Quais os riscos de usar a luz ultravioleta contra o coronavírus

Técnica é usada desde o século 19 e foi adotada na China para esterilizar superfícies na pandemia. A exposição humana aos raios, contudo, pode causar complicações graves

Em meio à pandemia do novo coronavírus, a Samsung anunciou, na sexta-feira (3), um carregador que promete esterilizar os celulares enquanto eles são abastecidos com energia.

O carregador é uma caixa, que faz o carregamento sem fio. Em seu interior, estão luzes ultravioletas, que prometem matar 99% dos microorganismos que se acumulam na superfície do smartphone.

Num primeiro momento, a novidade está restrita à Tailândia, mas será lançada em outros países num futuro próximo. Não se sabe quando o carregador chegará ao Brasil.

Não é a primeira vez que ela tem sido usada como forma de esterilização no contexto da pandemia. Desde março, os ônibus públicos de Xangai, na China, recebem um banho de luz ultravioleta todos os dias, como uma forma de garantir que as superfícies estarão esterilizadas para a rota do dia seguinte.

Em Wuhan, província chinesa na qual o vírus começou a se espalhar, robôs lançam a luz no chão de escritórios e hospitais, garantindo uma camada extra de limpeza.

Em Hong Kong, usam o método para esterilizar livros e apostilas que são manuseados diariamente pelos alunos.

O Banco Central da China também passou a banhar cédulas com a luz ultravioleta para garantir que as notas cheguem esterilizadas para a população.

A eficácia do método

três tipos de raios ultravioletas: os do tipo A e do tipo B nos chegam naturalmente por meio da luz solar. Podem causar queimaduras e outras complicações na pele em caso de exposições longas, problemas que podem ser evitados facilmente com o uso de filtros solares.

A luz ultravioleta do tipo C é a mais agressiva, e não chega a ter contato com humanos porque é barrada pela atmosfera e pela camada de ozônio. Nesse caso, uma exposição de poucos minutos pode causar queimaduras e complicações graves.

A esterilização usando luz ultravioleta necessita dos raios tipo C, emitidos por lâmpadas especiais que apresentam um forte brilho e um tom azul claro.

A ciência sabe do potencial de esterilização da luz ultravioleta desde 1878, quando os cientistas britânicos Arthur Downes e Thomas Blunt descobriram que bactérias morriam quando expostas a ela.

Desde então, esse tipo de esterilização passou a ser usado amplamente em várias áreas, da indústria alimentícia aos sistemas de tratamento de água e esgoto.

Um estudo publicado no dia 18 de junho pela Universidade de Boston, nos EUA, investigou o potencial da técnica para matar o novo coronavírus.

Liderados pelo microbiologista Anthony Griffiths, os pesquisadores notaram que uma exposição de seis segundos a uma certa potência da luz ultravioleta foi capaz de matar 99% dos vírus presentes na superfície examinada. Aumentando a potência e o tempo de incidência para 25 segundos, o resultado foi ainda melhor: 99,999% dos agentes foram eliminados.

Quando exposta aos raios, a estrutura genética do vírus é destruída, desfazendo-se rapidamente.

Quais são os riscos

Apesar de eficaz na hora de matar até mesmo o novo coronavírus, o uso de luz ultravioleta deve ser encarado com cautela, já que pode causar irritações na pele, queimaduras ou, em casos extremos, um câncer.

“Os raios UVC são bem ruins. Você não deve ser exposto a eles”, disse à BBC Dan Arnold, especialista em raios ultravioletas que trabalha para a empresa UV Light Technology, que fornece equipamentos de esterilização luminosa para hospitais e fábricas.

“Leva algumas horas para você se queimar com a luz tipo B, mas apenas alguns segundos para isso acontecer com a luz tipo C. Sabe a sensação horrível que se tem nos olhos quando se olha para o sol? É aquilo, só que 10 vezes pior”, afirmou.

“Você estaria literalmente fritando as pessoas”, avaliou.

Por isso, a Organização Mundial da Saúde não recomenda o uso de luz ultravioleta para a limpeza de mãos ou de outras áreas da pele.

Uma possível solução

Por se tratar de um método muito eficaz, há pesquisas em andamento para reduzir os riscos da técnica.

Desde 2013, um time de cientistas do Centro de Pesquisa Radiológica da Universidade de Columbia, nos EUA, vem pesquisando uma forma de esterilização por raios ultravioletas segura para os seres humanos.

O time desenvolveu o protótipo de uma lâmpada que tem como objetivo emitir raios do tipo C sem causar queimaduras ou outros tipos de complicações.

Os pesquisadores já tinham realizado testes com bactérias e com alguns tipos de vírus da gripe, até que a pandemia acelerasse seus trabalhos.

Desde o fim de abril, o centro tem realizados testes específicos com o coronavírus.

São três experimentos: o teste de esterilização de superfícies, o teste de esterilização do ar e o teste de segurança.

O teste de segurança foi feito com camundongos, que foram expostos à lâmpada especial por horas a fio. Segundo David Brenner, diretor do instituto, efeitos colaterais não foram notados.

Os experimentos da Universidade de Columbia devem se estender até meados de outubro. O time já adiantou resultados preliminares para a revista científica Nature, como forma de acelerar uma possível validação acadêmica e médica da técnica.

Não há previsão para uma produção em larga escala da lâmpada, caso ela seja considerada eficaz e segura.

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