O estudo que fala em ‘bolhas de proteção’ na cidade de SP

Pesquisadores criticam tese de imunidade de rebanho e afirmam que isolamento social limitou as possibilidades de disseminação da doença na capital paulista dentro de cada rede de contágio

    Os números de infectados e mortos pelo novo coronavírus e de internações por covid-19 na cidade de São Paulo têm caído desde o fim de junho, mesmo com a reabertura gradual da economia e a flexibilização do isolamento social. Segundo um estudo de pesquisadores que integram o grupo interdisciplinar Ação Covid-19, a explicação para a queda pode estar na formação de “bolhas de proteção” pela capital e no esgotamento de redes de contágio — e não numa suposta imunidade de rebanho.

    A conclusão dos pesquisadores Patrícia Magalhães, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, e José Paulo Guedes Pinto, da Universidade Federal do ABC, é que embora as pessoas ainda estejam suscetíveis ao novo coronavírus, elas passaram a ficar isoladas e protegidas numa espécie de bolha.

    Isso acontece porque as pessoas tendem a circular pelos mesmos ambientes. Como muitos desses ambientes já registraram contágios pelo novo coronavírus, formou-se ao redor dessas pessoas uma barreira de indivíduos que já se tornaram imunes à doença.

    Essa proteção também é reforçada pelas medidas de distanciamento social que ainda mantêm parte da população em casa. As quarentenas foram capazes de garantir uma redução na velocidade de transmissão do vírus, e isso levou a um esgotamento das redes de contágio das pessoas depois da fase inicial do surto.

    Esse equilíbrio criado pelas bolhas de proteção, porém, é frágil e pode ser ameaçado caso uma quantidade significativa de pessoas infectadas volte a circular livremente. Como não há uma imunidade de rebanho, quando toda a população estaria protegida, ainda existe o risco do aparecimento de novos surtos e do aumento de mortes, segundo os pesquisadores.

    A diferença com a imunidade de rebanho

    A ideia de imunidade coletiva, também chamada de rebanho, prevê que a transmissão de um vírus tende a perder força porque uma parte significativa da população foi imunizada por meio de vacinas ou por já ter contraído o agente infeccioso e desenvolvido anticorpos. Dessa forma, novos doentes não conseguiriam contaminar os demais porque eles já estariam protegidos.

    Como no caso do novo coronavírus ainda não há uma vacina, essa imunidade só poderia existir a partir de uma contaminação massiva da população. Por apostar nela, o isolamento social não seria adotado. Reino Unido e Suécia chegaram a defender a estratégia, mas recuaram depois do aumento de casos e de mortes. Países vizinhos que fizeram distanciamento social conseguiram controlar a doença.

    Muitos epidemiologistas rechaçam a estratégia de imunidade de rebanho porque ela resultaria em um grande número de mortos. No caso da covid-19 no Brasil, as maiores vítimas são os mais pobres e negros.

    O conceito ganhou força como uma possível explicação para o recrudescimento da pandemia em algumas regiões do Brasil desde que um estudo foi publicado no final de junho pela revista Science. Pesquisadores desenvolveram um modelo que projetou que as populações, por serem heterogêneas, poderiam ficar protegidas da covid-19 se ao menos 43% contraíssem o vírus e adquirissem anticorpos. Até então, considerava-se que esse efeito ocorreria com a infecção de no mínimo 60% das pessoas.

    “Esse debate que considera o que está acontecendo como imunidade de rebanho é forçado. A pesquisa de soroprevalência [que identifica a presença de anticorpos contra o novo coronavírus no sangue] que mostrou mais gente contaminada foi a da cidade do Rio de Janeiro. A população da Cidade de Deus chegou a 28% de contaminados. Na Rocinha e Maré, por exemplo, por eles terem atuado para reduzir a contaminação, ficou em 20%, mais ou menos. Mas isso não é imunidade de rebanho”, disse ao Nexo o pesquisador José Paulo Guedes Pinto.

    Segundo a pesquisa divulgada pela revista Science, o efeito de rebanho poderia ocorrer, a depender do caso, a partir da contaminação de ao menos 34% da população, o que ainda está distante de acontecer no Brasil. Em São Paulo, um estudo de soroprevalência feito no final de junho mostrou que apenas 9,5% da cidade teve contato com o vírus.

    Já no caso da tese das bolhas de proteção, o vírus não para de circular, como ocorreria numa situação em que a imunidade coletiva fosse criada. As pessoas continuam suscetíveis à contaminação, mas o isolamento social ainda em vigor é suficiente para criar “ilhas” de proteção em determinados bairros.

    “O vírus está circulando numa velocidade menor, por isso que você consegue explicar a diminuição dos leitos. Mas ainda tem gente sendo internada e tem gente morrendo”, afirmou o pesquisador.

    Ao mesmo tempo, pessoas que descumpriram o isolamento e foram às ruas podem já ter se contaminado e transmitido o vírus em seus círculos mais próximos. Passados quatros meses da pandemia, eles já não contaminam mais, porque tendem a circular nos mesmos ambientes, na presença de indivíduos possivelmente imunizados. Isso faz com que as redes de contágio se esgotem, de acordo com o estudo.

    O risco de estouro das bolhas

    O problema das bolhas, segundo a pesquisa, é que elas são frágeis e podem estourar a qualquer momento. Basta, para isso, que uma quantidade de infectados seja introduzida a esse círculos que estavam “protegidos”. Isso pode acontecer com a chegada de doentes de fora das bolhas de proteção, ou pela circulação maior de pessoas contaminadas dentro da própria cidade.

    “Se o vírus encontrar um novo nicho em que pode se propagar com mais velocidade, ele vai se propagar. Ele continua circulando no ambiente, não desaparece”, disse a pesquisadora Patrícia Magalhães ao Nexo.

    Segundo ela, da mesma forma que a cidade de São Paulo — que registrou o primeiro caso e a primeira morte pela doença no país — levou o vírus para o interior, regiões do interior do estado podem levar o vírus para outras áreas do país que estão menos contaminadas. E há ainda o risco de haver um efeito bumerangue, em que a doença volta do interior para a capital furando bolhas de proteção e causando novos surtos.

    “Como a gente não tem uma política de testagem, a gente não sabe onde as bolhas estão. Onde teve muita contaminação, como Brasilândia, talvez possa ser um lugar onde exista uma bolha de proteção, porque tanta gente já foi contaminada ali que realmente o vírus tem dificuldade de circular. Mas não tem como ter certeza. A gente não sabe quais lugares proteger”, afirmou a pesquisadora.

    O problema de São Paulo, segundo os autores do estudo, está no fato de ser várias cidades dentro de uma só. Pesquisas mostraram que bairros periféricos tiveram 16% de contaminados, enquanto em regiões centrais, mais ricas, apenas 6% dos moradores tiveram contato com o vírus. Isso daria uma ideia da distribuição das bolhas. Mas como elas não foram mapeadas por falta de uma ampla testagem, pode ser que em outras áreas da periferia, apenas 1% da comunidade tenha sido contaminada, tornando-a extremamente vulnerável a novos surtos.

    Se as bolhas fossem localizadas, os governos poderiam propor políticas de controle de mobilidade e de isolamento e realizá-las junto com as lideranças locais, segundo os pesquisadores. Agentes de saúde poderiam garantir que os moradores seguissem os protocolos para evitar o contágio, e os moradores poderiam ter alimentação e renda garantidas durante os períodos de restrição.

    “Já que a gente não sabe nada, a melhor política era o governador João Doria manter o isolamento como estava antes do Plano São Paulo [de reabertura], para deixar a população mais segura. Se soubesse onde estão as bolhas, aí sim poderia mudar [as regras]”, disse Guedes Pinto.

    Lockdown teria salvado vidas

    Os pesquisadores também simularam o que aconteceria se a cidade de São Paulo tivesse adotado um lockdown a partir de 20 de maio, por períodos de 15 a 20 dias. Este tipo de isolamento é o mais restritivo, e só permite a circulação de pessoas com justificativa para ir ao supermercado ou à farmácia, por exemplo. Em maio, a medida ainda era cogitada pelos governos da cidade e do estado, quando os índices de isolamento social variavam de 46% a 55%. Nos dias seguintes, porém, Doria anunciou o plano de reabertura mesmo com a pandemia em alta.

    Num cenário de lockdown de 15 dias com 70% de isolamento, haveria uma redução de 8,2% nos casos e de 32% nas mortes. Se durasse mais cinco dias, os casos teriam queda de 14%, e as mortes, de 46,7%, o que representaria 3.778 vidas salvas. Até a quarta-feira (15), a capital tinha 179.850 casos e 8.574 mortes pela doença.

    Segundo Magalhães, como os números de casos e mortes estão em queda na cidade de São Paulo, é difícil que um lockdown seja adotado neste momento. “Mas pode ser que a gente ainda possa precisar do lockdown, porque essas bolhas vão explodir. E a gente vai ter que confinar todo mundo severamente”, disse.

    Para ela, o isolamento adotado na cidade, mesmo com falhas, ajudou a salvar vidas. “Se a gente não tivesse tido nenhum tipo de confinamento, a gente teria visto uma Manaus acontecer em São Paulo. A gente chegou muito perto disso, só não chegou porque tiveram hospitais de campanha”, disse. Segundo a pesquisadora, porém, a política em São Paulo tem sido a de oferecer mais leitos aos doentes, sem se importar com o número de mortes pela covid-19.

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