Os rendimentos da poupança e da renda fixa na pandemia

Queda na taxa básica de juros reduz ganhos nominais de investimentos, e aumento previsto da inflação pode levar à perda de dinheiro aplicado na caderneta

    Em julho de 2019, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central anunciou a primeira redução da taxa básica de juros após 16 meses com a meta da taxa Selic estacionada. A então nova taxa de 6% ao ano marcou o patamar mais baixo desde o início do regime de metas da inflação, em 1999. A ideia do comitê era estimular a economia brasileira, reduzindo o custo do crédito e impulsionando a atividade.

    Um ano depois, em 2020, a situação mudou consideravelmente. Com a pandemia do novo coronavírus, a economia brasileira entrou em recessão, com projeção de ter seu pior tombo anual da história. Nesse contexto, o Copom acelerou o processo de redução dos juros, buscando frear a queda da economia. Em junho, a Selic caiu para 2,25% ao ano – algo que, até pouco tempo atrás, era inimaginável em um país que tinha juros com dois dígitos até meados de 2017.

    EVOLUÇÃO DOS JUROS

    Evolução para as metas da taxa Selic. Queda a partir do final de 2016 e estagnação entre o começo de 2018 e meados de 2019. Até julho de 2020, queda forte da Selic, parando em 2,25% ao ano em julho

    A taxa Selic é usada como base para a definição dos juros em outros pontos da economia. Entre eles, está o rendimento da caderneta de poupança.

    Como é calculada a poupança

    O rendimento da poupança é calculado de jeitos diferentes para depósitos feitos antes e depois de 3 de maio de 2012.

    O dinheiro colocado antes dessa data rende a uma taxa de 0,5% ao mês – ou 6,17% ao ano. A esse rendimento, soma-se a Taxa Referencial de juros, que desde 2017 está zerada.

    Se o dinheiro foi aplicado na poupança a partir de 4 de maio de 2012, o rendimento é calculado tendo a taxa Selic como referência. Se a meta da Selic estiver acima de 8,5% ao ano, a poupança renderá à taxa de 0,5% ao mês, mais a Taxa Referencial. Se a Selic estiver abaixo de 8,5% ao ano – como ocorre desde setembro de 2017 –, o rendimento da poupança será 70% da Selic, somados à Taxa Referencial.

    A cada queda da Selic abaixo de 8,5% ao ano, portanto, o rendimento da poupança cai junto.

    Os efeitos da inflação

    Na prática, o rendimento da poupança também é afetado por outro fator que não aparece na fórmula do cálculo. Trata-se da inflação, que pode corroer os ganhos reais da aplicação na poupança.

    Tanto a taxa Selic como o rendimento da poupança têm valores nominais e reais. O rendimento nominal é aquele que não considera os efeitos de corrosão da inflação. Se um investimento rende a 10% nominais ao mês e nesse período os preços da economia não mudam (não há inflação), o ganho real foi de 10%. Mas se esse rendimento de 10% for acompanhado de um aumento de 10% nos preços da economia, o ganho real foi nulo.

    Portanto, para calcular o rendimento real de algo – seja dos juros básicos, da caderneta de poupança ou de um fundo de ações –, é necessário subtrair a inflação dos ganhos nominais.

    Em 2020, por conta da paralisação parcial da economia na pandemia, a inflação está em baixa. No acumulado de 12 meses, a inflação no Brasil passou o segundo trimestre de 2020 inteiro abaixo do piso da meta do Banco Central. Nos meses de abril e maio, houve queda nos preços, conforme medidos pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), divulgado mensalmente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

    INFLAÇÃO EM BAIXA

    Trajetória da inflação e metas no Brasil. Em 2020, IPCA acumulado em 12 meses está abaixo do piso da meta desde abril.

    Para a caderneta de poupança, uma inflação baixa significa uma corrosão menor dos ganhos nominais. Portanto, em um contexto de juros baixos, a inflação baixa pode ajudar a amenizar (ou até compensar) quedas nos rendimentos da aplicação.

    O rendimento real da poupança

    Com os juros em baixa, o rendimento real da poupança estava próximo do zero nos primeiros meses de 2020. A queda dos preços em abril e maio, no entanto, ajudou a impulsionar o rendimento real da poupança. Como os preços caíram, o poder de compra dos ganhos financeiros aumentou na prática.

