Qual o estágio da covid no Brasil após 4 meses de pandemia

Mortes pelo novo coronavírus estacionaram em patamar considerado alto desde início de junho no país. Tendência não significa que transmissão foi controlada

    Temas

    O número de mortes pelo novo coronavírus no Brasil estacionou desde o início de junho num patamar considerado alto por especialistas da área de saúde. Há mais de um mês o país tem registrado, em média, cerca de mil vítimas da doença por dia, o que sinaliza uma estabilização da curva de óbitos, sem altas ou quedas expressivas. Na sexta-feira (10) foram registradas 1.214 novas mortes pela covid-19 no Brasil. Nos sete dias anteriores, a média ficou em 1.032 óbitos diários.

    O mesmo padrão, porém, não é observado nos casos confirmados da doença. Em meados de junho, tanto a curva de óbitos quanto a de infectados davam sinais de estabilidade, mas depois os registros de contaminados voltaram a crescer. Isso é atribuído ao aumento na capacidade do país de testar a população. Quanto mais exames, mais doentes são observados. Na sexta-feira (10), o país registrou 45.048 novos casos. Nos sete dias anteriores, a média foi de 37.392 casos por dia.

    Em relação ao resto do mundo, o Brasil apresenta um dos quadros mais graves. Desde junho, é o país que registra a maior média diária de novas mortes. Considerando os números acumulados, apenas os Estados Unidos têm mais vítimas e infecções.

    1.839.850

    casos de infecção sido registrados no Brasil até 11 de julho, quando a pandemia completou quatro meses

    71.469

    era o número de mortes pela doença no Brasil até a mesma data, segundo dados oficiais do governo federal

    Os primeiros casos de infecção pelo novo coronavírus foram registrados no fim de 2019 em Wuhan, cidade da China. A covid-19, doença causada pelo vírus, então se espalhou. A OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou estado de pandemia em 11 de março de 2020. Neste sábado (11), portanto, completam-se quatro meses em que o planeta enfrenta a pandemia do novo coronavírus.

    Como analisar as curvas

    Para entender o movimento de alta, estabilização ou queda nos casos e mortes, os epidemiologistas consideram a média móvel. Essa média é a soma de óbitos ou casos dos últimos sete dias divididos por sete. A conta é feita dessa forma porque os dados registrados pelo governo variam entre dias úteis e os fins de semana, o que dificulta a visualização do que acontece no país.

    Essa discrepância se dá porque os laboratórios que processam os exames não trabalham aos fins de semana, o que faz com que as notificações deixem de ser repassadas às secretarias estaduais de Saúde nesses dias. Por isso, os números ficam represados, fazendo com que voltem a crescer todas as terças-feiras. Analisar a média móvel a cada dia mostra a evolução da pandemia no país sem essas variações.

    Para saber qual a tendência da curva, compara-se a média móvel do dia analisado com a média de 14 dias atrás. Se não houver uma variação superior a 15% para mais ou para menos entre as duas datas, a curva é considerada estável. É o que acontece atualmente com os números de mortes pela covid-19 no Brasil desde o início de junho.

    A comparação é feita em relação ao 14º dia anterior porque o tempo de incubação do vírus – o período que vai da infecção à manifestação dos primeiros sintomas – é de 14 dias.

    Várias pandemias em uma

    A estabilização da curva de mortes não significa que o Brasil controlou a disseminação da doença. Isso ocorreria se os números diários apresentassem queda ao longo de um período de mais de duas semanas, o que ainda não é observado nacionalmente. Além disso, os dados nacionais, se vistos sozinhos, não revelam as diferentes realidades de um país de dimensões continentais, com mais de 211 milhões de habitantes.

    “Se olharmos o Brasil como um todo, a curva de mortes tem ficado mais ou menos estável. São 1.040, 900, 1.000 mortes por dia. O problema é que o Brasil é um país muito grande e ele esconde diferenças”, disse ao Nexo Paulo Petry, doutor em epidemiologia e professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

    Brasil alcançou platô no número de óbitos desde o início de junho

    Na sexta-feira (10), por exemplo, as mortes estavam em alta na região Sul e no Centro-Oeste. Estados do Nordeste (Piauí) e Sudeste (Minas Gerais) também seguiam essa tendência. Em São Paulo, a curva sinalizava estabilização, e no Rio de Janeiro e no Pará, queda.

