O novo front da guerra anticientífica do governo Bolsonaro

Tratamento já nos primeiros sintomas da covid-19 usando remédios sem eficácia comprovada ganha adeptos no país. Cloroquina e outros medicamentos são defendidos a partir de evidências anedóticas sem base em pesquisas sérias

Em 29 de junho, o Ministério da Saúde enviou ofício à presidência da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) para “enfatizar a importância do tratamento precoce, ao início dos primeiros sintomas” contra a covid-19, com uso de cloroquina. No documento, a pasta solicita a “ampla divulgação desse tratamento”.

Assinado pelo secretário de Atenção Especializada à Saúde, Luiz Otávio Franco Duarte, o ofício também foi enviado ao INI (Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas) e ao IFF (Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira), ligados à Fiocruz, órgão de pesquisa do governo federal.

Em 20 de maio, o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, assinou uma orientação que autorizava o uso da cloroquina ou hidroxicloroquina, derivado do medicamento, como tratamento precoce da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Isso mostrava que a maior autoridade sanitária oficial do país estava indicando um remédio sem eficácia comprovada para a doença.

Segundo o documento, pacientes com “sinais e sintomas leves” poderiam ser tratados com uma combinação de difosfato de cloroquina e azitromicina ou com uma combinação de sulfato de hidroxicloroquina mais azitromicina, outro remédio que, sozinho ou combinado com o cloroquina, simplesmente não funciona, segundo os testes científicos realizados durante os mais de quatro meses de pandemia.

Sinais e sintomas leves, de acordo com o protocolo, incluem febre, coriza, dor abdominal, tosse, fadiga e dor de cabeça. De acordo com orientação oficial do Ministério da Saúde, caberia ao médico decidir pelo uso dos remédios. E seria necessário o consentimento do paciente.

O principal garoto propaganda

Pazuello atendeu a uma vontade do presidente Jair Bolsonaro, que buscava ampliar a recomendação do remédio, até então só indicado para casos graves de covid-19, e mesmo nesse caso sem eficácia comprovada. A recusa do dois ministros da Saúde anteriores, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, de endossar a recomendação, levou à saída de ambos da pasta.

Durante toda a pandemia, Bolsonaro exaltou a cloroquina, inclusive em pronuciamentos nacionais em rede de rádio e TV, e tomou medidas para disseminar o medicamento no país. Ordenou que laboratórios do Exército iniciassem a produção do remédio, resultando na distribuição de 1 milhão de comprimidos até o fim de junho, segundo o Ministério da Defesa. Depois que disse ter recebido o diagnóstico de contaminação pelo coronavírus, em dois exames realizados em julho, Bolsonaro aproveitou para reforçar seu apoio ao medicamento, chegando a exibir caixas dele em transmissões na internet.

Na mais recente manifestação, na quinta-feira (16), Bolsonaro tentou atenuar a mensagem dizendo que não estava recomendando o uso do medicamento. Mas que, no caso dele, a cloroquina estava funcionando.

O presidente estava, no caso, usando aquilo que é chamado de evidência anedótica. São episódios individuais, que podem até ocorrer com outras pessoas, mas que não têm qualquer valor científico. Isso ocorre porque a maioria dos pacientes de covid-19 acabam reagindo à doença a partir de reação do próprio corpo, tomando ou não remédios.

Reportagem do Estado de S. Paulo de 11 de julho destacou o aumento exponencial de vendas registrado por empresas que fabricam o remédio no país, algumas delas comandadas por apoiadores de Bolsonaro.

Em maio, o Brasil aceitou uma doação de dois milhões de comprimidos de hidroxicloroquina do governo dos Estados Unidos. Na declaração conjunta que formalizou o envio, o Ministério da Saúde afirmou que parte dos remédios seria usado como tratamento de prevenção à covid-19 para profissionais de saúde.

O front do tratamento precoce ganha espaço

Na esteira da recomendação federal, a cloroquina e a hidroxicloroquina vêm sendo defendidas por médicos para o tratamento precoce ou preventivo da covid-19.

