Os atropelos de procedimento após Bolsonaro pegar covid-19

OMS recomenda identificar, testar, isolar e tratar doente, além de rastrear os contatos e colocá-los em quarentena. Um dia após diagnóstico do presidente, funcionários do governo continuaram indo ao trabalho

O protocolo da OMS (Organização Mundial de Saúde) para tentar barrar a disseminação do novo coronavírus prevê que todos os casos suspeitos de infecção devem ser identificados, testados, isolados e tratados. Mas apenas isso não basta: os contatos dos doentes precisam também ser rastreados e colocados em quarentena. Essas iniciativas são consideradas as mais eficazes na ausência de tratamento ou vacina contra a covid-19, e foram adotadas por países que conseguiram controlar a transmissão do vírus.

Na terça-feira (7), o presidente Jair Bolsonaro afirmou ter sido diagnosticado com a covid-19. Caso o protocolo da OMS fosse seguido, todos os funcionários do governo federal que tiveram contato com o presidente nos dias anteriores teriam que ser colocados em quarentena. Não foi isso o que se viu. Eles continuaram a trabalhar na quarta-feira (8), e o governo divulgou uma nota dizendo “não haver protocolo médico do Ministério da Saúde ou da OMS que recomende medida de isolamento pelo simples contato com casos positivos”.

“A orientação que damos aos servidores é procurar assistência médica quando apresentarem sintomas relacionados à covid-19, para avaliar necessidade de testagem. Nos casos considerados suspeitos, os servidores são orientados a ficar em casa até o resultado do exame”, afirmou o governo.

A fala contradiz um documento da OMS segundo o qual as pessoas que tiveram contato próximo no local de trabalho com infectados pelo novo coronavírus e com o diagnóstico confirmado em laboratório devem ficar em quarentena por 14 dias.

Houve atropelos nos protocolos também quando Bolsonaro anunciou o resultado de seu exame, na terça-feira (7). Ele convocou a imprensa e deu uma entrevista próximo aos repórteres. Ao final, tirou a máscara para dizer que estava bem, o que não é recomendado. O vírus é transmitido por gotículas de saliva expelidas no ar.

Histórico de ir contra recomendações

Conhecido por negar a gravidade da pandemia, Bolsonaro já criticou a OMS no passado dizendo que a entidade “não acerta nada” em suas recomendações. Desde o início das mortes pela infecção no Brasil, em março, sua estratégia tem sido minimizar a gravidade da doença. Já chamou a covid-19 de “gripezinha”, respondeu “e daí?” ao ser questionado sobre o número de mortes no país, atacou governadores e prefeitos por adotar medidas de isolamento social e incentivou aglomerações ao participar de atos com apoiadores.

Em vez de investir na identificação, testagem e isolamento de doentes, o presidente aposta num remédio usado há mais de 80 anos contra a malária: a cloroquina. Ele diz estar tomando o medicamento, mas sua eficácia contra o coronavírus não é comprovada. Estudos apontam que a substância pode causar efeitos colaterais como arritmia cardíaca.

Até a quarta-feira (8), o governo federal havia enviado aos estados apenas 12 milhões de testes, um quarto do que foi prometido. Por outro lado, já produziu 1,8 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina nos laboratórios do Exército, volume 18 vezes superior ao que costumava ser fabricado anualmente no país.

Bolsonaro também não definiu uma política nacional de combate à pandemia, coordenando os esforços dos estados e municípios. Esse papel cabe ao Ministério da Saúde, que há mais de 50 dias não tem um titular no cargo. O presidente forçou a demissão de dois ministros em menos de um mês, por discordâncias com as medidas adotadas. A pasta está sendo comandada pelo general do Exército Eduardo Pazuello, que não tem experiência prévia na área da saúde.

Em meio a esse contexto de descoordenação, o país acumula o segundo maior número de casos de infecção e mortes pela doença no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

1.713.160

casos de infecção pelo novo coronavírus foram registrados no Brasil até quarta-feira (8), segundo o Ministério da Saúde

67.964

era o número de mortos pela doença até a mesma data, de acordo com o órgão

As medidas tomadas pelo entorno do presidente

Um levantamento feito pelo jornal O Globo publicado na quarta-feira (8) mostrou que o presidente cumpriu uma extensa agenda nos sete dias anteriores ao diagnóstico. Desde 30 de junho, ele esteve com ao menos 60 políticos, empresários ou autoridades. O levantamento mostra ainda que ao menos sete pessoas fizeram teste para saber se tinham se contaminado depois que o presidente revelou o caso.

A confirmação da contaminação de Bolsonaro fez o entorno do presidente ficar em alerta. Integrantes do governo e pessoas de fora da administração pública estão fazendo testes para saber se também foram infectadas pelo novo coronavírus. Empresários que se reuniram com ele nos dias anteriores, como o presidente da BRF, Lorival Luz, decidiram entrar em isolamento e trabalhar de casa, o que é o mais correto.

No dia a dia, segundo relatos obtidos pelo jornal Folha de S.Paulo, o presidente recebia convidados em Brasília com apertos de mão, classificava o medo da população de contrair o vírus de “besteira” e fazia comentários homofóbicos sobre o uso da máscara, que ele frequentemente deixou de usar ao participar de eventos públicos. A Justiça federal chegou a determinar que Bolsonaro usasse a proteção, mas a decisão foi depois revista. Um decreto no Distrito Federal obriga o uso de máscara sob pena de multa.

Nos dias anteriores ao teste, o presidente esteve ainda numa cerimônia de prorrogação do auxílio emergencial, numa reunião com representantes de clubes de futebol, numa comemoração da Independência dos Estados Unidos em 4 de julho com o embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, e numa visita a áreas atingidas pelo ciclone-bomba em Santa Catarina.

