Como Bolsonaro usa a infecção pela covid-19 a favor de sua agenda

Ao anunciar diagnóstico, presidente divulga tratamento com hidroxicloroquina, derivado da cloroquina, remédio sem eficácia comprovada. Ao ‘Nexo’ dois médicos analisam os impactos da atitude do chefe do Executivo federal

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    Um dos poucos chefes de Estado no mundo que minimizam a gravidade da pandemia do novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro disse na terça-feira (6) ter sido diagnosticado com a covid-19. Ele afirmou ter manifestado sintomas leves da doença causada pelo novo coronavírus, como febre baixa e tosse. Também disse ter decidido tomar hidroxicloroquina, remédio que não tem comprovação científica contra o vírus e que pode causar efeitos colaterais.

    Aos 65 anos, Bolsonaro faz parte do grupo de risco da doença por causa da idade. Em entrevista a canais de TV, afirmou ter ido ao hospital das Forças Armadas em Brasília para realizar uma tomografia. Segundo o presidente, as imagens mostraram que os pulmões estavam “limpos”. Bolsonaro também afirmou estar se sentindo “perfeitamente bem” e que estava adotando medidas para evitar a “contaminação de terceiros”.

    Em vídeo divulgado em suas redes sociais no mesmo dia, o presidente aparece tomando uma pílula que diz ser a “terceira dose de hidroxicloroquina”. Ele afirmou ter começado a sentir os sintomas da doença no domingo (5), e que agora estava melhor. “Com toda a certeza está dando certo”, disse, sobre o tratamento com o remédio. O presidente termina o vídeo dizendo não haver comprovação científica da eficácia da medicação, mas que confia nela. A maioria dos estudos científicos aponta que o remédio não funciona contra a covid-19 e que pode causar arritmias.

    No dia em que anunciou estar infectado, Bolsonaro voltou a criticar as quarentenas pelo país e defendeu cuidados apenas com os mais velhos e pessoas que já têm outras doenças. Bolsonaro disse que os mais jovens podem ficar tranquilos por terem chances próximas a zero de manifestar um quadro grave da doença, o que não é verdade. Especialistas dizem que o isolamento vertical defendido pelo presidente, apenas de idosos, não funciona. Como não há remédios e vacinas contra a covid-19, a OMS (Organização Mundial de Saúde) reconhece as medidas de isolamento e distanciamento social como as mais eficazes contra a pandemia.

    A suspeita anterior

    Bolsonaro se tornou apenas o quarto líder de um país a se contaminar com o novo coronavírus. Os outros foram o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, o príncipe Alberto, de Mônaco, e o presidente de Honduras, Juan Hernández. Eles já se recuperaram da doença.

    Um possível contágio de Bolsonaro já é discutido desde março, quando a comitiva presidencial voltou de uma viagem aos Estados Unidos. Mais de 20 integrantes da equipe brasileira foram diagnosticados com a doença. O presidente fez exames que deram negativo mas se recusou a mostrar os resultados.

    Apenas em maio, depois de uma disputa judicial com o jornal O Estado de S.Paulo, que foi parar no Supremo Tribunal Federal, o presidente foi obrigado pelo ministro Ricardo Lewandowski a apresentar os três testes que havia feito. Todos deram negativo e mostravam pseudônimos para preservar, segundo o governo, sua identidade.

    Na terça-feira (7), para comprovar o diagnóstico da doença, o governo divulgou a imagem de um exame molecular — que identifica a presença do vírus no organismo a partir da coleta de secreção do nariz e da garganta — com o nome do presidente e as informações pessoais, como número do CPF, cobertos com tarjas.

    Desrespeito às medidas

    Preocupado com as consequências da crise econômica em sua popularidade, Bolsonaro atuou contra as medidas de isolamento social adotadas por governos locais para combater a pandemia no Brasil. Ele já chamou a doença de “gripezinha”. De março a maio, provocou aglomerações em Brasília ao participar de protestos organizados por apoiadores contra o Congresso e o Supremo, e visitou comerciantes na cidade.

    Com frequência, o presidente aparece em público sem máscara, o que é exigido por decreto no Distrito Federal. Em junho, a Justiça Federal chegou a determinar que o presidente fosse obrigado a usar a proteção em locais públicos. O governo acabou conseguindo derrubar a decisão.