Além desses remédios e da azitromicina, em muitos casos o kit de tratamento precoce inclui também a ivermectina, um vermífugo que se tornou famoso depois de ser indicado pela médica Lucy Kerr em um vídeo no YouTube.

Em 2 de junho, o YouTube tirou a publicação da médica do ar. No site de sua clínica, localizada nos Jardins, em São Paulo, a recomendação segue, com o título “Coronavírus tem cura”.

A cloroquina e sua derivada, a hidroxicloroquina, são medicamentos usados para o tratamento de doenças como malária, artrite e lúpus. A ivermectina é utilizada contra infestações por parasitas, incluindo infestação por piolhos e sarna.

Em Brusque, Santa Catarina, uma filial da administradora de planos de saúde Unimed enviou de brinde a profissionais de saúde um kit com remédios para serem usados na prevenção da doença provocada pelo novo coronavírus. O kit contém 400 mg de hidroxicloroquina e 6 mg de ivermectina. A operadora afirmou seguir protocolo utilizado pela prefeitura de Porto Feliz, em São Paulo.

Reportagem do jornal Folha afirmou que um grupo de médicos no WhatsApp intitulado “Doutores de Verdade” vêm organizando doações de cloroquina em comunidades pobres de cidades pernambucanas em atendimentos sem a verificação de prontuário médico.

Na Paraíba, mais de 300 médicos enviaram em junho um abaixo-assinado pedindo que prefeitos do estado utilizem o protocolo do Ministério da Saúde e autorizem a administração de medicamentos como a hidroxicloroquina a pacientes com sintomas iniciais ou leves da covid-19.

Segundo uma das médicas que participaram do abaixo-assinado, os profissionais querem poder receitar os remédios à população pobre em vez de recomendar às pessoas que voltem para casa e aguardem o desenvolvimento da doença. “O médico fica se sentindo um combatente sem armas”, declarou a médica pediatra Socorro Martins à Rádio Campina FM.

Do outro lado do país, uma associação de médicos de 13 cidades do interior do Rio Grande do Sul solicitou com urgência um lote de medicamentos sem eficácia comprovada ao Ministério da Saúde. O pedido incluía 32,4 mil caixas de hidroxicloroquina e 37,9 mil de ivermectina.

“Nosso objetivo é tratar precocemente as pessoas. Chegar à população e dizer: 'Procure atendimento, porque tem como se tratar precocemente e evitar hospitalizações e óbitos'”, afirmou a cardiologista Eliane Reginato Monaretto, que integra o grupo, ao G1.

Um mês antes do protocolo do Ministério da Saúde, a cidade de Porto Feliz, no interior de São Paulo, começou a distribuir kits de tratamento precoce com cloroquina e azitromicina para pessoas com sintomas leves. Relatos posteriores dão conta de que a ivermectina passou a ser incluída nos pacotes oferecidos para usuários do SUS (Sistema Único de Saúde).

Defensores do tratamento precoce divulgaram Porto Feliz como exemplo de sucesso, o que desencadeou uma série de notícias falsas segundo as quais o município não havia registrado nenhum óbito por covid-19 até julho. Na verdade, morreram oito pessoas na cidade por causa da doença.

O discurso recorrente entre muitos dos defensores do tratamento precoce é de que pessoas não estariam sendo atendidas ou medicadas quando apresentam sintomas leves. Segundo essa linha de argumentação, muitos acabam desenvolvendo a doença em casa, longe da assist��ncia médica.

Até o início de junho, o Ministério da Saúde recomendava que as pessoas ficassem em casa no caso de sinais leves de covid-19. Depois, já sob a gestão Pazuello, a orientação foi alterada. Pessoas deveriam procurar um médico para receber tratamento logo aos primeiros sinais da doença.

No fim de junho, a Secretaria de Gestão e Trabalho da Educação na Saúde publicou um vídeo sobre a nova orientação em que mostra caixas de cloroquina e diz que os pacientes poderão ter a opção de “receber medicamentos”.

