Por que a volta do crescimento na China gera desconfiança

Atividade econômica chinesa volta a crescer no 2º trimestre, mas dados não animam mercado. Cenário no país que lidou primeiro com o coronavírus dá sinais de como será a recuperação em outros lugares

    O PIB (Produto Interno Bruto) da China cresceu 3,2% no segundo trimestre de 2020, na comparação com o mesmo período de 2019. O dado foi divulgado na quinta-feira (16) pelo governo chinês, e superou as expectativas do mercado. A alta na atividade indicou que a segunda maior economia do mundo pode estar caminhando em direção à retomada, após o tombo histórico no primeiro trimestre devido à pandemia do novo coronavírus.

    Entre janeiro e março, a economia chinesa teve retração de 6,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Foi a primeira queda da economia chinesa registrada nas estatísticas oficiais desde 1976. No acumulado dos seis primeiros meses de 2020, o PIB chinês teve queda de 1,6% na comparação com o primeiro semestre de 2019.

    EVOLUÇÃO DESDE 2015

    Crescimento trimestral do PIB da China.  Em torno de 7% a cada trimestre de 2015 a 2019. Em 2020, tombo no primeiro trimestre e crescimento médio no segundo

    Mesmo com a divulgação do dado positivo, as bolsas chinesas tiveram na quinta-feira a pior sessão desde fevereiro, quando o país ainda era o epicentro da pandemia e as medidas de restrição da circulação eram aplicadas de forma rigorosa. O tombo das bolsas foi da ordem de 5%. Abaixo, o Nexo explica por que o dado positivo foi recebido com desconfiança pelos mercados financeiros.

    Os dados positivos

    O crescimento do PIB da China no segundo trimestre ocorreu de forma assimétrica. Alguns setores apresentaram números promissores enquanto outros mostraram que ainda estão frágeis.

    A alta da economia chinesa foi puxada pela indústria. Entre abril e junho, foram três meses consecutivos de elevação na produção industrial, acumulando alta de 4,4% na comparação com o segundo trimestre de 2019.

    A atividade industrial chinesa tem contado com papel importante do governo – algo que vem desde antes da pandemia. O investimento de empresas públicas cresceu 2% no primeiro semestre em relação aos primeiros seis meses de 2019. Já o investimento de empresas privadas caiu 7% na mesma comparação.

    Projetos públicos de infraestrutura – em especial na área de energia – tem crescido, e os governos locais estão aumentando seus endividamentos para elevar despesas e investimentos. Esses gastos ajudam a aquecer a economia e manter mais pessoas empregadas no momento de crise.

    Ao mesmo tempo, as exportações e importações da China também aumentaram no segundo trimestre de 2020. As exportações acompanham o movimento da indústria do país: como as fábricas chinesas foram reabertas antes de fábricas de outros países exportadores, os produtos fornecidos pelas empresas chinesas ocuparam parte de um espaço esvaziado nas cadeias de suprimentos globais.

    Os dados negativos

    Por outro lado, os dados de varejo mostraram que a economia chinesa ainda sente os efeitos negativos da pandemia. As vendas tiveram queda de 3,9% no segundo trimestre, na comparação com o mesmo período de 2019. Isso indica que o consumo não acompanha o mesmo ritmo que outras partes da economia, como a produção industrial.

    Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho chinês não dá sinais consistentes de recuperação. O desemprego ficou em 5,7% em junho, com números mais elevados entre jovens.

    O jornal britânico Financial Times ouviu especialistas que apontaram que os números do crescimento chinês não parecem sustentáveis. O protagonismo dos investimentos públicos e os números fracos do consumo explicariam a reação ruim dos mercados financeiros aos números do PIB da China no segundo trimestre.

    O que os números dizem para o resto do mundo

    Por ter sido o primeiro país a ser atingido pelo novo coronavírus – e também o primeiro a adotar medidas de isolamento social para reduzir o contágio –, a China acaba servindo de parâmetro para outros lugares. O PIB do segundo trimestre de 2020 ajuda a ter uma ideia de como poderá ser a recuperação econômica em outras partes do mundo.

    Apesar do crescimento, os sinais mistos dados pela economia chinesa indicam que haverá dificuldade em sustentar uma recuperação robusta, mesmo em países onde a pandemia foi controlada. A forma como ocorreu o crescimento chinês entre abril e junho mostra que a recuperação do consumo e do investimento privado deverá ocorrer de forma lenta, o que afastaria a possibilidade de uma recuperação rápida – que economistas têm chamado de recuperação em forma de “V”, com crescimento acelerado após a queda aguda.

    O estado da pandemia na China

    A China foi o primeiro epicentro da pandemia de covid-19 no mundo. Os primeiros casos do novo coronavírus em humanos foram detectados no fim de dezembro de 2019 na província chinesa de Wuhan. A suspeita mais forte é a de que o vírus se originou em morcegos.

    Conforme a doença foi se espalhando nos primeiros dias de 2020, foi crescendo o temor de que o surto poderia levar a uma ocorrência grave na área da saúde. Ainda no final de janeiro, a China decidiu implementar as primeiras medidas de restrição de circulação de pessoas, mantendo milhões isolados.

    Foram mais de dois meses com medidas de isolamento social rigorosas em diversas regiões do país. No final de março, as restrições começaram a ser retiradas gradualmente. Apesar de alguns surtos locais após a reabertura, no geral contidos com a volta de medidas localizadas de distanciamento social, o país convive em meados de julho com raros casos de transmissão local do vírus.

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