O espaço de Antonio Bivar na contracultura brasileira

Autor teatral censurado na ditadura e divulgador do movimento punk, ele morreu em decorrência da covid-19

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    O escritor e dramaturgo Antonio Bivar morreu neste domingo (5), aos 81 anos. Bivar estava internado com covid-19 desde meados de junho e não resistiu.

    Bivar se consagrou como autor teatral nos anos 1970. No início da década seguinte, foi um dos responsáveis por difundir as ideias do movimento punk no país. Era uma voz reconhecida da contracultura nacional.

    No teatro

    Bivar se projetou como dramaturgo em um momento de fechamento do regime militar, culminando com a decretação do AI-5, em 1968. Em paralelo, espalhava-se uma abertura de sentidos, costumes e atitudes políticas, especialmente entre os jovens, expressa no diálogo entre contracultura, psicodelia e movimento estudantil.

    Escritas entre 1967 e 1970, suas primeiras peças foram “O começo é sempre difícil”, “Cordélia Brasil”, “Alzira power” e “Vamos tentar outra vez”. Elas bebiam nesse caldo sociocultural. “Como autor jovem, entusiasta e sem nenhum medo, fui instintivamente ao cerne do espírito da época”, contou Bivar mais tarde sobre seu início, em trecho do livro “O teatro de Antonio Bivar”, de 2010.

    “Antonio Bivar tem a qualidade de ser o detonador de um tipo de teatro contestador dos anos 1960. Criou entidades unissex, personagens distantes do realismo e que possibilitam um jogo fascinante”, afirmou Fernanda Montenegro sobre o autor em uma entrevista de 1991.

    “Cordélia Brasil”, sucesso de público que rendeu a Bivar o Prêmio Governador do Estado de autor do ano, tinha em sua apoteose o suicídio da personagem principal ao som do grito dado pelo vocalista do The Doors, Jim Morrison, em “When the Music’s Over”.

    Bivar fazia parte de uma nova leva de escritores de peças apelidada de “geração de 1969”. Além dele, a safra incluía José Vicente, Leilah Assumpção, Isabel Câmara e Consuelo de Castro. Influenciados pelo teatro do absurdo de Samuel Beckett e Eugène Ionesco, rejeitavam a dramaturgia convencional.

    Em Londres

    No início da década de 1970, com o Brasil vivendo um pesado clima político e tendo peças censuradas, Bivar partiu para Londres. Lá, conviveu com diversas figuras da cultura brasileira que também se encontravam exiladas, incluindo Caetano Veloso e Gilberto Gil.

    “Encontrei Bivar na Inglaterra, na casa do Gilberto Gil, onde ácidos, baseados e Tropicália rolavam soltos entre um grupo variado de artistas hippies, como o Jorge Mautner e a Ruth [Mendes, historiadora e esposa de Mautner], Caetano e Dedé [esposa de Caetano], Rogério Sganzerla [cineasta], Helena Ignez [atriz e cineasta] e Júlio Bressane [cineasta], que me ensinaram a palavra careta”, contou a atriz e escritora Maria Lúcia Dahl na apresentação do livro “O explorador de sensações peregrinas”, biografia sobre Bivar publicada em 2010.

    Em 1972, Bivar retornou ao Brasil. O autor escreveu sobre sua experiência na Inglaterra nesse período no livro “Verdes vales do fim do mundo”, publicado em 1984.

    Movimento punk

    Em 1981, o autor voltou a Londres, e presenciou uma segunda onda do punk no país, que ele chamou de uma fase mais “proletária”, de bandas como Exploited e Crass. A onda original do punk inglês havia sido em 1977, com bandas como Sex Pistols e The Clash.

    Quando Bivar voltou ao Brasil dessa viagem, tomou contato com o movimento punk que florescia no centro de São Paulo. Para Bivar, foi um alívio depois da decepção de reencontrar uma cidade onde ainda predominava “aquele clima ‘bicho grilo’, antigo, passadista”.

    “Me identifiquei na hora, porque também tive uma adolescência dura, de trabalho braçal. Uma adolescência muito mais parecida com a dos punks do que com a da classe média hippie, que morava bem, vinha de boas famílias. (…) Sou amigo dos punks até hoje”, disse Bivar depois em entrevista.

    Foto: Reprodução
    Capa de ‘O que é punk’, de Antonio Bivar, com o rosto de um homem meio em pop art
    Capa de ‘O que é punk’, de Antonio Bivar, publicado em 1982

    Em 1982, publicou “O que é punk”, como parte da coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, em que explica as ideias e acontecimentos por trás do movimento na Inglaterra e no Brasil. O lançamento serviu como texto introdutório ao tema para jovens brasileiros em um tempo de escassa informação no país sobre cultura alternativa em outros lugares.

    Em 27 e 28 de novembro do mesmo ano, Bivar organizou junto com Callegari, então guitarrista da banda Inocentes, o festival O Começo do Fim do Mundo, no Sesc Pompeia, zona oeste de São Paulo. Primeiro festival do gênero na cidade, contou com 20 bandas, incluindo Ratos de Porão, Inocentes, Cólera e Olho Seco. Em paralelo, havia uma exposição em que foram mostrados fanzines, discos e filmes relacionados ao punk.

    Outros trabalhos

    A figura de Bivar nunca coube facilmente em nenhum molde. Passada a aproximação com os punks, Bivar se dedicou a escrever uma peça sobre a história do país, intitulada “Histórias do Brasil”.

    Na década de 1990, participou de um grupo de estudos na Inglaterra sobre uma de suas fascinações, a escritora inglesa Virginia Woolf. O curso era realizado em uma fazenda onde se encontravam membros do Grupo de Bloomsbury, que além de Woolf, reunia intelectuais e artistas britânicos, como o economista John Maynard Keynes.

    Bivar também realizou a direção artística de shows de Rita Lee e Maria Bethânia, na década de 1970, e de Leandro e Leonardo, nos anos 1990.

    “A minha vida é louca. Às vezes me vejo como aquela figura do tarô [o Louco] que traz uma sacolinha nas costas e vê um abismo à frente, mas sempre me salvo. Levo a vida meio assim, na flauta, mas de verdade”, afirmou ao jornal O Globo, em 2015.

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