    “Se botar tudo na balança, parece que está estável [o número de mortes no Brasil], como um platô de achatamento da curva. Na verdade, o país é o mesmo, mas as epidemias têm tempos diferentes nas diferentes regiões”, afirmou Petry.

    Casos continuam crescendo no Brasil quatro meses após início da pandemia

    Segundo ele, se o Brasil tivesse, no início da pandemia, testado viajantes que chegaram do exterior e rastreado seus contatos, a crise sanitária hoje poderia ser de menor magnitude. “O vírus veio de avião para o Brasil, dos Estados Unidos e da Europa, principalmente. Na epidemiologia, a máxima é testar e rastrear os contatos dos positivos durante pandemias”, afirmou.

    Para o professor, o fato de haver um presidente negacionista e um Ministério da Saúde que não é atuante também prejudica o combate ao vírus pelo país. À pasta caberia definir uma política nacional, considerando que o financiamento das ações dos estados e municípios, em boa parte, dependente da União. Ao mesmo tempo, na visão do professor, faz sentido que os estados tenham autonomia na definição de medidas por causa das realidades díspares entre as regiões.

    Os diferentes cenários de óbitos

    Em alta

    As mortes estavam subindo até a sexta-feira (10) em todos os estados do Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), no Centro-Oeste, em Minas Gerais, e em um estado do Nordeste: o Piauí.

    Estável

    Ao todo, 12 estados apresentavam a tendência de uma curva constante, sem variações superiores a 15% para mais ou para menos: os do Nordeste (com exceção do Piauí), Amazonas, Roraima, Tocantins e São Paulo.

    Em queda

    Apenas cinco estados apresentavam diminuição no número de vítimas do novo coronavírus até a mesma data: Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pará, Amapá e Acre.

    A situação do primeiro epicentro do Brasil

    A cidade de São Paulo, que registrou o primeiro caso da doença no Brasil ainda em fevereiro, e a primeira morte em março, apresentou uma leve redução no número de mortes no início de julho, quando houve uma queda de mais de 20% na média móvel. Na quinta-feira (9), o município registrou 85 novas mortes. No final de junho, havia atingido seu maior registro num único dia, de 111 óbitos.

    Cidade de São Paulo apresentou queda no início de julho

    Segundo o boletim da prefeitura da sexta-feira (10), os registros diários de internação e óbitos, em comparação com os sete dias anteriores, caíram 6% e 5,8%, respectivamente. Apesar disso, a quantidade de novos casos subiu 21,5% no mesmo período.

    56%

    era a taxa de ocupação das UTIs na cidade de São Paulo na sexta-feira (10), segundo a prefeitura

    São Paulo decidiu reabrir parques

    Embora a queda não tenha sido tão expressiva, o professor Paulo Petry disse que é possível notá-la. “Mas devemos alertar para que se mantenham os cuidados, pois a curva pode subir de novo. O vírus não desapareceu”, afirmou. Segundo ele, a queda nos números é sempre mais lenta do que o aparecimento dos picos. E quando ocorrem, criam uma falsa sensação de segurança, que pode levar a flexibilizações prematuras.

    “Uma coisa é certa. Se relaxar e tiver aglomeração, o vírus circula e os casos, internações em UTIs e mortes aumentam. É uma correlação direta no mundo inteiro. Mesmo em países onde a curva começou a descer, as medidas de etiqueta respiratória, o uso de máscara e de álcool em gel e a não permissão a aglomeração devem ser respeitados”, afirmou.

    Na quinta-feira (9), a Prefeitura de São Paulo anunciou que 70 dos 108 parques da cidade voltarão a reabrir a partir da segunda-feira (13), com uso obrigatório de máscara, controle de entrada e limite de 40% da capacidade do local.

    Entidades como o Fórum Verde, que reúne ativistas e pessoas ligadas à questão ambiental em São Paulo, criticaram a decisão por considerá-la precipitada e por não haver um plano da prefeitura de controle rígido sobre o uso desses espaços.

    A capital reabriu lojas e shoppings na primeira metade de junho, às vésperas do Dia dos Namorados, por pressão de lojistas. Desde 6 de julho bares, restaurantes e salões de beleza também podem funcionar, com restrições. Academias e locais de eventos continuam fechados, ainda sem previsão de retorno. Segundo o governo do estado de São Paulo, as escolas devem retomar as atividades em setembro.

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