‘Mourão é leal a Bolsonaro, mas essa fidelidade tem limite’

Ao 'Nexo', o cientista político Christian Lynch fala sobre o protagonismo que o vice-presidente assumiu na questão da Amazônia e os fatores que podem minar o apoio de militares ao governo

    O aumento recorde do desmatamento e das queimadas na Amazônia durante o primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro gerou uma crise internacional. O presidente e seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, entraram em conflito com fundações internacionais e presidentes estrangeiros após reiteradas críticas à política ambiental do governo.

    Para tentar mudar a imagem do Brasil no exterior, Bolsonaro criou o Conselho Nacional da Amazônia Legal e o entregou ao vice-presidente, Hamilton Mourão. Apesar de compartilhar de algumas das opiniões inflamadas de Bolsonaro, em especial em relação à ditadura militar, o general da reserva é tido por muitos como um perfil moderado dentro da administração.

    Hoje, enquanto o país é pressionado por empresas e instituições financeiras para melhorar suas ações de combate à devastação da floresta, sob o risco de perder investimentos vindos do exterior, Mourão assumiu o papel de interlocutor na área. O vice-presidente excluiu Salles do Conselho da Amazônia e, na quinta-feira (9), liderou uma reunião com investidores estrangeiros que cobram ações do governo para garantir a preservação ambiental.

    Em entrevista ao Nexo na sexta-feira (10), Christian Lynch, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), atribui o protagonismo de Mourão nos temas ambientais a um interesse histórico dos militares brasileiros na região.

    Para o cientista político, o grupo está alinhado com Bolsonaro, mas a relação pode mudar a partir das investigações que rondam o Palácio do Planalto, como o caso que apura um suposto esquema de rachadinha no antigo gabinete do filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

    “Os militares até toleram as fake news, as manifestações antidemocráticas. Mas corrupção, não. Se [Fabrício] Queiroz começar a delatar, e encontrarem provas, os militares vão recuar”, afirmou.

    Mourão vem ganhando espaço na questão amazônica. O que isso diz sobre seu papel no governo?

    Christian Lynch O governo Bolsonaro tem três alas: uma neoliberal com [ministro da Economia] Paulo Guedes, outra reacionária-radical, representada pelo presidente e seus filhos, e a ala que dizem ser militar, mas que do ponto de vista da mentalidade chamo de conservador-estatista. É um conservadorismo da ordem e do progresso, tributária de um pensamento que reconhece o atraso do Brasil e tenta promover o progresso com o Estado servindo de indutor do desenvolvimento.

    Mourão não é um reacionário, basta observar as manifestações contra os filhos do presidente, chamando o Eduardo Bolsonaro de bananinha, rindo do Olavo de Carvalho. Esse conservadorismo dos militares está calcado em outro lugar. É algo vinculado às ideias de Oliveira Vianna [sociólogo], Gilberto Freyre [escritor], uma visão geopolítica do país com toque culturalista. O Brasil formado pela contribuição do negro, do índio e do branco. Aí entra a Amazônia.

    Para essa tradição do pensamento brasileiro, a Amazônia é vista como uma região a ser povoada, uma região gigantesca desconhecida que abrigaria riquezas em seu solo. Para essa visão do Mourão, o mundo inteiro estaria atrás dessas riquezas. É muito previsível e natural o interesse que o vice-presidente tem a respeito desse assunto e, por conseguinte, o fato de ele ocupar a coordenação da Conselho da Amazônia.

    Mourão está com Bolsonaro? Joga junto com o presidente inclusive contra o impeachment?

    Christian Lynch Mourão é mais moderado no seu conservadorismo do que a ala reacionária-radical. Essa ala [radical] flerta frequentemente com certas concepções que são neointegralistas: religiosas, esotéricas, acham que o Brasil tem uma cultura profundamente cristã. Esse grupo é avesso à ideia de progresso. Os militares não acham isso, eles acreditam no progresso.

    Durante muito tempo se acreditou que os militares no governo fossem porta-vozes das Forças Armadas, e que o que eles diziam era aquilo que eventualmente as Forças Armadas queriam dizer. Mas o que nós vemos é que as Forças Armadas são uma coisa, e os generais palacianos são outra coisa. Setores majoritários podem ser simpáticos ao presidente Bolsonaro, mas não acredito que estariam dispostos a validar qualquer aventura golpista.

    Os generais palacianos representam eles mesmos e setores dentro das Forças Armadas, que acreditam que o Brasil precisava de um freio de arrumação. Para eles, o Brasil teve regimes demasiados progressistas que teriam desarrumado o país. Eles são críticos do judicialismo na política, do centrão [grupo de diversos partidos que se unem para aumentar sua influência no Executivo] e querem o fortalecimento do Poder Executivo.

    A ideia que eles têm de bom governo é uma espécie de governo militar dentro da Constituição. É um governo encabeçado pelo Bolsonaro, em que a ala militar desse as cartas na relação com o Congresso, com um partido como o Arena [partido de sustentação da ditadura], com a redução do grau de judicialismo e com racionalidade mínima da administração. Na cabeça deles não tem nada a ver com golpe, regime militar, autoritarismo.

