Imunidade de rebanho: uma nova hipótese e as críticas a ela

Pesquisa sugere que infecção de menos da metade da população teria capacidade de reduzir força da pandemia, mas críticos temem uso de estratégia devido ao alto número de mortes

    Um estudo publicado no final de junho pela revista Science defende que a quantidade de pessoas que precisam se infectar pelo novo coronavírus para que se crie uma imunidade coletiva, também chamada de imunidade de rebanho, pode ser menor do que se acreditava antes.

    Até então, cientistas afirmavam que a população passaria a ficar protegida da covid-19 (doença causada pelo novo coronavírus), criando uma imunidade de grupo, quando um mínimo de 60% contraísse o agente infeccioso Sars-CoV-2 (nome do novo coronavírus) e desenvolvesse anticorpos no organismo.

    Nessa situação, novos infectados teriam mais dificuldade de transmitir o vírus adiante porque a maioria de seus contatos já teria uma proteção natural contra a doença. O número de novos casos, portanto, tenderia a cair, e a pandemia, gradualmente, perderia força.

    O que pesquisadores suecos e britânicos responsáveis pelo estudo dizem agora é que, considerando que a taxa de transmissão do vírus seja de 2,5 (cada cem pessoas infectadas transmitem para 250), a proporção de pessoas que precisa se infectar para que haja uma imunidade coletiva é de 43%, abaixo dos 60% sugeridos anteriormente.

    Essa proporção poderia ser até menor se a taxa de reprodução do vírus ficasse abaixo dos 2,5. Se for de 2 (cada pessoa transmite para outras duas), por exemplo, chega-se a uma imunidade de rebanho com 34% de infectados dentro da população.

    O biólogo Fernando Reinach afirmou em artigo publicado em 11 de julho no jornal O Estado de S. Paulo que regiões mais pobres de São Paulo apresentaram 16% de infectados em junho e que, portanto, não estariam muito longe da imunidade de rebanho. Segundo ele, cidades como Manaus, que passaram pelo pico da doença, podem ter chegado a esse ponto, o que explicaria a queda recente nos casos e mortes.

    Por que o número é menor

    Segundo os pesquisadores, a “estimativa clássica” de 60% é fruto de um modelo matemático que considera uma imunização homogênea da população. Cada pessoa, nesse conceito, teria possibilidades idênticas de interagir e infectar os demais. O que não é observado na vida real.

    Na população, pessoas têm números de contatos diferentes e alguns são mais suscetíveis a contrair o vírus do que outros. Por isso, os pesquisadores criaram, no modelo, uma estratificação da população por idade e interação social. Haveria grupos que interagem com muitas pessoas por dia, os que ficam na média, e os formados por pessoas mais solitárias.

    Indivíduos que vivem em áreas rurais, por exemplo, têm menos interações se comparados a quem vive em regiões metropolitanas e trabalha em grandes empresas, por exemplo. A partir dessas classificações, os pesquisadores simularam como a infecção se dá numa população mais heterogênea, e concluíram que a imunidade de rebanho pode acontecer antes mesmo da contaminação de metade da população.

    Os custos da imunidade de rebanho

    A estratégia de deixar o vírus circular livremente até que se crie uma imunidade coletiva foi defendida em países como Suécia e Reino Unido. Como consequência da ausência de medidas de isolamento social, ambos tiveram um aumento de casos e mortes superior a de países vizinhos e tiveram de recuar. O governo britânico mudou de estratégia e o governo sueco admitiu não ter se preparado adequadamente.

    No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, que nega a gravidade da pandemia, já citou a Suécia como exemplo e defendeu a estratégia, sem revelar os resultados negativos, ou seja, o número maior de mortes. Em março, em entrevista ao apresentador Ratinho, do SBT, o presidente chamou a covid-19 de “onda que vai passar por cima” de todo mundo. Sugeriu que agir contra as medidas de isolamento era, na verdade, um modo de ajudar o país a ficar imune.

    “Talvez eu tenha adquirido antes, como eu disse agora há pouco, e você também, há um mês atrás, 20 dias atrás, já acabou, já estamos imunes. Estamos ajudando a imunizar o Brasil. Porque o vírus bate em nós e não passa para terceiros”, afirmou. Em maio, o Ministério da Saúde negou que a estratégia fosse a melhor para o país. Em 7 de julho, ao anunciar que estava com a covid-19, Bolsonaro comparou a doença a uma “chuva”. “Vai atingir você”, disse o presidente.

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    casos de infecção pela covid-19 foram registrados no Brasil até a segunda-feira (13), segundo o Ministério da Saúde

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    era o número de mortos pela doença até a mesma data, de acordo com a pasta

    Muitos especialistas consideram a imunidade de rebanho o pior dos cenários porque, para existir, ela requer uma infecção em massa, o que significa, por consequência, um alto número de mortes.

    Mesmo que a taxa seja de 43% — e não de 60% —, para que se chegue à imunidade de rebanho num país como o Brasil, de 211 milhões de habitantes, cerca de 90 milhões teriam que se infectar. Isso poderia significar milhões de mortes. Até a segunda-feira (13), a taxa de mortalidade da covid-19 no Brasil era de 3,9%.

    Essa taxa de letalidade varia para cada região e pode cair dependendo da capacidade de testagem dos governos. Quanto mais se realiza exames e se identifica os doentes, menor a taxa. No mundo todo, ela é de 4,4%, segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

    A covid-19 também não faz vítimas por igual. Uma pesquisa da PUC-Rio mostrou que a taxa de mortalidade no Brasil entre pretos e pardos sem escolaridade é de 80,4%, enquanto entre brancos com nível superior fica em 19,6%.

    Em entrevista ao site Poder 360, no domingo (12), o reitor da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), Pedro Hallal, rechaçou a ideia de se ter como meta de saúde pública uma imunidade de rebanho e chamou a estratégia de “antiética”.

    Ele lembrou que nem países muito afetados, como a Espanha, conseguiram detectar anticorpos contra o novo coronavírus em mais de 6% da população depois da fase mais aguda da pandemia, o que demonstra que os países ainda estão longe de alcançar a imunidade coletiva.

    A duração da imunidade

    Torcer para se infectar logo e ganhar imunidade também não faz sentido, segundo algumas pesquisas. Um estudo de junho publicado na revista científica Nature Medicine apontou que o nível de anticorpos no organismo de pessoas que contraíram o coronavírus e se curaram da doença diminuiu significativamente dois ou três meses após a infecção.

    Outro estudo de pesquisadores britânicos divulgado pelo jornal The Guardian no domingo (12) também sugere que a imunidade dura apenas alguns meses e que os recuperados têm risco de se contaminar de novo. Em 90 pacientes analisados, o nível de anticorpos atingiu o ápice na terceira semana após o contágio e caiu gradativamente nos dias seguintes. Três meses após a doença, apenas 17% tinham a mesma potência na resposta ao vírus.

    Outro problema de admitir uma infecção em massa para criar a imunidade de rebanho é que a covid-19 deixa sequelas. Um estudo publicado em 9 de julho no Jornal da Associação Médica Americana mostrou que, mesmo depois de dois meses da infecção, 53% dos recuperados sentiam fadiga e 43% ainda tinham falta de ar.

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