Qual o tamanho do estrago da pandemia na economia noturna

Baladas e casas de show ficam em último lugar na reabertura devido aos riscos que apresentam. Ajuda do poder público pode atenuar impactos em uma área que estimula turismo e cultura

    Temas

    As consequências da pandemia do novo coronavírus têm sido brutais para atividades e negócios nos setores de cultura e o entretenimento. O impacto tem sido ainda pior em baladas e casas de show.

    São operações que precisam do movimento presencial para acontecer. Operações em que a aglomeração, que espalha o vírus, é inevitável.

    Nos planos de reabertura de países e cidades, esses estabelecimentos geralmente ficam nas últimas etapas devido ao alto risco de transmissão do vírus que apresentam.

    Segundo o plano de reabertura do governo britânico, a retomada de “locais cujo propósito principal é a interação social (como casas noturnas) talvez só seja completamente possível significativamente mais tarde, a depender da redução no número de infecções”.

    Mesmo quando é possível a reabertura, caso de bares em diversas cidades do mundo desde o mês de junho, o processo tende a ser gradativo e sujeito a restrições que buscam manter distanciamento entre frequentadores.

    Na cidade de São Paulo, por exemplo, as novas normas para bares incluem ocupação de apenas 40% da capacidade, atendimento apenas a clientes que estiverem sentados e abertura por apenas seis horas, encerrando às 17h.

    Uma pesquisa feita pela Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), entre os dias 6 e 7 de julho, revelou que oito de cada dez bares da capital declararam ser inviável economicamente se adaptar à nova regra de horário. Preferem seguir fechados.

    A situação das baladas

    Baladas e casas de shows nem chegam a ser citadas nos planos de reabertura do estado de São Paulo. Em cidades europeias como Madri, na Espanha, e Berlim, na Alemanha, já há uma abertura gradual. Na capital espanhola, elas voltaram a funcionar em 3 de julho, mas sem pista de dança.

    Já os habitantes de Berlim podem, desde o fim de junho, frequentar baladas com áreas externas. Também não é possível dançar e o distanciamento social deve ser mantido.

    “Acho que vai ser uma hecatombe, poucos vão sair dessa ilesos”, afirmou ao Nexo Facundo Guerra, empresário à frente de casas como Z Carniceria, Blue Note e Cine Joia. “Aqueles que tinham dinheiro em caixa já queimaram tudo. Nunca conheci um negócio que tivesse mais de três meses de caixa.”

    De acordo com Guerra, em uma escala de pior para menos atingidos, estão baladas, casas de show, especialmente independentes, e depois bares. Um dos custos mais pesados, lembra o empresário, são os preços dos aluguéis, em espaços que muitas vezes têm área grande. Ele lembra que alguns espaços, como Casa de Francisca, no Centro de São Paulo, têm apostado em lives bem produzidas e delivery de comida.

    “Acho que as festas e casas noturnas são o elo mais frágil nesse momento e ao meu ver o que mais necessita de uma ajuda pública para sobreviver”, disse ao Nexo Karen Cunha, curadora, consultora e gestora cultural em São Paulo. “Mesmo com um possível retorno (o que vai demorar), as casas precisariam fazer uma grande adaptação para estarem aptas a funcionar com segurança, o que teria um custo bastante elevado.”

    Cunha lembra que se contam nos dedos as casas noturnas de São Paulo que contam com áreas externas. Mesmo entre as que têm esse tipo de espaço, “como utilizá-los respeitando as leis de perturbação do sossego vigentes?”, questiona a curadora.

    Morgan Deane, executiva americana da área de eventos, publicou um guia reunindo experiências e conhecimentos que podem ser úteis para estratégias de reabertura de baladas e casas de shows independentes e de menor tamanho. Chamado “A Light in the night” (uma luz na noite), o trabalho traz entrevistas com especialistas em áreas como saúde pública, análise de risco, tecnologia, marketing e agenciamento de artistas.

    Uma avaliação sombria

    Philip Kolvin, advogado britânico especializado em legislação de alvarás, e Alice Scholer, americana fundadora da consultoria Hospitality Institute, avaliaram os impactos de longo prazo da covid-19 no que eles chamam de “economia social”, presente em “cidades que alcançam uma sociabilidade segura e vibrante”. Eles defendem medidas governamentais de maior abrangência para ajudar uma área que já vinha perdendo público por outros fatores antes da pandemia.