    Tenho a impressão de que os generais são muito devotados ao presidente Bolsonaro. Eles são colegas de farda, se formaram juntos. Bolsonaro era um político que defendia a honra do Exército enquanto essa honra era enxovalhada pela "esquerda comunista", na figura do PT, e com o trabalho na Comissão da Verdade. O Bolsonaro não é general, mas ele teve voto. Daí vem uma certa fidelidade que esse grupo tem ao presidente.

    Agora, se tudo mais falhar, o general Mourão deixa o governo. E o ponto para isso acontecer é a corrupção. Eles toleram as fake news, as manifestações antidemocráticas enquanto elas continuarem como estão, mas a corrupção não vão tolerar. Se [Fabrício] Queiroz [ex-assessor do filho do presidente, Flávio Bolsonaro, suspeito de comandar esquema de rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio] começar a delatar, fala sobre as rachadinhas, e encontrarem provas, os militares vão recuar.

    É possível chamar Mourão de moderado mesmo tendo defendido torturadores, mesmo defendendo a ditadura e mesmo tendo assinado com Bolsonaro uma nota em junho em que fazia ameaças veladas ao Supremo e sugeria o uso das Forças Armadas na crise de Poderes?

    Christian Lynch Ele se vê como moderado em relação ao bolsonarismo e ao Olavo de Carvalho. Não significa que seja moderado para o nosso padrão. Uma direita moderada é o [presidente da Câmara dos Deputados] Rodrigo Maia (DEM-RJ). Mourão não é liberal, mas conservador. Os valores de ordem estão acima dos valores de liberdade e igualdade. Agora, o fato de ele incorporar essa narrativa de que o regime militar foi bom porque evitou a "cubanização" e justificar o golpe militar não necessariamente o levaria a defender o golpe hoje. Ele dança conforme a música. E outra coisa: nem o próprio Mourão acha que há condições para um golpe hoje.

    Não é possível saber qual seria a postura dele se um dia vier a ser presidente. Ele gosta de ter um estilo popular. Talvez não fosse autoritário, mas peitaria o judicialismo na administração pública federal e colocaria em prática uma política voltada para o fortalecimento do Poder Executivo. No episódio da nomeação do Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal [Bolsonaro nomeou Ramagem, mas teve o ato impedido por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal], não acho que o Mourão e os militares apoiavam aquele ato. Mas sei que os militares entendiam que Bolsonaro tinha o direito de fazê-lo.

    Há uma diferença entre Mourão antes do governo e depois do governo?

    Christian Lynch Mourão é o homem das circunstâncias. Ele modula de acordo com a situação. No governo Dilma Rousseff (PT), que enlameava a honra militar, ele falava bem do [Carlos Alberto Brilhante] Ustra [coronel condenado pelo crime de tortura] e aparecia como radical de direita. Quando ele entra no governo [Bolsonaro], aparece gente que é mais radical que ele. Aí ele modula. Esse é o jogo dele. Quando aparece a possibilidade de cassação da chapa, em que o plano dos militares seria liquidado pelo Poder Judiciário, ele radicaliza de novo. Se o cenário vai bem, modera novamente. Nesse sentido, revela certa habilidade. Por isso digo que ele não é radical como os reacionários. O radical não modula, está sempre no limite.

    Seu papel mudou em um ano e meio de mandato?

    Christian Lynch Ele ganhou protagonismo, porque ele foi esculhambado no primeiro ano do mandato. A questão é a disputa que há dentro do governo, especialmente da ala militar com a ala reacionária. Houve embates no começo, e ele deu uma desaparecida. De fevereiro pra cá, isso mudou, porque o modelo adotado por radicais fracassou, tipo Abraham Weintraub [ex-ministro da Educação demitido em junho de 2020]. Esse grupo [reacionário] não sabe administrar e são pessoas deslumbradas, porque chegaram ao governo achando que estavam investidas de algum poder sobrenatural. A partir de fevereiro, [Bolsonaro] começou a dar mais protagonismo aos militares e colocou o [Walter] Braga Netto na chefia da Casa Civil, e isso deu força ao Mourão.

    Mourão mantém o apoio ao atual comandante do Exército, Edson Leal Pujol. O que isso indica sobre sua intermediação com as Forças Armadas?

    Christian Lynch O Exército está para o Bolsonaro como os sindicatos estavam para o Lula. A clientela do Bolsonaro é dar aumento para o Exército e a Polícia Militar. A relação das Forças Armadas com o governo é um pouco isso, de privilégio dessa classe.

    Agora, sobre o general Pujol, a história vai revelar a importância que ele teve para a história nesse momento como comandante. A fidelidade última que o general Mourão tem não é ao presidente Bolsonaro, mas ao Exército. Mourão é mais leal ao Bolsonaro do que seria desejável imaginar por parte de alguém que não gosta do presidente, mas essa fidelidade tem limite.

    Mourão joga junto com os ministros militares? Há de fato uma unidade desse grupo contra a ala “reacionária-radical” do governo?

    Christian Lynch Existe uma certa unidade entre eles. O Mourão é o único que não pode ser demitido, que o torna aos olhos do radicais e reacionários um sujeito passível de desconfiança, com a paranoia da traição que ronda esse grupo. Mas os militares vão juntos até onde der. Quando não der, eles voltam, porque eles são militares antes de serem bolsonaristas. O compromisso último deles é com o Exército Brasileiro. Se chegar ao ponto de conflito irredutível, eles vão embora.

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