O período de incubação do coronavírus, que corresponde ao intervalo entre a exposição ao agente causador da covid-19 e a manifestação dos sintomas, é de até 14 dias. Isso significa que nos dias anteriores aos primeiros sintomas, o presidente poderia estar na situação de pré-sintomático e já poderia estar transmitindo a doença por meio de gotículas de saliva. A OMS também reconheceu na terça-feira (7), após pressão de cientistas, que a transmissão pode ocorrer por partículas com o vírus suspensas no ar.

Bolsonaro afirmou que começou a manifestar os primeiros sintomas, como febre baixa e tosse, no domingo (5). Isso significa que ele poderia ser considerado um vetor nos 14 dias anteriores. Em média, porém, os primeiros sintomas começam a aparecer no quarto e quinto dias após a contaminação. Na live que fez cinco dias antes do teste, o presidente já aparece tossindo.

Para garantir que o vírus não se dissemine ainda mais, os contatos mais próximos do presidente precisariam ser rastreados, testados e isolados. Segundo o jornal O Globo, os ministros Walter Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Jorge Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência), que tiveram contato frequente com Bolsonaro, fizeram testes rápidos e decidiram manter as agendas de atendimento em seus gabinetes.

A medida, porém, é inócua, porque os testes rápidos, conhecidos como sorológicos, identificam apenas a presença de anticorpos no organismo, ou seja, se a pessoa teve contato com o vírus no passado. O exame não aponta se o indivíduo está doente naquele momento. Isso é feito por meio dos testes moleculares, o PCR, realizado por meio da coleta de secreções do nariz e da garganta.

Os testes rápidos também são criticados por terem baixa sensibilidade e poderem apontar falsos resultados negativos. Os ministros que o fizeram, mesmo com o resultado negativo, podem estar doentes sem apresentar sintomas, o que expõe ao risco os demais funcionários do governo.

As recomendações da OMS

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a transmissão do vírus pode ser controlada por meio de duas abordagens complementares:

  • Quebra das cadeias de transmissão ao detectar, testar, isolar, tratar os casos e colocar em quarentenas seus contatos
  • Monitoramento dos principais pontos de circulação das doenças respiratórias através do serviço de vigilância

Países como Coreia do Sul, Cingapura, Nova Zelândia e Alemanha conseguiram colocar em prática o chamado “contact tracing”, ou rastreamento de contatos. Um estudo publicado na revista Lancet em junho mostrou que a medida pode ser altamente eficaz.

De acordo com a pesquisa, testar em massa a população sem adotar nenhuma outra medida pode reduzir a transmissão em 2%, caso 5% da população seja testada a cada semana. Mas quando os suspeitos de estarem contaminados e as pessoas que vivem junto com eles são isolados e, ao mesmo tempo, todos os seus contatos são rastreados e colocados em quarentenas, a transmissão pode cair em 64%.

O estudo prevê que, para cada mil novos casos sintomáticos identificados por dia, de 15 mil a 41 mil contatos teriam que entrar em quarentena diariamente para que a medida surta efeito.

Nos países que implantaram essa política de rastreamento, foram contratadas equipes de entrevistadores para tentar identificar todo mundo que possa ter tido contato com doentes. As equipes buscam saber com quem o infectado conversou nos últimos 14 dias, se esse contato aconteceu em ambientes fechados ou abertos, quem foram as pessoas que se sentaram próximas a eles e se o doente esteve em grandes eventos, por exemplo.

São considerados contatos próximos as pessoas que estiveram cara a cara por um período maior do que 15 minutos com quem está contaminado ou que dividiu um mesmo espaço fechado por mais de duas horas. Não se busca indivíduos que passaram perto na rua ou em lojas, porque o risco de contaminação, nesses casos, é pequeno.

Quando um doente esteve, por exemplo, dentro de um avião, as equipes tentam obter com a companhia aérea a lista de todos passageiros para identificar quem se sentou a ao menos cinco fileiras de distância do contaminado. Eles serão colocados em quarentenas ou em estabelecimentos preparados para confinar a população.

Na cidade de Wuhan, epicentro da pandemia na China, o governo formou cerca de 1.800 equipes, com o mínimo de cinco pessoas em cada equipe, para rastrear milhares de contatos por dia.

Em maio, os Estados Unidos também iniciaram um plano para contratar 180 mil pessoas para trabalhar no rastreamento de contatos dos doentes. A iniciativa tinha um custo de US$ 12 bilhões, mas o governo também previa US$ 4,5 bilhões para manter pessoas isoladas em hotéis e US$ 30 bilhões, por 18 meses, para ajudar quem decidisse se isolar voluntariamente. Só em Nova York, foram contratadas 17 mil pessoas com a função de mapear essa rede de contatos dos infectados.

Alguns países, como a própria China, chegaram a adotar também aplicativos de celular para localizar os doentes e avisar as pessoas próximas que elas precisam entrar em quarentena. Um estudo publicado na revista Science em maio mostrou que os aplicativos de celular podem ajudar a frear a pandemia se 60% da população fizer uso da tecnologia.

O rastreamento de contatos, no entanto, não é fácil de ser realizado na prática, segundo o professor Jimmy Whitworth, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. Em artigo publicado em abril no site The Conversation, ele diz que a medida é mais eficiente no início do surto, quando há poucas cadeias de transmissão. No caso, da covid-19, uma das principais dificuldades é o fato de a doença se disseminar de forma muito rápida e infectados poderem não apresentar sintomas e mesmo assim transmitir o vírus adiante.

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