“Perdi um sobrinho de 48 anos com covid-19. Ele chegou a procurar auxílio médico no início dos sintomas e o mandaram para casa. Pouco tempo depois a doença se agravou de forma drástica. As pessoas não podem colocar aspectos políticos acima da vida”, afirmou à revista Veja o empresário Carlos Wizard Martins, que comanda um grupo de profissionais da saúde defensores da cloroquina. Wizard teve uma passagem relâmpago pela pasta da Saúde em maio, a convite de Pazuello.

Para a deputada federal e médica Carla Dickson (PROS-RN) a pandemia é uma situação emergencial, na qual a comprovação científica da eficácia de remédios fica em segundo plano. “Estamos falando de vidas e precisamos fazer alguma coisa”, disse ela em um debate virtual que organizou na comissão da Câmara dos Deputados que acompanha o combate ao novo coronavírus.

Os reiterados apontamentos da ciência

Cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina não são reconhecidos como tratamentos contra covid-19 por uma ampla gama de entidades e especialistas. Os medicamentos não são endossados, por exemplo, por instituições como a OMS (Organização Mundial da Saúde) ou a FDA (o órgão americano de vigilância sanitária).

Órgãos sanitários de países como Portugal, EUA e França suspenderam o uso das substâncias pelo fato de elas não apresentarem eficácia contra a covid-19. E mais do que isso, as substâncias podem trazer efeitos colaterais, como arritmia cardíaca.

“Temos evidências suficientes para saber que não há nenhum impacto para pacientes hospitalizados com covid-19”, disse Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 7 de julho.

A SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) divulgou um comunicado na sexta-feira (17) reafirmando posicionamento contrário ao uso da hidroxicloroquina no combate à covid-19, como profilaxia e em pacientes hospitalizados.

A entidade citou dois estudos publicados na quinta-feira (16) para embasar sua declaração. Um deles, realizado em 40 estados americanos e 3 províncias canadenses, não registrou melhora de condições de saúde nem diminuição de óbitos entre pessoas que tomaram hidroxicloroquina. Mais da metade destas pessoas, receberam o remédio no primeiro dia de sintomas. Cerca de 43% dos que ingeriram hidroxicloroquina tiveram efeitos adversos, como dor abdominal, diarreia e vômitos.

Dentro da própria Fiocruz, que faz parte da estrutura do Ministério da Saúde, a cloroquina é rechaçada. Segundo Cláudio Maierovitch, coordenador do Núcleo de Epidemiologia e Vigilância da entidade em Brasília, “não há base científica para a cloroquina, pelo contrário, há evidências de que não deve ser utilizada. Mas, se recebe comunicado do Ministério da Saúde, não pode deixar de informar seus profissionais. Internamente, é conhecido [na Fiocruz] que [a cloroquina] não tem eficácia".

Além da arritmia cardíaca, a cloroquina comprovadamente pode causar os seguintes efeitos colaterais: dor de cabeça, enjoo, vômitos, diarreia, coceiras, irritações na pele, confusão mental, convulsões, queda da pressão arterial, fraqueza muscular, perda da visão e sangramentos.

Quanto à ivermectina, até julho de 2020 todos os estudos sobre sua ação contra o coronavírus encontram-se em estágio inicial. O FDA americano não reconhece o remédio como tratamento, além de alertar contra possíveis efeitos colaterais. Seu equivalente brasileiro, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) também não aprovou a ivermectina como medicação para ser usada contra a covid-19.

Entretanto, a propaganda favorável e recomendações de profissionais acabam criando um contexto em que pacientes pedem ou exigem a administração dos remédios sem comprovação. “Em vez de ajudar, a cloroquina usada precocemente pode causar problemas que não existiam”, afirmou Denize Ornelas, diretora da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, à Folha de S.Paulo.

Uma pesquisa divulgada no início de julho pela Associação Médica de São Paulo verificou que quase metade de cerca de 2.000 médicos em todo o país disseram sofrer pressões de pacientes para a prescrição de tratamentos sem comprovação científica contra a covid-19.

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