Quais as suspeitas contra Carlos Bolsonaro na Câmara do Rio

Apurações ocorrem paralelamente à exposição cada vez maior do ‘gabinete do ódio’ em Brasília. Filho do presidente sinaliza mudança de atitude e diz que pode ter chegado a ‘um novo momento pessoal’

    Menos de um mês depois de Jair Bolsonaro interromper a série de ameaças públicas de ruptura institucional que vinha fazendo ao Supremo Tribunal Federal, é a vez de um dos filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, falar em adotar um “novo movimento pessoal”. Em mensagem nas redes sociais na quinta-feira (9), o vereador do Rio pelo partido Republicanos disse o seguinte:

    “Totalmente ciente das consequências e variações. Aos poucos vou me retirando do que sempre defendi. Creio que possa ter chegado o momento de um novo movimento pessoal. Estou cagando para esse lixo de fake news e demais narrativas. Precisamos viver e nos respeitar”

    Carlos Bolsonaro

    vereador do Rio e um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro

    A mensagem um tanto cifrada foi publicada um dia depois de o Facebook retirar do ar páginas e perfis ligados ao gabinete de seu pai, aos gabinetes de seus irmãos Flávio, senador pelo Republicanos do Rio, e Eduardo, deputado federal pelo PSL de São Paulo, e aos gabinetes de outros dois parlamentares bolsonaristas.

    As investigações do Facebook que levaram à derrubada das páginas e perfis chegaram a Tercio Arnaud Tomaz, assessor do Palácio do Planalto que trabalhou na campanha presidencial de 2018 cuidando das redes sociais de Bolsonaro junto com Carlos. Arnaud Tomaz é um dos nomes ligados ao chamado “gabinete do ódio”, uma estrutura criada para atacar desafetos do governo. Carlos é suspeito de comandá-la.

    O “gabinete do ódio” é um dos alvos do inquérito das fake news, uma investigação criminal aberta pelo Supremo para apurar ameaças a autoridades, entre as quais os próprios ministros do tribunal. Por ordem do Supremo, bolsonaristas foram presos, tiveram suas casas vasculhadas e seus sigilos bancários quebrados. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Carlos é investigado nesse inquérito, apesar de não ter sido alvo de mandados judiciais.

    De acordo com o jornal O Globo, a mensagem publicada por Carlos na quinta (9) está relacionada à vontade do filho do presidente de deixar a política e desistir de mais um mandato na Câmara Municipal do Rio. Carlos é vereador desde 2001, quando tinha 18 anos. Ele avalia a possibilidade de ir morar em Brasília para ficar mais perto do pai.

    O movimento do filho de Bolsonaro, em meio à exposição cada vez maior do chamado “gabinete do ódio”, ocorre também num momento em que o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro avança em investigações envolvendo seu nome. Abaixo, o Nexo explica o que há contra Carlos nessas apurações.

    As investigações de suspeitas na Câmara

    As investigações contra o filho do presidente apuram o possível uso de funcionários fantasmas na prática de rachadinha na Câmara do Rio. A rachadinha ocorre quando um servidor devolve parte do salário para o parlamentar. As apurações são mantidas sob sigilo.

    Elas foram abertas após reportagens do jornal Folha de S.Paulo e da revista Época mostrarem que funcionários locados no gabinete de Carlos não prestavam serviços ao vereador, não possuíam crachá de identificação ou apareciam para trabalhar na Câmara. As revelações ocorreram entre abril e junho de 2019.

    O suposto esquema no gabinete do vereador teria começado já no seu primeiro mandato, em 2001. Segundo os investigadores, a prática teria sido interrompida apenas quando seu pai assumiu a Presidência da República, em janeiro de 2019, a partir de quando Carlos exonerou nove servidores de seu gabinete no Rio.

    Na quinta-feira (9), Ana Cristina Valle, segunda ex-esposa do presidente Bolsonaro, prestou depoimento por videoconferência ao Ministério Público no âmbito da investigação. Ana Cristina foi apontada como chefe do gabinete de Carlos entre 2001 e 2008.

    Além dela, o Ministério Público também quer ouvir Marta Valle, cunhada de Ana Cristina, e Gilmar Marques, ex-cunhado de Ana Cristina. Ambos constaram como assessores de Carlos, mas disseram à revista Época que nunca trabalharam para o vereador.

    Ana Cristina nega irregularidades e diz que as investigações são uma estratégia para atingir o mandato de Bolsonaro na Presidência. Carlos não se pronunciou sobre o caso. Seu chefe de gabinete, Jorge Luiz Fernandes, afirma que funcionários comissionados não são obrigados a trabalhar fisicamente na Câmara Municipal.

    A ponte com o caso do irmão mais velho

    Filho mais velho do presidente, Flávio é investigado desde janeiro de 2018 pelo Ministério Público do Rio sob suspeita de integrar o esquema de rachadinhas na Assembleia enquanto era deputado estadual, entre 2003 e 2018.

    A prática teria sido comandada por seu ex-assessor Fabrício Queiroz, entre 2007 e 2018. Queiroz foi preso preventivamente em 18 de junho de 2020, data a partir da qual Jair Bolsonaro, de quem é amigo, submergiu e deixou de fazer ameaças de ruptura institucional ao Supremo.

    Na quinta-feira (9), o ex-assessor de Flávio obteve direito a prisão domiciliar, a partir de decisão do presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio Noronha. A esposa de Queiroz, Márcia de Aguiar, também foi beneficiada pela decisão, mas ainda está foragida.

    A partir de uma série de quebras dos sigilos fiscal e bancário determinadas pela Justiça do Rio em abril de 2019 no caso envolvendo Flávio, ex-funcionários do gabinete de Carlos na Câmara também foram atingidos. Isso porque houve pessoas que trabalharam tanto para Flávio quanto para Carlos. O compartilhamento de dados bancários obtidos na investigação sobre Flávio no caso que investiga Carlos depende de autorização judicial.

    Um com foro privilegiado. Outro sem

    Flávio conquistou o foro privilegiado em 25 de junho, após decisão da 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio. Seu caso foi para a segunda instância, sob a guarda do Órgão Especial do Tribunal de Justiça, um colegiado com 25 desembargadores.

    A obtenção do foro privilegiado foi uma vitória de Flávio. O mesmo destino não teve Carlos. As investigações contra o vereador estão na primeira instância judicial.

    No dia 19 de junho, o Supremo suspendeu o artigo da Constituição do Rio que dava a vereadores a prerrogativa dos deputados estaduais de serem julgados por desembargadores no Tribunal de Justiça. Sem o foro, as apurações são conduzidas por promotores e supervisionadas por um juiz criminal de primeira instância.

    Tanto Flávio quanto Carlos são atualmente apenas suspeitos. Só ao fim das investigações o Ministério Público Estadual do Rio vai decidir se denuncia os filhos do presidente à Justiça ou manda arquivar os casos.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: