Como o cigarro aumenta os riscos de infecção por covid-19

Adultos de 18 a 25 anos podem dobrar vulnerabilidade ao novo coronavírus por causa do tabaco, segundo pesquisadores americanos

    Jovens adultos de 18 a 25 anos que fumam têm o dobro de chances de manifestar um quadro severo de covid-19 em comparação aos não fumantes da mesma idade. A conclusão consta de um estudo publicado na segunda-feira (13) na revista científica Journal of Adolescent Health por pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

    A pesquisa buscou identificar fatores de risco em 8.405 pacientes e concluiu que 32% dos fumantes apresentavam vulnerabilidades médicas para a infecção, enquanto o número caía pela metade entre os jovens adultos que não fumavam. Segundo o estudo, o achado reforça a importância da prevenção e mitigação do tabagismo.

    Em nota, a professora Sally Adams, da Universidade da Califórnia, que conduziu os estudos, disse que as evidências indicam uma associação entre o hábito de fumar e uma maior probabilidade do agravamento de casos, internações em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e mortes.

    “Fumar pode ter efeitos significativos em jovens adultos que tipicamente apresentam baixa incidência para a maioria das doenças crônicas”, afirmou a professora. O número de vítimas jovens do novo coronavírus na maioria dos países é pequeno em comparação ao total de mortes – o que não significa que eles não devam se cuidar, já que transmitem a doença e podem ter sequelas.

    No Brasil, até o final de junho, 652 mortos por covid-19 tinham entre 20 e 29 anos, o equivalente a 1,2% do total de óbitos. Os maiores de 60 anos representaram 71,4% dos mortos. Essa taxa é bem maior em países como a Itália, onde 95,4% das vítimas da doença são idosos.

    Em maio, uma revisão de estudos feita por pesquisadores a pedido da OMS (Organização Mundial de Saúde) havia apontado que o cigarro aumenta as chances de pessoas de qualquer idade se infectarem pelo novo coronavírus e de manifestarem casos mais severos da doença.

    Esse risco maior de fumantes em relação a doenças respiratórias já era conhecido da ciência. Estudos anteriores mostraram que quem fuma têm duas vezes mais chances do que os não fumantes de contrair o vírus da influenza e ter sintomas mais severos da doença, por exemplo. Esse grupo também apresentou taxas de mortalidade maiores no surto de Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), em 2012, na Arábia Saudita, também causado por um tipo de coronavírus.

    428

    mortes devido a complicações causadas pelo cigarro são registradas por dia no Brasil, segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer)

    12,6%

    é a proporção de vítimas do tabagismo em relação a todas as mortes que ocorrem no país

    Os riscos do cigarro

    Em um trabalho publicado em abril nos Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), pesquisadores brasileiros lembram que há risco de contaminação pelo novo coronavírus entre os fumantes por eles levarem à boca cigarros ou mesmo dispositivos eletrônicos sem a “adequada higienização das mãos”.

    “A literatura indica que doenças como influenza, herpes labial e tuberculose são transmitidas por bocais do narguilé”, lembram os pesquisadores. A transmissão do coronavírus se dá por meio de gotículas de saliva expelidas por pessoas infectadas ao falar, espirrar ou tossir. Por isso, um dos modos de prevenção da doença é lavar as mãos com frequência e evitar levá-las aos olhos, nariz e boca.

    Outro risco para os fumantes se deve ao fato de o cigarro aumentar as chances de danos pulmonares. “O tabagismo está relacionado à bronquiolite respiratória (geralmente assintomática), com diversos tipos de pneumonias, além da bronquite crônica, enfisema pulmonar, tuberculose e cânceres de pulmão, promovendo o declínio da função pulmonar”, diz o estudo.

    O tabaco também torna quem fuma mais vulnerável ao novo coronavírus por aumentar a presença no organismo da chamada ECA2 (enzima conversora de angiotensina 2). É ela que codifica uma proteína usada pelo Sars-CoV-2, o agente causador da covid-19, para entrar nas células e se reproduzir.

    “Alterações e danos pulmonares causados pelo uso de produtos do tabaco poderiam ser considerados fatores de risco para manifestações e evoluções mais graves da covid-19”, escrevem os pesquisadores.

    O cigarro também aumenta a predisposição à trombose, complicação observada em grande parte dos casos graves de doentes de covid-19. Há estudos que mostram que coágulos intravasculares ocorreram em 71% das mortes pela doença e em 0,4% dos sobreviventes.

    Em abril, pesquisadores chineses publicaram na revista New England Journal of Medicine que fumantes infectados pelo novo coronavírus têm 3,25 vezes mais chances de desenvolver quadros graves da doença.

    Fumar na pandemia

    Uma das preocupações dos especialistas é que as pessoas fumem mais durante a pandemia, já que o hábito tende a aumentar quando as pessoas são expostas a desastres naturais e a situações de estresse.

    Uma pesquisa de comportamento feita entre abril e maio pela Fiocruz mostrou que, na pandemia, apenas 12% dos fumantes diminuíram a quantidade de cigarros consumidos. Metade dos entrevistados manteve o mesmo hábito, e 34% aumentaram o consumo de cinco a 20 cigarros a mais do que fumavam antes.

    Em maio, a OMS recomendou que os fumantes interrompessem imediatamente o hábito por causa da pandemia e incentivou a adoção de programas e terapias para ajudá-los a parar.

    Em entrevista ao jornal The New York Times, em abril, Jonathan Winickoff, um dos diretores do Centro de Pesquisa e Tratamento do Tabaco do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos, afirmou que parar de fumar durante a pandemia salva não só a vida do fumante como evita que, caso infectado pelo novo coronavírus, ele precise de tratamento nos hospitais, permitindo que o leito seja usado para salvar a vida de outra pessoa.

    A OMS também pediu para que os pesquisadores, cientistas e empresas de mídia tivessem cautela na divulgação de notícias sobre a capacidade do tabaco de reduzir os riscos de infecção pela covid-19. Em abril, vários veículos de imprensa reproduziram uma pesquisa francesa que apresentava a nicotina como tendo um efeito protetor ao novo coronavírus.

    Num painel organizado pela Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) em junho, o presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, Frederico Fernandes, afirmou que o estudo francês usou dados controversos e mostrou reportagens apontando que um dos autores do estudo havia recebido financiamento da indústria do tabaco durante anos. “O que pra mim representa o maior conflito de interesses possível”, disse.

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