Quais as dúvidas em torno da origem do novo coronavírus

Equipe da OMS viajou à China para tentar rastrear caminho do Sars-CoV-2. Pesquisas identificaram amostras em esgoto que seriam anteriores ao primeiro surto registrado em dezembro de 2019

A origem do novo coronavírus, ou Sars-CoV-2, permanece um mistério para a ciência, com novas pesquisas trazendo mais dúvidas do que respostas. A descoberta de que o vírus circulou pelo esgoto de diferentes cidades do mundo antes do primeiro surto em Wuhan, na China, contribuiu para levantar mais perguntas sobre o fenômeno.

Na sexta-feira (10), dois pesquisadores da OMS (Organização Mundial da Saúde) embarcaram para a China para tentar rastrear as origens do vírus, em uma parceria com cientistas locais. Os dois investigadores da OMS, especialistas em saúde animal e epidemiologia, trabalharão com cientistas chineses para determinar a abordagem e os rumos da investigação, disse Margaret Harris, representante do braço das Nações Unidas responsável pela saúde.

“Uma das grandes questões que todos estão interessados em saber e, claro, é por isso que estamos mandando um especialista em saúde animal, é entender se o vírus passou ou não de um animal para os humanos e, se sim, de qual espécie [do animal]”, afirmou à imprensa Margaret Harris, porta-voz da OMS.

De acordo com a porta-voz, o Sars-CoV-2 é bastante similar ao coronavírus encontrado em morcegos, mas é necessário entender também se teve algum hospedeiro intermediário antes de o vírus ser transmitido para seres humanos — uma das teorias mais aceitas neste momento.

“Por comparação com a Sars e com a Mers [síndromes respiratórias], sabemos que esses coronavírus acabam requerendo um hospedeiro intermediário, que geralmente serve para fazer a transição para que o vírus consiga ser transmitido para humanos”, disse ao Nexo Rômulo Neris, virologista pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisador visitante na Universidade da Califórnia em Davis. “É provavelmente um animal que vive em ambientes próximos à região onde os morcegos vivem e que também é manipulado pelo homem, seja na captura, na caça ou na criação”.

O surto do mercado de Wuhan

Os primeiros casos do novo coronavírus em humanos foram detectados no fim de dezembro de 2019 em Wuhan, na China. A suspeita mais forte é a de que o vírus se originou em morcegos, a mesma origem da maioria dos outros coronavírus. Pesquisadores chineses descobriram que um coronavírus encontrado no Rhinolophus, conhecido como morcego-ferradura, tinha uma sequência genética 96,2% idêntica a do Sars-CoV-2. No entanto, como lembrou a porta-voz da OMS, é preciso averiguar também se não houve a participação de um hospedeiro que teria levado o vírus do morcego para o humano. Cientistas apontaram o pangolim, mamífero que é consumido em alguns países asiáticos, como um possível candidato.

A hipótese é de que um desses vírus teria sofrido uma mutação e, pela primeira vez, conseguido infectar humanos, em um processo conhecido como “transbordamento zoonótico”. As pesquisas indicam que a mutação teria sido um processo da natureza e não algo provocado pelo homem.

A teoria mais aceita entre pesquisadores é a de que o primeiro evento de espalhamento do vírus se deu a partir de um mercado de frutos do mar e animais silvestres em Wuhan. No entanto, diferentemente do que já se especulou, não se acredita mais que o vírus tenha “pulado” de animal para humano nesse local. O motivo é que, das 41 primeiras pessoas na China a terem covid-19, pelo menos 13 nunca tinham frequentado o local.

Também já foi desmentida a ideia de que a transmissão animal-homem se deu pela ingestão de carne de morcego por humanos. Esse boato retrata os chineses como tendo o hábito de consumir morcegos. Na verdade, o costume é raramente observado no país.

A teoria conspiratória de Trump

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, propagou a ideia de que o novo coronavírus foi criado em um laboratório em Wuhan e teria escapado para fora do ambiente controlado por causa de um acidente. Trump e seu secretário de Estado, Mike Pompeo, afirmaram à imprensa que havia “fortes provas” que sustentavam a acusação.

Nenhuma das provas veio à público até agora. Trump disse à imprensa que “não tem permissão” para explicar o motivo de sua certeza. A tese foi rapidamente incorporada por apoiadores do presidente americano. No Brasil, foi replicada pelo então ministro da Educação, Abraham Weintraub, levando a um constrangimento diplomático com o governo chinês.

Por outro lado, segundo a CNN americana, uma aliança de serviços de inteligência que reúne EUA, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Canadá teria constatado que não há nada que permita situar a origem do novo coronavírus em um laboratório chinês.

O vírus silencioso

Em meses recentes, pesquisadores em diferentes cidades do mundo identificaram o novo coronavírus ao examinar provas coletadas em esgotos, em materiais como a água suja ou fezes, em datas anteriores ao primeiro registro da doença nos países.

As pistas nos esgotos

Florianópolis

Uma equipe de cientistas da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) constatou a presença do vírus em amostras de esgoto colhidas a partir de 27 de novembro de 2019. No total, foram coletadas seis amostras no período entre 30 de outubro de 2019 e 4 de março de 2020.

Barcelona

Pesquisadores da Universidade de Barcelona detectaram a presença do novo coronavírus em amostras de esgoto de 15 de janeiro de 2020, 41 dias antes do primeiro registro oficial da doença no país, e 12 de março de 2019, nove meses antes da primeira notificação na China.

Itália

O novo coronavírus também foi encontrado em amostras de água de esgoto de Milão e Turim, capturadas em 18 de dezembro de 2019, e de Bolonha, em 29 de janeiro de 2020. As informações são do Instituto Nacional de Saúde do país, que analisou 40 amostras de esgoto e as comparou a 24 provas retiradas entre setembro de 2018 e junho de 2019.

Dois outros casos prévios

Em 27 de dezembro, um paciente internado em um hospital em Paris com suspeita de pneumonia na verdade tinha covid-19, afirmou seu médico. De acordo com o doutor Yves Cohen, uma amostra de saliva colhida na época da internação foi testada no início de maio, dando resultado positivo para o novo coronavírus.

O homem se recuperou da doença. Ele afirmou que não havia viajado para fora do país recentemente. Mas o médico observou que sua esposa trabalhava em um supermercado perto do aeroporto internacional de Paris e poderia ter tido contato com pessoas chegadas da China.

O caso mostrou que o vírus chegou à Europa cerca de um mês antes do que se acreditava. Até então, o primeiro registro no continente era de 24 de janeiro, também na França, na cidade de Bordeaux.

Nos EUA, duas autópsias realizadas na Califórnia no fim de abril mostraram que a primeira morte no país ocorreu antes do que se pensava. Segundo o exame, dois homens morreram com covid-19 nos dias 6 e 17 de fevereiro. Antes, o primeiro óbito confirmado no país era de um homem em Seattle, em 26 de fevereiro.

O vírus antes do surto

Para o cientista britânico Tom Jefferson, de um centro de medicina da Universidade de Oxford, Reino Unido, a explicação para essas ocorrências “poderia ser apenas que esses agentes não vêm ou vão a lugar algum”. “Eles estão sempre aqui e algo os acende, talvez a densidade humana ou as condições ambientais, e é isso que devemos procurar”, afirmou.

Segundo o virologista Rômulo Néris, da UFRJ, “é possível sim que o Sars-CoV-2 estivesse circulando por outros hospedeiros intermediários antes de chegar ao homem”. “Essa definição de quanto poderia ter circulado ou se circulou bastante é uma área bastante cinza pois é um vírus que a gente nunca tinha visto e nunca tinha isolado”, disse ao Nexo.

“Os vírus identificados em morcego que se parecem com o novo coronavírus também não tinham sido identificados até alguns anos atrás. É difícil identificar essa correlação até muito antes de 2019”. Ainda segundo Neris, esse vírus também pode ter “pulado” para o homem e se adaptado depois, tornando-se então infeccioso.

De acordo com o pesquisador, há algumas possibilidades para o novo coronavírus não ter infectado seres humanos antes. A principal, segundo ele, seria que a passagem do animal hospedeiro para o humano é “incidental”. “Às vezes, o humano pode ser exposto ao vírus, mas este ainda não se encontra bem adaptado para infectar e se multiplicar em seres humanos. Pode ser que o indivíduo tenha sido resistente à infecção e assintomático, que não transmitiu para outras pessoas.”

O histórico do vírus

A família de vírus do coronavírus é conhecida desde a década de 1960 pelos cientistas. Geralmente, eles circulam entre animais como ratos e morcegos, mas podem migrar para humanos quando os vírus sofrem uma mutação.

Outras doenças respiratórias provocadas por esses vírus são a Sars (síndrome respiratória aguda grave), que registrou surtos em vários países entre 2002 e 2004, e a Mers (síndrome respiratória do Oriente Médio), que surgiu em 2012 e continua registrando casos.

No final de 2017, cientistas chineses identificaram o percurso do coronavírus causador da Sars. Originário de morcegos-ferradura na província de Yunnan, na China, ele teria chegado a humanos por meio de civetas, animais presentes na Ásia que lembram raposas. No caso da Mers, morcegos também foram apontados como sendo a origem, com os camelos servindo de ponte para os seres humanos.

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