    No início de julho, ao sancionar uma lei que disciplina o uso de máscaras em locais públicos em todo o Brasil, Bolsonaro vetou a obrigatoriedade do item dentro de lojas, fábricas, igrejas, escolas e presídios. O governo alegou que o texto “incorre em possível violação de domicílio”.

    O Supremo garantiu em abril a autonomia de governadores e prefeitos em decidir sobre as ações de combate à pandemia. Apesar disso, o Ministério da Saúde ainda tem o papel de coordenar as políticas nacionais de enfrentamento ao coronavírus.

    O presidente já forçou a demissão de dois ministros: Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Entre os motivos estava a pressão para ampliar o uso da cloroquina em pacientes com sintomas leves.

    Segundo Mandetta, Bolsonaro insiste no medicamento porque é uma forma de dar confiança às pessoas. Assim, o presidente poderia levar adiante seu plano de reabrir a economia.

    O Ministério da Saúde, atualmente sob o comando interino do general Eduardo Pazuello, está há mais de 50 dias sem um titular no cargo. E cada vez mais ocupado por militares.

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    pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus no Brasil até a terça-feira (7), segundo o Ministério da Saúde

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    foi o número de mortes pela doença até a mesma data, de acordo com o órgão

    A crise sanitária tem sido acompanhada de uma crise política. O momento de Bolsonaro, para além das questões do coronavírus, é delicado. Apoiadores bolsonaristas têm sido detidos e vasculhados em investigações tocadas sob a guarda do Supremo. O próprio presidente é alvo de um inquérito no tribunal.

    Em 18 de junho, Fabrício Queiroz, ex-assessor de seu filho mais velho, senador Flávio Bolsonaro, foi preso preventivamente em meio às investigações das rachadinhas no Rio.

    Bolsonaro vinha mantendo um embate direto com o Supremo, inclusive fazendo ameaças de ruptura democrática. Mas quando Queiroz foi preso, o presidente submergiu.

    Duas análises sobre o diagnóstico do presidente

    Para tentar entender as implicações do diagnóstico do presidente Jair Bolsonaro nos rumos do combate à pandemia no Brasil, o Nexo ouviu dois profissionais de saúde ligados à pesquisa e gestão.

    • Daniel Dourado é médico, advogado sanitarista e pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Direito Sanitário da USP (Universidade de São Paulo)
    • Fernando Monti é doutor em saúde coletiva, ex-secretário de Saúde de Bauru (SP) e ex-presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo

    Qual o efeito de um presidente que nega a gravidade da pandemia ter sido diagnosticado com covid-19?

    DANIEL DOURADO Muita gente está desconfiada e tem motivo para isso. Lá atrás, em março, quando a comitiva dele adoeceu, ele se recusou a mostrar o exame que tinha dado negativo e só foi mostrar dois meses depois, em meados de maio, obrigado por uma ação. Dois meses depois daqueles exames negativos, agora aparece com esse exame positivo. O primeiro impacto político desse caso são as pessoas desconfiando: será que é mesmo? Por que aquela vez ele escondeu, fez com pseudônimo e agora está dando com o nome dele mesmo? É estranho.

    Vamos dizer que confirmando, aceitando que seja verdadeiro o diagnóstico, aí acho que vai depender muito da evolução. Tem o fenômeno que a gente viu, por exemplo, com o [primeiro-ministro britânico] Boris Johnson, que chegou a ficar na UTI. No começo, estava negando [a gravidade da pandemia]. Aquilo foi uma virada no Reino Unido. Não se pode dizer que foi só aquilo, porque o governo britânico já tinha começado a mudar com os primeiros relatórios do Imperial College em meados de março, mas a internação do Boris Johnson teve um impacto simbólico relevante para a mudança.

    Se a evolução do quadro do Bolsonaro levá-lo a precisar de um tratamento, de fato, pode ser que tenha o impacto de as pessoas perceberem: “Nossa, é mesmo, tem pessoas que ficam graves”. Acontece que isso não é o mais provável. O mais provável é um quadro leve, uma melhora em duas semanas e a recuperação. Fazendo toda essa ressalva, acho que esse caso vai ser usado naquele mesmo tom: “A gente precisa cuidar só dos idosos, das pessoas que têm doença. Quem não tem pode ficar tranquilo, não precisa ter essa preocupação toda”. Isso vai ser usado politicamente.

