Por que o Brasil é o país com mais mortes de gestantes por covid-19

De todos os óbitos de mulheres grávidas e no puerpério pelo novo coronavírus no mundo, 77% aconteceram em território brasileiro

    Uma pesquisa publicada em 9 de julho pelo Jornal Internacional de Ginecologia e Obstetrícia aponta que 124 mulheres gestantes ou no puerpério (período pós-parto) morreram em decorrência da covid-19 no Brasil entre 26 fevereiro, quando foi registrado o primeiro caso no país, em 18 de junho.

    Esse número representa a grande maioria das mortes maternas por covid-19 registradas no mundo, segundo o estudo, e ultrapassa o total de óbitos com esse perfil somados nos outros países.

    77%

    das mortes de gestantes e puérperas por covid-19 no mundo foram registradas no Brasil

    O levantamento foi realizado por pesquisadores da Unesp, UFSCar, Imip, UFSC e Fiocruz, que integram o Grupo brasileiro de estudos de covid-19 e gravidez, usando dados do Ministério da Saúde sobre as hospitalizações por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave).

    Com os números registrados até junho, a covid-19 é responsável por 7,3% do total anual de mortes maternas no Brasil, que corresponde a uma média de 1.700.

    978

    mulheres grávidas ou no puerpério foram diagnosticadas no Brasil com SRAG causada pela covid-19 durante o período do estudo

    Com base nos números, a taxa de letalidade do vírus entre gestantes é de 12,7% no país – a maior do mundo.

    Até a publicação do estudo, em 9 de julho, a literatura científica registrava outras 36 mortes maternas relacionadas à covid-19 no resto do mundo, totalizando 160 com os números do Brasil.

    Foram 16 nos EUA, uma na França, cinco no Reino Unido, sete no México e sete no Irã, segundo estudos recentes realizados nesses países. Em decorrência da subnotificação, porém, é possível que haja mortes de gestantes por covid-19 não registradas em outros lugares.

    O estudo lembra que o Brasil não tem uma política de testagem universal e que apenas mulheres que apresentam sintomas graves da doença são testadas, o que leva a crer que a quantidade de casos seja maior.

    Assim como ocorre em relação ao número geral de casos confirmados no país, “é certo que o número de infecções pela covid-19 nessa população está subnotificado”, afirmam os pesquisadores.

    Os riscos adicionais da covid-19 neste grupo

    Estudos realizados no início da pandemia de covid-19 indicavam que a população de gestantes e puérperas não pareciam apresentar um risco maior de desenvolver sintomas graves da doença em relação à população geral.

    Publicações mais recentes, porém, apontam que a gravidez e o pós-parto podem acarretar riscos adicionais que não devem ser minimizados.

    Uma das autoras do estudo, a obstetriz e pesquisadora Mariane Menezes explicou ao Nexo que isso acontece porque o organismo das gestantes “passa por diversas alterações para conseguir suprir as necessidades do feto, entre elas, alterações cardíacas e imunológicas”.

    As mudanças no sistema imunológico garantem que o corpo da mulher não expulse o feto como um “objeto estranho”, mas também têm impacto direto, por exemplo, na resposta imunológicas das gestantes a doenças respiratórias como a covid-19.

    Os agravantes do contexto brasileiro

    O estudo mostra que das 987 mulheres gestantes ou puérperas que foram diagnosticadas com a covid-19 no Brasil, 207 (21%) foram admitidas em UTIs (Unidade de Terapia Intensiva). Dessas, 134 se recuperaram e 73 morreram.

    Entre o total de 124 mortes registradas pela pesquisa, 22,6% não tiveram acesso à UTI e somente 64% foram submetidas à ventilação invasiva, ou seja, intubação – um dos últimos recursos para pacientes em estado grave. Outros 14,6% dos casos fatais não receberam nenhum tipo de ventilação mecânica e 21,4% foram tratados apenas com ventilação não invasiva.

    Para os pesquisadores, esses dados indicam que o número de mortes de pacientes obstétricas da covid-19 no Brasil tem relação com a dificuldade de acesso a UTIs e equipamentos como ventiladores. Para Menezes, a pesquisa aponta que houve “uma demora para as mulheres conseguirem assistência ou para conseguir o tratamento necessário dentro das instituições de saúde”.

    Assim como na população geral, comorbidades como diabetes, doenças cardiovasculares e obesidade também são associadas pelo estudo a uma mortalidade maior pela covid-19 entre gestantes e mães no puerpério.

    Menezes afirmou que a prevalência maior dessas comorbidades entre as brasileiras em relação a mulheres de outros países também pode ser um dos fatores que tornam a mortalidade materna por covid-19 maior no país. Essa questão se associa à qualidade do pré-natal no Brasil, que tem influência na identificação e no controle dessas comorbidades durante e logo após a gestação.

    Para evitar mais mortes maternas por covid-19 no país, Menezes aponta como medida fundamental melhorar o acesso dessas mulheres às instituições de saúde.

    Ela também considera importante ter uma política de testagem que aplique testes para a covid-19 em todas as gestantes, com ou sem sintomas. Isso facilitaria o diagnóstico precoce da doença e o acesso ao acompanhamento necessário. Também são necessárias melhoria nos cuidados no pré-natal e políticas de proteção para garantir o isolamento social neste grupo.

    “Estamos no meio de uma pandemia e vemos gestantes que têm que ir para o trabalho, que estão em contato direto com o público, aumentando o risco de exposição mesmo já tendo sido incluídas no grupo de risco pelo Ministério da Saúde”, disse Menezes.

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