Coronavírus: os indícios de transmissão por resíduos suspensos no ar

Grupo de 239 cientistas pressiona OMS para reconhecer forma de contaminação. Organização admite possibilidade, mas pede tempo para analisar evidências

    Uma infectologista da OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou na terça-feira (7) que há indícios de que o novo coronavírus seja transmitido pelo ar em alguns cenários específicos.

    Desde o início da pandemia, em março, a posição da organização é de que a contaminação se dá principalmente pelo contato com gotículas de saliva e outras secreções, passadas por um indivíduo infectado a outro por uma curta distância.

    Por isso a OMS recomenda que pessoas fiquem a cerca de 2m umas das outras – essa distância seria suficiente para que as gotículas expelidas durante a fala ou em espirros caíssem no chão.

    A nova perspectiva afirma que micropartículas de secreções podem ficar suspensas no ar por horas, contaminando outras pessoas mesmo muito tempo depois de o indivíduo infectado ter passado pelo local.

    “A possibilidade de transmissão pelo ar em locais públicos – especialmente em condições muito específicas de lugares cheios, fechados e com pouca ventilação – não pode ser descartada. Contudo, as evidências precisam ser coletadas e interpretadas”, disse Benedetta Allegranzi, infectologista da organização.

    A fala da médica vem dias depois de um grupo de 239 cientistas, de 32 países, assinarem uma carta aberta pedindo para que a OMS reconhecesse a possibilidade da transmissão pelo ar.

    Segundo eles, reconhecer a contaminação por meio de partículas de aerossol é necessário para que governos do mundo todo pensem em novas estratégias para conter o avanço do vírus.

    Quais são os indícios

    Um estudo publicado em 2 de junho pelo Instituto Nacional de Saúde dos EUA é a base para a argumentação do grupo de cientistas que direcionou a carta à OMS.

    A pesquisa, publicada na revista da Academia Nacional de Ciências do país, descobriu que micro gotículas de saliva, em forma de aerossol, são capazes de circular no ar de um ambiente por até quatro horas, possivelmente contaminando pessoas que venham a seu encontro.

    Para isso, o time de pesquisadores analisou o comportamento de gotículas de saliva em um ambiente fechado, observando-as com o auxílio de um laser que permitia a visualização de suas trajetórias.

    Gotículas maiores atingiam o chão em poucos segundos, desfazendo-se rapidamente. Porém, partículas menores, quase invisíveis, circularam por mais tempo, com trajetórias mais amplas.

    O grupo também se baseou em um estudo publicado na revista Nature em abril, feito por médicos chineses. A pesquisa analisou o comportamento de gotículas de saliva em dois hospitais de Wuhan, província na China que foi o primeiro epicentro da pandemia.

    Os pesquisadores notaram o aerossol de saliva nos dois hospitais, especialmente em áreas mais movimentadas. O artigo não avaliou por quanto tempo elas circulavam e nem o seu potencial de contaminação. Estudos ainda precisam verificar se partículas pequenas carregam carga viral suficiente para infectar alguém.

    Por fim, os 239 cientistas embasaram o pedido com um caso específico ocorrido no condado de Skagit, noroeste dos EUA. Em março, cerca de 45 pessoas de um coral foram infectadas pelo novo coronavírus após um ensaio que durou cerca de duas horas e meia.

    O CDC (da sigla em inglês, Centro de Controle de Doenças) dos EUA apresentou a hipótese de que o ato de cantar em si espalhou partículas aerossóis no ar, contaminando mais facilmente os membros do grupo.

    Por ter ocorrido fora do ambiente de laboratório, não foi possível realizar experimentos para confirmar ou descartar a hipótese.

    O que muda se a hipótese for confirmada

    Seguindo os passos do método científico, pesquisadores devem realizar novos experimentos para avaliar se as micro gotículas representam risco significativo para a população.

    Novas evidências serão avaliadas pela OMS que, com base nelas, traçará novas recomendações e estratégias para conter o avanço do novo coronavírus enquanto uma vacina não está disponível.

    Caso a hipótese seja confirmada e os aerossóis de saliva sejam um risco, será necessário um reforço das medidas preventivas. Nesse possível novo cenário, um distanciamento social maior e mais intenso seria necessário, bem como mudanças nos sistemas de ventilação de estabelecimentos públicos.

    Filtros de ar e sistemas de esterilização usando luz ultravioleta seriam necessários, bem como uma adesão maior ao uso de máscaras por parte da população.

    O cenário também afetaria profissionais da saúde na linha de frente, que precisariam usar a máscara do tipo N95, que conta com filtro de ar, para realmente evitar a contaminação pelo vírus. Esse tipo de proteção é mais caro e mais desconfortável de se usar por muitas horas.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.