    FERNANDO MONTI A primeira coisa que essa situação mostra é que todo mundo que faz algum tipo de enfrentamento ao vírus está sujeito a se infectar e adquirir a doença que ele causa. Se as pessoas não tomam as precauções que são recomendadas, estão expostas, e a chance de adquirir a doença acontece com qualquer pessoa. Pode ser o presidente da República, a socialite, o homem mais rico do país ou o mais poderoso do mundo. Brincar com o vírus faz com que ele se transmita. A mensagem é que ninguém está imune. Eu espero que sirva como alerta.

    Nós tivemos uma politização absolutamente lamentável do vírus, da doença e do tratamento no país. É algo até subdesenvolvido. Espero que o presidente tenha uma ótima evolução, que não aconteça com ele o que aconteceu com mais de 60 mil brasileiros que acabaram morrendo disso. Sabemos que a maior parte dos casos vai passar pela infecção e vai sobreviver, vai tocar a vida em frente. Mas isso não quer dizer que seja só uma gripezinha. Tem muita gente que está ficando com sequelas, debilitada após muito tempo de internação, e a recuperação é complicada. É possível que ele [Bolsonaro] seja um caso que vai ter uma evolução leve? Sim. Ele tem um fator de risco que é a idade, e todo mundo sabe que acima dos 60 anos é fator de risco. Não dá para saber como vai ser a evolução. Se for boa, não quer dizer que era uma gripezinha.

    Em boa parte dos casos, a doença é devastadora. E o fato de não ser esse o caso dele não quer dizer que, se for tudo bem para ele, é tudo bem mesmo. O correto neste momento é todo contato dele no Palácio ser submetido a exames para saber se foi contaminado. A questão não é só ele ter o vírus. Ele possivelmente foi um transmissor também.

    Bolsonaro disse que está tomando cloroquina, remédio sem eficácia comprovada contra a covid. O que isso representa para a população?

    DANIEL DOURADO Do ponto de vista do indivíduo, pode não ser um problema tomar. Ele pode até dizer que melhorou por causa disso, como tem bastante gente que toma e melhora, assim como tem paciente que não toma e melhora. A maioria dos pacientes toma só dipirona e melhora e vai dizer que foi isso que melhorou. Mas o problema é que ele vai usar esse discurso para dizer que ajuda, como aliás já tem sido adotado pelo Ministério da Saúde.

    Acho que estão jogando com a compreensão da população. Essa noção de evidência científica não é tão intuitiva. Eu dou o exemplo do cigarro. Todo mundo pode dizer: “Mas meu avô fumou a vida inteira e nunca teve câncer”. O mais provável é que não tenha câncer. Mas quando você joga na população, você vê que aumenta muito o risco. A pessoa pode dizer: “Eu conheço uma pessoa que usou a cloroquina e melhorou”. Ok. Mas se joga isso na escala populacional, milhões de pessoas vão começar a usar, e a gente sabe que a droga tem risco, como toda droga. No caso da cloroquina, tem risco principalmente de arritmia cardíaca, e a gente já tem evidência de que não melhora.

    Lá no começo, em março, quando o Ministério da Saúde começou com essa história, não tinha nenhum ensaio clínico randomizado. A gente tinha estudo observacional, alguns pareciam que melhoravam, outros não, mas isso não é evidência científica. Agora a gente já tem vários estudos mostrando que não tem benefício. Se não tem benefício, não faz sentido jogar o medicamento para o uso da população. Vai ter muita gente que vai ter arritmia cardíaca que não teria só pela doença. No final das contas, pode ser que a gente descubra que vai ter mais gente com sequelas ou sintomas graves ou até morrendo por conta da cloroquina, do que por conta da covid. Não estou dizendo que isso vai acontecer, mas é um risco que não se pode correr em escala populacional.