    A dupla relaciona fenômenos como o crescimento das opções de diversão doméstica por meio de aplicativos como Netflix e Spotify, a gentrificação de áreas urbanas, a diminuição do consumo de álcool pelos mais jovens e a austeridade econômica sentida em diversos países como aspectos que já vinham minando o hábito de frequentar lugares e eventos de socialização presencial.

    “Em outros tempos, bares competiam por clientes com outros bares. Agora eles competem com tudo, incluindo o comércio online”, afirmaram. Segundo Kolvin e Scholer, raras autoridades municipais deram a devida atenção para esses processos.

    O descaso contrasta com o reconhecimento cada vez maior das vantagens que uma vida noturna vibrante pode proporcionar a uma cidade. Entre elas estão tornar uma cidade mais desejável para visitar, trabalhar ou estudar; fomentar áreas criativas como moda, design e música; contribuir para geração de empregos e renda; e prover espaços seguros e diversos para minorias como a comunidade LGBTI. Na esteira desse reconhecimento, cidades como Amsterdã, Nova York e Londres criaram a figura do “prefeito da noite”, para agir como ponte entre o poder público e os negócios e representantes do meio.

    No entanto, na pandemia e depois dela, os autores afirmam que é necessário ir além de medidas que tem mais efeito simbólico do que prático e agir de maneira mais efetiva. Para Kolvin e Scholer, sem um programa abrangente de vacinação, a “economia social” não conseguirá retornar ao patamar de antes da pandemia. “Se voltar, será em um estado de relativo empobrecimento em termos de capital e renda. Para uma indústria acostumada a operar com margens estreitas, é uma perspectiva deprimente”, disseram.

    “Será necessário haver mudanças profundas no planejamento urbano, na área regulatória e no setor como um todo. Cidades que reconhecerem esses imperativos ainda podem prosperar. Aqueles que não enfrentarem o desafio à altura perderão uma parte essencial de sua economia e, com ela, sua atratividade social e cultural”, escreveram Kolvin e Scholer.

    De acordo com eles, a ajuda e atuação do poder público deve acontecer em várias frentes. Autoridades devem reconhecer o benefício para a sociedade proporcionado por locais de reunião e eventos sociais, ajudando a promovê-los, e não apenas regulá-los. Eles também devem ter alvará para funcionar por mais tempo.

    Diversos países têm anunciado pacotes de ajuda para o setor cultural e artístico, mas quase não se ouve falar em auxílio dirigido aos bares e baladas.

    A cena independente

    Em São Paulo, a década de 2010 foi marcada pelo surgimento de uma cena de música eletrônica apoiada em espaços fora das casas noturnas. Festas como Mamba Negra, Capslock, ODD e Gop Tun se tornaram referências conhecidas no cenário cultural da cidade.

    Antes da pandemia, o setor já vinha enfrentando crescentes dificuldades, especialmente com relação à obtenção de alvarás para realização de eventos.

    “Eu soube de muitos clubes que fecharam, artistas que tiveram que abandonar a cidade e produtores que simplesmente faliram, então mesmo que essa cena seja pautada na resistência, para muitos, resistir não será o bastante e uma mudança do que acontecia na pré pandemia é inevitável”, disse ao Nexo Gezender, DJ e produtor da festa Sangra Muta.

    Eventos online, realização de lives, venda de estoques de bebidas e acessórios estão entre as ações que vêm sendo realizadas para tentar amenizar os efeitos da crise. A festa Capslock realizou um evento de arrecadação online para tentar pagar funcionários das festas que seriam realizadas em 2020.

    “Por mais desafiador que seja este momento, esses anos resistindo também nos deram experiência e força para sobreviver”, afirmou Gezender. “Tenho em mim a certeza de que as festas não vão deixar de existir, tanto que mesmo em meio ao caos novos modelos estão sendo praticados, como eventos online, lives e todo o tipo de conexão virtual para que possamos continuar caminhando e trocando arte e informação.”

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