Como a memória das células de defesa pode atuar contra a covid-19

Após estudos apontarem que anticorpos perdem efeito depois de alguns meses, pesquisa publicada na revista Nature levanta outra possibilidade de resposta imunológica duradoura contra o novo coronavírus

    A resposta imune do organismo à infecção pelo novo coronavírus se dá simultaneamente por meio de dois mecanismos: a criação de anticorpos e a ação de células de defesa capazes de matar outras células que já foram invadidas pelo parasita.

    O primeiro desses mecanismos, porém, pode não durar muito tempo. Desde junho, ao menos duas pesquisas mostraram que o nível de anticorpos em pessoas que se curaram da covid-19 diminuiu significamente dois ou três meses depois do contágio.

    O que os cientistas têm apontado agora é que a defesa feita pelo segundo processo, de resposta celular, por meio dos chamados linfócitos T, ou células T, pode ter um papel mais proeminente contra o novo coronavírus, o que garantiria a imunidade por mais tempo.

    Até a sexta-feira (17), a doença já havia contaminado quase 14 milhões de pessoas e matado cerca de 600 mil em todo o mundo. No Brasil, mais de 2 milhões de pessoas contraíram a infecção, e quase 78 mil morreram até a mesma data.

    Como ainda não existe uma vacina contra o novo coronavírus, e o processo para desenvolvê-la pode levar anos, a imunidade da população só poderia ser alcançada quando uma parcela significativa das pessoas fosse infectada. Novos doentes encontrariam, assim, barreiras para a transmissão do vírus, fazendo com que a pandemia perdesse força. A estratégia é criticada porque resultaria em grande número de mortes. Sua eficácia também é questionada porque dependeria do tempo de duração da imunidade, o que ainda não é conhecido pelos cientistas.

    Um novo estudo sobre células T

    Um estudo de pesquisadores de Cingapura publicado na revista Nature na quarta-feira (15) mostrou que as células T podem ter uma memória da infecção pelo novo coronavírus que dura décadas.

    Para chegar à conclusão, os pesquisadores analisaram 23 pacientes que se recuperaram da Sars (síndrome respiratória aguda grave, na sigla em inglês), também causada por um tipo de coronavírus. Essa epidemia começou na China em novembro de 2002, mas só foi notificada à OMS (Organização Mundial de Saúde) em fevereiro do ano seguinte. Ela se espalhou por 26 países e deixou 8.098 infectados e 774 mortos. Foi controlada em oito meses.

    Nos pacientes analisados, os cientistas descobriram que as células T dos recuperados ainda eram capazes de reagir à presença do vírus 17 anos após a infecção. Um estudo de 2016 já havia mostrado que essa memória poderia persistir acima de 11 anos. No caso do novo coronavírus, o mecanismo de proteção pode funcionar da mesma forma porque tanto o vírus da Sars quanto o agente causador da covid-19 são, segundo os cientistas, considerados betacoronavírus.

    “Esses achados demonstram que as células T específicas para vírus induzidas por infecção por betacoronanvírus são duradouras, apoiando a noção de que pacientes com covid-19 vão desenvolver imunidade a longo prazo por células T”, dizem os autores na pesquisa.

    Os cientistas perceberam durante o estudo que as células com memória para a Sars também reagiam ao Sars-CoV-2, o agente causador da covid-19. “Nossas descobertas também levantam a possibilidade intrigante de que células T de longa duração geradas após a infecção por vírus relacionados possam proteger ou modificar a patologia causada pela infecção por Sars-CoV-2”, afirmaram os pesquisadores.

    Mas as células T de pessoas que nunca tiveram contato com a Sars ou mesmo com o Sars-CoV-2 também reconheceram partes do novo coronavírus. A conclusão é que o contato que as pessoas tiveram com outros tipos de vírus que causam resfriados comuns no passado e a memória das células T na defesa do organismo nesses casos podem ajudar na resposta imune à covid-19, no que é chamado de reação cruzada. Esse sistema de resposta, porém, não acontece em todas as pessoas por igual, pois há indivíduos com deficiências na produção de anticorpos e nas respostas celulares.

    Os cientistas ressaltam, entretanto, que ainda é preciso fazer novos estudos para conhecer a distribuição, frequência e capacidade de proteção das células T no caso de reação cruzada.

    Como o organismo reage

    Anticorpos

    Eles enxergam os vírus apenas fora das células, por isso sua atuação pode ser limitada contra o novo coronavírus. Os anticorpos atuam melhor, por exemplo, no combate a bactérias, que são organismos independentes e, ao contrário dos vírus, não precisam entrar nas células para se multiplicar. A partir de certo momento, eles perdem a função e vão se degradando, o que já foi observado com doentes de covid-19. Presentes no plasma sanguíneo, os anticorpos podem ser identificados pelos testes rápidos, feitos a partir da coleta de sangue.

    Resposta celular

    É uma reação ao invasor dada pelos linfócitos T, ou células T. A célula invadida por um vírus denuncia a presença do parasita dentro dela para as células T, e um tipo específico delas (chamadas de CD8) libera proteínas tóxicas que desencadeiam um processo inflamatório para matar as células infectadas antes que o vírus possa se reproduzir e se espalhar pelo organismo.

    Por que as células T importam

    O resultado da pesquisa é uma possível resposta a uma dúvida que tem intrigado os cientistas. Se o nível de anticorpos em pessoas recuperadas da covid-19 cai nos meses seguintes à infecção, encurtando a imunidade, por que ainda são raros os relatos de pessoas que se reinfectaram com o novo coronavírus durante a pandemia? A memória das células T pode estar garantindo essa imunidade mais duradoura.

    No caso das pessoas que se infectaram com a Sars entre 2002 e 2003, as pesquisas mostraram que os anticorpos caíram abaixo do limite de identificação num período de dois a três anos, enquanto a memória das células T durou mais de décadas.

    A questão que envolve o papel dos anticorpos e das células de defesa têm reflexo também na busca por uma vacina, estratégia que tem sido considerada essencial para frear a pandemia já que muitos países não estão conseguindo controlar a transmissão da covid-19 por meio de medidas não farmacológicas, como o isolamento e o distanciamento social. As vacinas são capazes de induzir tanto a produção de anticorpos quanto uma resposta celular no organismo.

    Em texto publicado pelo Instituto Questão de Ciência, a microbiologista Natália Pasternak, que preside a instituição, afirma que o ideal é que se produza um imunizante com “ótima resposta celular e também de anticorpos”.

    As células T, por si só, não evitam que a infecção ocorra, porque elas só agem depois que o vírus entra em outras células. Por isso, é importante que a vacina estimule também a produção no organismo de anticorpos neutralizantes, que impeçam que as células sejam invadidas pelos vírus.

    ESTAVA ERRADO: O estudo de pesquisadores de Cingapura publicado na quarta-feira (15) saiu na Nature, e não na Science, como dizia a primeira versão deste texto. A informação foi corrigida às 13h53 de 19 de julho de 2020.

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