    Uma coisa é o uso fora de bula, o chamado uso off label da cloroquina. É até compreensível. O médico ali numa situação que não tem o que fazer, vai lá e prescreve, e o paciente aceita. Isso é uma coisa. Outra coisa é o que o governo brasileiro está tentando fazer desde o começo, desde o [ex-ministro da Saúde] Luiz Henrique Mandetta. É bom que se diga que ele comprou esse negócio também lá no início. Soltaram a orientação para o uso da cloroquina [em estágios avançados da doença] sem evidência científica.

    Por que acho que esse discurso é ruim? Porque vai continuar induzindo pessoas a prescreverem o remédio. A maioria dos médicos não é cientista. Isso é uma coisa que a população está se dando conta agora. A grande maioria dos médicos não tem conhecimento científico. A prática médica é ali, na relação com o paciente. Medicina baseada em evidência é uma coisa pra quem está na academia, que está tentando dar orientação. Os médicos, em geral, não têm essa dimensão.

    E tem esse símbolo de o presidente ter tomado. Isso é ruim, e o que é pior: pretendem usar isso para dizer que não precisa fazer o isolamento. Vai colocar mais pessoas vulneráveis em risco. O mais preocupante é isso: é ele [Bolsonaro] adotar esse caso para justificar o discurso: “Olha, tá vendo? Eu estou certo, fiquei bem”. Eles usaram essa estratégia lá atrás. O general Heleno pegou o vírus e ficou bem.

    Eles já estão conseguindo dominar essa narrativa. Estão morrendo mil pessoas por dia no Brasil e isso já está normalizado. Era para ser uma coisa intolerável para uma autoridade pública considerar isso.

    FERNANDO MONTI Ele [Bolsonaro] já vinha fazendo essa propaganda da cloroquina. Não é porque ele pode ter uma evolução satisfatória da doença que a hidroxicloroquina funciona. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Tem um monte de gente que tomou e teve uma clínica leve, como teve um monte de gente que não tomou e também teve uma situação clínica leve. Essa é uma dificuldade de transmitir a informação às pessoas. Se uma determinada medida médica, seja um tratamento, uma vacina, o que for, funciona ou não, você não vai fazer essa análise olhando só um indivíduo. Você tem que fazer com enorme rigor metodológico uma comparação dos indivíduos que usaram com os indivíduos que não usaram.

    Em relação à cloroquina e seus derivados, há vários estudos sendo publicados com nuances diferentes e não há nenhum que tenha tido uma evidência robusta de que seja uma vantagem tomar. Entendo esse medo quase de um marketing feito pelo Bolsonaro desse remédio. Dizer assim: “Eu tive a doença, não foi nada grave, tomei hidroxicloroquina e saí bem���. Bom, tudo bem. Ele pode até falar isso. Vai tornar a cloroquina mais potente? Não.

    Ele pode com isso, simplesmente, multiplicar as duas ilusões com as quais o país lamentavelmente convive e que trará consequências: uma ilusão de que a doença não tem a gravidade que tem e a que nós temos uma medida que é eficaz no combate a doença. É como se tivesse uma medicação salvadora. As duas coisas são ilusões.

    Sobre as consequências para o isolamento, eu tenho uma visão crítica. Acho que estamos fazendo um vaivém de liberar e restringir de novo. Não estamos fazendo nada certo. Já foi em grande medida uma tragédia e vai continuar sendo. É uma questão de ter um diálogo com a sociedade, de a sociedade compreender para poder executar a medida que está sendo proposta e ela ser cumprida direito. Essa disputa toda que tivemos de “está certo”, “está errado”, “é assim”, “não é assim” fez com que a cada momento tivéssemos situações diferentes. Ora fazendo restrições de contatos, ora sendo mais permissivo, deixando correr ao natural.

    E outra coisa grave é que não estamos testando. Seria bacana se o presidente dissesse assim: “A partir de agora eu entendi como é importante testar os contatos que eu tive, então vamos fazer um programa de teste de contatos”. Até porque vários contatos dele vão acabar resultando positivo. Que isso fosse um aprendizado para ele. É uma torcida que eu tenho. Mais do que ele contribuir com equívocos na visão da pandemia, isso poderia ser um aprendizado para ele e uma contribuição para a maneira como estamos tratando isso.

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