3 boatos verificados esta semana para você ficar de olho

O ‘Nexo’ integra o Comprova, coalizão de 28 veículos jornalísticos que busca combater a desinformação

As redes sociais são um importante meio de comunicação para cidadãos e governos, ao divulgar e esclarecer assuntos de interesse público. Mas nelas também se proliferam posts, imagens e vídeos fabricados, manipulados ou retirados de contexto que podem causar danos. É um ambiente em que conteúdos podem ser disseminados rapidamente, sem preocupações com fonte ou veracidade.

Para combater a desinformação nas redes surgiu o Comprova, do qual o Nexo faz parte. A iniciativa, que teve início em 2018, está agora em sua terceira fase e conta com a colaboração 28 veículos de comunicação para monitorar e verificar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do governo federal, as eleições municipais de 2020 e a pandemia da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Abaixo, o Nexo selecionou três verificações feitas pelo Comprova na semana que passou. Confira:

Página usa taxa falsa de aprovação para elogiar Bolsonaro na pandemia

Um texto publicado em 13 de julho pelo site Notícias de Direita e depois retirado do ar afirmava que houve recorde de aprovação no governo Bolsonaro. O conteúdo afirmava que pesquisa recente do Datafolha tinha apontado 64% de aprovação do presidente. Na verdade, o texto plagiou uma reportagem do portal G1 de setembro de 2008. A reportagem original mostra números de aprovação do segundo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – e não de Bolsonaro.

Além da data e do nome do presidente, o site Notícias de Direita modificou apenas algumas informações na matéria original. Por exemplo, o texto que viralizou afirma que a popularidade de Bolsonaro é justificada pelo “bom desempenho na pandemia”. No texto original, na verdade, a avaliação positiva do governo Lula foi atribuída a um “bom desempenho na economia”.

A mais recente pesquisa do Datafolha, realizada nos dias 23 e 24 de junho, mostra que 32% dos brasileiros aprovam a gestão Bolsonaro – ou seja, a consideram ótima ou boa. Os brasileiros que acham a gestão ruim ou péssima compõem 44% das respostas.

A verificação foi realizada por A Gazeta e Piauí, e foi validada por outros veículos, incluindo o Nexo. Veja a verificação na íntegra.

Post cita medida inconstitucional para criação de tribunal militar pelo governo

Uma publicação no Facebook contendo texto e vídeo propôs a criação de um Tribunal Constitucional Militar. A proposta apresentada por André Basílio, que fala no vídeo, é que, a partir de um decreto-lei, o presidente da República deveria criar “um tribunal acima do STF” para “poder julgar ou absolver, se for o caso, os ministros do STF que têm praticado crimes aqui no Brasil”.

Basílio faz referência a um texto proposto pelo advogado Marcos David Figueiredo de Oliveira, que, em seu site, disse que o tribunal “seria a única opção constitucional diante da falência comprovada do Poder Judiciário e do Poder Legislativo”. No entanto, a utilização do decreto descrito pelo advogado é inconstitucional.

De acordo com Caio Augusto Silva dos Santos, presidente da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo), “os decretos-leis e regulamentos são normas para complementar leis que já existem”. Além disso, ações do Executivo, como o caso de Medidas Provisórias, não podem “ir além do que a lei autoriza” – nesse caso, criar um órgão com atuação superior ao Judiciário seria inconstitucional.

Pela lei, os Poderes devem ser “independentes e harmônicos entre si” – ou seja, um não pode se sobrepor ao outro. A separação de Poderes e a independência deles é prevista em cláusula pétrea, ou seja, que não pode ser modificada.

A verificação foi realizada por Folha de S.Paulo e UOL, e foi validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

Texto engana ao usar estudo de má qualidade a favor de medicamentos

Um texto publicado em maio no site Sappno e compartilhado recentemente por páginas do Facebook como “Aliança pelo Brasil” e “Lava Jato Notícias” traz informações equivocadas sobre o uso de medicamentos como hidroxicloroquina e azitromicina. A publicação engana ao sugerir que esses medicamentos têm eficácia comprovada no tratamento da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, usando como fonte um estudo que não segue métodos capazes de chegar a essa conclusão. Não há medicamentos hoje que tenham eficácia comprovada no tratamento da covid-19.

O estudo mencionado é o artigo “Tratamento precoce de pacientes com covid-19 com hidroxicloroquina e azitromicina: uma análise retrospectiva de 1.061 casos em Marselha, França”, publicado pela revista científica Travel Medicine and Infectious Disease, vinculada à plataforma ScienceDirect, em maio de 2020. A metodologia usada por esse estudo – observacional, que toma como base dados já disponíveis – não permite concluir relações de causa e efeito entre o uso dos medicamentos citados e o tratamento da covid-19. De acordo com Natalia Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência, esse tipo de estudo serve para direcionar se vale a pena fazer um estudo mais longo, com mais investimento e com mais etapas de pesquisa.

Além dessa questão metodológica, o artigo mencionado pelo texto viral é de qualidade questionável. “Nem grupo de controle de comparação eles usaram. Todo mundo no estudo deles tomou [os medicamentos]. Não tem comparação [com quem não tomou]. Numa doença em que você tem 90% de taxa de cura... Então, o que eles estão dizendo? ‘Olha, todo mundo que tomou hidroxicloroquina melhorou. Mas a gente não sabe se quem não tomou também melhorou porque a gente nem olhou isso’. Não faz sentido nenhum”, afirmou Pasternak.

Um dos autores do estudo é o infectologista francês Didier Raoult, que já foi criticado diversas vezes por utilizar métodos de pesquisa questionáveis e por seus posicionamentos em relação à cloroquina. Ele é um negacionista do aquecimento global e é contra a vacinação obrigatória.

A verificação foi realizada por Nexo e Jornal do Commercio, e foi validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

Você recebeu algum conteúdo sobre o novo coronavírus que gerou dúvida e gostaria que o Comprova checasse? Envie uma mensagem de WhatsApp para (11) 97795-0022 ou pelo site do Comprova.

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