    Em junho, a inflação voltou a subir, com elevação de 0,26% nos preços, conforme medido pelo IPCA. Esse novo crescimento dos preços, somado à redução dos juros, levou o rendimento da poupança a uma nova queda. Ao fim do primeiro semestre de 2020, os ganhos reais acumulados em 12 meses com a poupança ficaram em cerca de 1,2%.

    INFLAÇÃO DESCONTADA EM 12 MESES

    Rendimentos reais acumulados em 12 meses: Selic e poupança. Ambos oscilando em patamares baixos desde o final de 2019, mas sempre com a poupança rendendo menos

    Para o segundo semestre, as expectativas sobre a taxa de juros e a inflação apontam para uma nova queda no rendimento real da poupança. É o que diz o relatório Focus, do Banco Central, que semanalmente compila as expectativas de agentes do mercado.

    Segundo a edição do relatório publicada em 10 de julho, as expectativas sobre a inflação até o final do ano estão subindo gradualmente. Portanto, cada vez mais se espera que a inflação volte a ganhar corpo e suba de patamar até o fim de 2020.

    Paralelamente, espera-se que a taxa Selic caia novamente até a virada para 2021. Os agentes do mercado esperam que a taxa básica de juros feche dezembro em 2% ao ano.

    Se as expectativas se confirmarem e houver uma combinação de inflação mais alta e juros mais baixos, os rendimentos reais da poupança devem ser prejudicados. A depender do tamanho da queda, a poupança pode acumular ganhos reais negativos em 12 meses, como já ocorreu sistematicamente entre 2015 e 2016. Ou seja, na prática o dono da caderneta pode perder dinheiro ao deixá-lo na poupança.

    A renda fixa na pandemia

    A poupança é uma das modalidades de investimentos de renda fixa, em que o investidor já sabe, no momento em que aplica, como vai ser o rendimento do dinheiro ao longo do tempo. Eles costumam atrair pessoas com perfil mais conservador, que querem fugir das incertezas da renda variável – por exemplo, a bolsa de valores.

    Isso não quer dizer, no entanto, que é possível calcular com antecedência exatamente o valor recebido ao fim de uma aplicação em renda fixa. Isso porque boa parte dos investimentos são os chamados pós-fixados. Ou seja, quando se aplica o dinheiro, combina-se que os rendimentos serão pagos com base em um índice pré-determinado, mas de valor futuro ainda desconhecido. Os dois principais exemplos de índices usados no Brasil são a inflação e a Selic.

    Em 2020, no contexto da pandemia, tanto a Selic como a inflação estão em níveis baixos. Assim, os investimentos indexados a cada um desses dois componentes renderão menos. Além da poupança, outros exemplos de investimentos de renda fixa são aplicações como o Tesouro Direto, o CDB (Certificado de Depósito Bancário), a LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e a LCA (Letra de Crédito Agrário).

    A atratividade da renda variável

    Como a Selic serve de referência para o restante da economia, se a sua taxa cai, a tendência é que isso reduza os rendimentos de renda fixa e diminua a atratividade desses investimentos. Em compensação, cresce a atratividade de investimentos de renda variável, em que um ativo pode ou não valorizar após a compra.

    No caso de aplicações na bolsa, por exemplo, há ações que pagam dividendos, mas quem compra esses papéis geralmente está apostando no aumento dos preços das ações. Outros investimentos comuns de renda variável são em moedas estrangeiras. Os investidores vão à bolsa ou ao mercado de câmbio, compram ações (ou, por exemplo, dólares) e esperam os ativos se valorizarem para vender com ganhos.

    Esse tipo de investimento pode proporcionar ganhos muito maiores que a renda fixa, mas também perdas, e exige mais atenção do investidor aos movimentos do mercado. Em 2020, após um tombo enorme em fevereiro e março, a bolsa de valores passou a subir e recuperar boa parte do que foi perdido no início da pandemia. Em meados de julho, o Ibovespa – principal índice da bolsa de São Paulo – superou o patamar de 100 mil pontos pela primeira vez desde o início de março.

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