A mudança de Trump nos vistos de alunos estrangeiros nos EUA

Estudantes de cursos que adotaram aulas exclusivamente online na pandemia não poderão permanecer nos país. Harvard e MIT vão tentar barrar a medida na Justiça

    Estudantes estrangeiros só poderão permanecer nos Estados Unidos se ao menos uma das disciplinas que forem cursar no segundo semestre de 2020 tiver aulas presenciais. A determinação foi publicada pelo governo do presidente Donald Trump na segunda-feira (6).

    Alunos de universidades e escolas que continuam adotando aulas exclusivamente online, como forma de evitar a propagação do novo coronavírus, terão de deixar os Estados Unidos, sob o risco de serem deportados. Os que já estão fora do país também não terão seus vistos renovados para retornar.

    A súbita alteração das regras imigratórias tem sido criticada não apenas por estudantes, mas por instituições de ensino. Elas temem perder matrículas, já que muitos estudantes escolhem estudar fora também pela oportunidade de morar no exterior e vivenciar uma cultura diferente da sua.

    Analistas políticos atribuem a medida a razões eleitorais. Além de agradar à base eleitoral de Trump, a ampliação das restrições migratórias teriam a intenção de forçar escolas e universidades a participarem da retomada à normalidade que o presidente propõe para os americanos em meio à pandemia.

    Os Estados Unidos são o país mais afetado pela covid-19. Até esta terça-feira (7), o novo coronavírus já tinha feito mais de 132 mil mortes no país, segundo a Universidade Johns Hopkins.

    A política anti-imigração

    Para muitos analistas, o contexto excepcional criado pela pandemia dá maior viabilidade à implementação da agenda anti-imigração que marcou a campanha de Trump e do Partido Republicano em 2016 e seus quase quatro anos de governo.

    A proposta de construir um muro entre os EUA e o México ajudou a alimentar uma base eleitoral que vê nos imigrantes uma ameaça aos seus empregos, atuais ou futuros, no caso dos estudantes. Ao longo de seu mandato, Trump foi além da retórica e tomou medidas para reduzir a imigração nos EUA, seja ela legal ou ilegal.

    Isso continuou durante a pandemia do novo coronavírus, declarada em março pela OMS (Organização Mundial da Saúde), durante um ano eleitoral nos EUA. As eleições presidenciais, em que Trump vai concorrer contra o democrata Joe Biden, ex-vice-presidente de Barack Obama, estão marcadas para novembro.

    As mudanças durante a pandemia

    GREEN CARDS

    Em abril, Trump suspendeu por 60 dias a emissão de green cards (vistos de residência), sob o pretexto de proteger americanos do desemprego provocado pela pandemia de covid-19. Em junho, a suspensão foi estendida até 31 de dezembro de 2020.

    VISTOS DE TRABALHO

    Em junho, a suspensão recaiu também sobre vistos de trabalho. Empresas multinacionais alertaram para o risco de ficarem sem a mão de obra qualificada que recrutam no exterior e disseram que a medida é contraproducente para a recuperação econômica.

    VISTOS DE ESTUDANTE

    Em julho, os alvos da gestão Trump foram os vistos F1 (para cursos acadêmicos) e M1 (para cursos profissionalizantes). Estudantes de cursos exclusivamente online não estarão autorizados a permanecer no país a partir da retomada do ano letivo (o que acontece nos Estados Unidos normalmente em setembro).

    No caso das restrições estudantis, a política de Trump afeta especialmente a China, grande rival geopolítico dos Estados Unidos e um dos maiores alvos da política externa do presidente.

    A China lidera há dez anos o ranking dos países que mais enviam estudantes aos Estados Unidos. Em 2019, foram 369 mil pessoas, de um milhão de estudantes internacionais recebidos por instituições americanas de nível superior. Nesse ranking, o Brasil está em nono lugar.

    16 mil

    era o total em 2019 de estudantes provenientes do Brasil nos Estados Unidos

    A reação à medida

    A Universidade de Harvard e o MIT (Massachussetts Institute of Technology) informaram nesta quarta-feira (8) que tentam derrubar o impedimento aos estudantes estrangeiros judicialmente. A advogada-geral de Massachussetts, que abriga as duas instituições, apoiou a iniciativa.

    “Essa é apenas mais uma cruel (e ilegal) iniciativa da administração Trump e da ICE [agência para Imigração e Alfândega] para causar incerteza e punir imigrantes. Nosso estado é o lar de milhares de estudantes internacionais que não devem temer a deportação ou riscos à saúde para estudarem. Vamos processar.”

    Maura Healey

    advogada-geral de Massachussetts, em tweet no dia 7 de julho de 2020

    Diversas outras universidades se manifestaram contra a decisão do governo Trump. Muitas prometem resistir à pressão para darem aulas presenciais em meio à pandemia, mas alertam para os problemas financeiros que terão se perderem alunos.

    Os estudantes estrangeiros costumam pagar mensalidades integrais e são responsáveis por parte significativa do orçamento das universidades e escolas americanas.

    US$ 45 bilhões

    foi o quanto estudantes estrangeiros pagaram a instituições de ensino nos Estados Unidos em 2018

    Estudantes reclamam também do caráter abrupto da mudança. Muitos já adiantaram o pagamento de seus aluguéis para o próximo semestre. Para os que estão matriculados em escolas que oferecerão cursos exclusivamente online, também não há tempo, nem vagas disponíveis, para mudar de instituição.

    Sensibilizados com a situação de colegas estrangeiros, estudantes americanos inscritos em cursos presenciais têm se mobilizado virtualmente para trocar de vagas com eles.

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