ocorrências durante um período de três dias naquele mês.

Dinamarca

Entre 15 de abril e início de maio, crianças dinamarquesas das creches ao ensino médio voltaram às aulas depois de um mês de lockdown. Por ser o primeiro país europeu a realizar a reabertura das escolas, a situação foi acompanhada por autoridades de outros países. Mas não foi registrado nenhum surto ou aumento de infecções no país. O mesmo foi observado na Finlândia, que reabriu estabelecimentos de ensino na mesma época.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.