Por que estes 3 países vão enviar missões para Marte

Emirados Árabes Unidos, China e EUA lançarão expedições espaciais com objetivos diferentes em 2020

A cada 26 meses, Terra e Marte entram em um alinhamento que torna missões espaciais até o planeta vermelho menos arriscadas. A próxima janela acontece em julho de 2020, quando três países lançam suas naves: os Emirados Árabes Unidos, a China e os EUA.

A nação árabe abre a temporada, com previsão de lançamento em 14 de julho, e os americanos fecham em 30 de julho. Dependendo de condições climáticas ou imprevistos técnicos, as operações podem ser adiadas até meados de agosto, quando o alinhamento se desfaz.

Cada país ocupará uma região diferente do planeta com objetivos também diferentes de exploração. As equipes conseguiram manter o cronograma apesar dos desafios adicionais impostos pela pandemia de covid-19. Em março, uma missão europeia à Marte teve que ser adiada para a próxima janela, entre outros fatores, por conta da crise sanitária.

Ainda assim, a tarefa não será fácil. O histórico de tentativas de chegar ao planeta tem sucessos, mas uma série de fracassos lhe renderam a alcunha de “cemitério de naves espaciais”. Abaixo, o Nexo detalha o que os três programas de 2020, se bem-sucedidos, pretendem estudar em Marte.

O programa emiradense

O lançamento dos Emirados Árabes Unidos marca a estreia de um país árabe em viagens interplanetárias. A missão Hope Mars tem previsão para chegar a Marte em 2021, permanecendo por dois anos. Para tirá-la do papel, o programa contou com a parceria de três universidades americanas e ex-engenheiros da Nasa, a agência espacial americana. O orçamento do projeto não foi divulgado. Uma sonda varrerá dia e noite a órbita do planeta para entender porque ele deixou de ser quente e úmido e passou a ser frio e desértico. Estudando gases, nuvens e tempestades de areia da atmosfera, os cientistas poderão criar o primeiro mapa climático de Marte.

O programa chinês

Segunda no calendário, a China marcou o lançamento da Tianwen-1 para dia 23 de julho, com previsão de chegada em fevereiro de 2021. Será a primeira viagem 100% chinesa rumo a Marte, cujos detalhes estão guardados a sete chaves. Em 2011, o país havia tentado enviar uma sonda ao planeta, que acabou se perdendo no caminho. Dessa vez, além da sonda, haverá um rover (veículo automatizado) que chegará ao solo marciano com a ajuda de um pousador. Os equipamentos estarão equipados com câmeras de alta resolução e instrumentos de medição capazes de investigar a composição das rochas. A ideia é estudar a influência de campos magnéticos e gravitacionais, bem como da água e gelo nas estruturas geológicas do planeta. O rover terá uma vida útil de 90 dias marcianos, que têm 24,6 horas cada.

O programa americano

O último lançamento é o americano, com chegada estimada em fevereiro de 2021 e orçamento de US$ 2,7 bilhões. É quinta vez que a Nasa enviará um rover a Marte. Mas dessa vez, os objetivos são mais ousados. O veículo irá coletar amostras de rocha por quase dois anos terrestres para que um programa futuro as leve de volta para a Terra, possivelmente em 2031. Se assim conseguir, será a primeira vez que materiais serão trazidos do planeta vermelho. O Perseverance, nome do veículo, é equipado com instrumentos que poderão captar sons inéditos e transformar gás carbono em oxigênio, num teste para expedições futuras com humanos. Além do rover, será enviado um helicóptero a base de energia solar, que ajudará a definir as áreas a serem sondadas.

Por que a ciência quer explorar Marte

Segundo a ESA (Agência Espacial Europeia), as razões científicas para chegar a Marte podem ser resumidas em três principais tópicos: procurar vida, entender a superfície e a evolução do planeta e preparar expedições humanas futuras.

O mais próximo de vida encontrado no planeta vermelho foi matéria orgânica. Em 2018, esse e outros achados da Nasa animaram a comunidade científica. Em análise da atmosfera, foi detectado metano, um dos primeiros gases da Terra primitiva. Há 4 bilhões de anos, no nosso planeta, esse gás era produto de bactérias que se alimentavam justamente de matéria orgânica. As bactérias, no entanto, ainda não foram avistadas em Marte.

Em 2019, a missão americana encontrou evidências de que Marte teve lagos salgados. Desde que as missões começaram, no entanto, apenas gelo foi detectado no subsolo dos polos. A descoberta de água em estado líquido já foi anunciada de forma controversa ou errônea. Cientistas explicam que a pressão atmosférica do planeta é baixa, o que faz com que a água passe rapidamente do estado sólido ao gasoso. Mas a procura continua, já que, pelo menos na Terra, quase em todo lugar que há água, há também vida.

Os estudos também podem indicar como a Terra seguirá evoluindo. Na época em que a vida surgiu no planeta, uma mudança climática abrupta acometia Marte. Acompanhar os processos geofísicos e os ciclos atmosféricos de lá é um caminho para lidar com a crise climática terrestre.

Esses trabalhos, por fim, preparam terreno para quando os humanos forem enviados em programas espaciais. Os EUA, com a Nasa planejam fazer isso em 2024. A China espera conseguir até 2050. E alguns bilionários, como Elon Musk, desenvolvem programas para colonizar o planeta vermelho.

As ambições dos Emirados Árabes

Além da estreia em missões interplanetárias, os Emirados Árabes Unidos esperam que o programa inspire jovens na ciência e posicione o país como uma economia baseada em conhecimento. É o que diz à revista Nature Omran Sharaf, diretor da missão espacial emiradense. A proposta de chegar a Marte partiu do governo em 2014, como forma de celebrar os 50 anos da nação, completos em dezembro de 2021.

Era uma tarefa inimaginável à época, já que os Emirados Árabes Unidos sequer tinham uma agência espacial ou astrônomos quando a ideia foi anunciada. Em seis anos, o governo contratou cientistas experientes da Nasa para ensinar engenheiros jovens do país. Em compasso, as principais universidades emiradenses lançaram cursos de astronomia, física e outras ciências.

Dados da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) mostram que o país não tinha doutores até 2010. Em 2017, esse número representava 0,8% daqueles que chegaram ao ensino superior. O objetivo é triplicar a quantidade de doutores até 2030 com pesquisadores de outros lugares do mundo.

Um desafio, no entanto, será atrair esses acadêmicos. A falta de liberdade de expressão e a repressão a relacionamentos homoafetivos são duas marcas da monarquia no governo. Além disso, há quem olhe para o desenvolvimento emiradense como momentâneo. Antes mesmo da pandemia de coronavírus, os Emirados Árabes Unidos já vinham em desaceleração econômica. O petróleo, em alta desvalorização, é o principal produto de exportação, e o que financia as atividades do país.

Por outro lado, o programa reflete uma tendência positiva da sociedade emiradense. As mulheres são 80% das cientistas da missão a Marte. Na população geral, elas também são bem representadas nas áreas de exatas (41%) e entre quem tem graduação (70%). São números maiores do que o de outros países desenvolvidos.

No entanto, dentro do universo das mulheres graduadas em ciências exatas, poucas entram no mercado de trabalho, apenas 15%. O país, contudo, adotou medidas relevantes nos últimos anos, como salários iguais para homens e mulheres e licenças-maternidade mais longas.

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