Espionagem da vacina: a nova acusação contra hackers russos

Reino Unido, Estados Unidos e Canadá afirmam que pesquisas científicas foram alvo de ataques de grupo suspeito de trabalhar para o serviço de inteligência de Vladimir Putin 

    A corrida global por uma vacina contra o novo coronavírus enfrenta um desafio para além das dificuldades logísticas e incertezas científicas. Governos têm levantado suspeitas de que as informações confidenciais sobre as pesquisas em torno do imunizante são alvo de grupos de hackers — possivelmente a mando de outros países.

    Na quinta-feira (16), Reino Unido, Estados Unidos e Canadá jogaram suspeitas de espionagem sobre a Rússia. Em maio, o FBI, a polícia federal americana, já havia acusado a China de tentar hackear dados americanos sobre vacinas.

    Segundo agências de inteligência do Reino Unido e do Canadá, que foram corroboradas por autoridades americanas, o grupo de hackers Cozy Bear (também conhecido como APT29 ou The Dukes) tem feito ciberataques em busca de dados de instituições de pesquisa e desenvolvimento científico, acadêmicas e farmacêuticas, nos três países. O comunicado conjunto adiciona que o grupo “quase certamente atua como parte do serviço de inteligência russo”.

    Os serviços de inteligência não deixaram claro se as iniciativas foram bem sucedidas no roubo de propriedade intelectual, mas garantiram que as pesquisas espionadas não foram prejudicadas.

    Reino Unido e Canadá divulgaram no mesmo dia da denúncia orientações para instituições de pesquisa sobre como se prevenir de malwares (softwares invasores) e de emails fraudulentos nos quais criminosos tentam se passar por órgãos oficiais para obter informações.

    O governo de Vladimir Putin nega estar envolvido nos ataques e diz que não há evidências de sua participação. Não é a primeira vez, no entanto, que o governo ou atores russos são acusados de hackeamento.

    Outras suspeitas

    ELEIÇÕES AMERICANAS DE 2016

    A inteligência americana identifica o Cozy Bear como um dos grupos de hackers que invadiu a rede de computadores do comitê nacional do Partido Democrata e vazou emails antes das eleições presidenciais de 2016. Durante a mesma corrida eleitoral, o chefe de campanha da então candidata democrata Hillary Clinton, John Podesta, foi outro que teve seus emails hackeados. As mensagens foram publicadas pelo WikiLeaks. O comitê de Hillary acusou o governo russo pela invasão. Houve diversas acusações de que as iniciativas foram fruto de um conluio entre Donald Trump e Vladimir Putin, mas as investigações sobre isso foram inconclusivas.

    ELEIÇÕES FRANCESAS DE 2017

    Na França, o comitê de campanha do então candidato à Presidência Emmanuel Macron também teve seus emails hackeados. Empresas de inteligência cibernética apontam hackers russos, provavelmente os mesmos que atuaram nas eleições americanas, como os responsáveis pela operação. Neste caso, o comitê de Macron já parecia estar preparado para o possível vazamento e incluiu entre seus materiais diversos documentos falsos. A estratégia, somada ao tipo de cobertura que a imprensa francesa fez do caso, diminuiu o impacto eleitoral da exposição do candidato, que venceu as eleições.

    ELEIÇÕES BRITÂNICAS DE 2019

    O governo do Reino Unido também acusou atores russosde tentarem interferir nas eleições parlamentares de 2019. Durante a corrida eleitoral, foram divulgados documentos de negociações entre conservadores britânicos e autoridades americanas. O material foi usado pelos trabalhistas para acusar os opositores de planejarem a privatização do NHS, o sistema público de saúde do país, o que foi negado pelos conservadores. Mesmo assim, o partido Conservador obteve a maioria do Parlamento, o que permitiu a manutenção de Boris Johnson no poder. Nos próximos dias, os britânicos esperam que seja publicizado um relatório oficial que avaliou a possível interferência da Rússia na política do país, inclusive sobre o plebiscito do Brexit, que em 2016 aprovou a saída do Reino Unido da União Europeia.

    Espionagem científica

    Os países não divulgaram quais instituições foram vítimas dos ciberataques, mas o ex-chefe da agência britânica de inteligência, Robert Hannigan, afirma que a Universidade de Oxford, assim como a empresa farmacêutica britânico-sueca AstraZeneca, parceiras no desenvolvimento de uma vacina, parecem ter sido um dos alvos.

    Cientistas de Oxford afirmam ter notado uma surpreendente semelhança entre seu projeto, um dos mais adiantados do mundo, e o trabalho que os cientistas russos relatam estarem fazendo.

    Ter acesso às informações de Oxford permitiria ao país furar a fila global de acesso à vacina, o que garante não apenas a antecipação de uma retomada econômica, mas também a possibilidade de venda internacional do imunizante.

    Os Estados Unidos, por exemplo, já anunciaram que vão financiar os testes clínicos do projeto de Oxford, na tentativa de conseguirem estar entre os primeiros a receber a vacina se o projeto der certo.

    US$ 1,2 bilhão

    é o valor que os Estados Unidos prometem investir no ensaio clínico da AstraZeneca

    O Brasil também terá acesso privilegiado ao fármaco, graças a uma parceria entre a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro, e a universidade inglesa, para que os testes sejam feitos no país, como tem ocorrido desde junho com voluntários. A gravidade da pandemia entre a população brasileira, submetida a uma alta velocidade de contágio, torna o país um lugar adequado para testar a eficácia do imunizante.

    O governo brasileiro prevê investir R$693,4 milhões no projeto, que permitirá à Fiocruz compartilhar tecnologia com os britânicos e produzir inicialmente 30,4 milhões de doses da vacina. A previsão é de que o primeiro lote fique pronto em dezembro, e o segundo, em janeiro. Depois que a eficácia do imunizante for comprovada, o país produzirá mais outras 70 milhões de doses.

    A Rússia afirma já estar num bom caminho para desenvolver a sua própria vacina, num projeto da Universidade Sechenov, em Moscou. O primeiro teste do projeto com humanos, com 38 pessoas durante um mês, já foi feito. A fase 3 do processo está marcada para começar em agosto. O Ministério da Defesa russo diz que planeja produzir 30 milhões de doses da vacina ainda em 2020.

    Dos cerca de 140 projetos de vacinas que estão em desenvolvimento no mundo, dois estão na fase final de testes com humanos. São eles, o da Universidade de Oxford, com a AstraZeneca, e o da farmacêutica chinesa Sinopharm.

    A farmacêutica Sinovac Biotech, também chinesa, deverá chegar nesse ponto no final de julho. O Brasil também participa deste projeto. Em junho, o governo do estado de São Paulo anunciou um acordo para a produção de doses da vacina chinesa no Instituto Butantan. Os termos do acordo ainda são sigilosos.

    Depois dos testes, o método científico exige meses de espera, até que se comprove que aqueles que receberam a vacina realmente ficaram imunes à doença. Para acelerar esse processo, um grupo de cientistas defende a possibilidade de expor voluntários ao vírus deliberadamente. A validade ética desse tipo de procedimento, que pode colocar em risco a saúde dos que se propuserem a participar do experimento, é questionada pela comunidade científica e sua aplicação na luta contra o novo coronavírus ainda está em debate.

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