Não é só desmate: como a ação humana ameaça a Caatinga

Estudo da Universidade de Federal do Rio Grande do Norte identifica os principais riscos em um dos biomas mais degradados e desprotegidos do Brasil

O desmatamento é uma das ações humanas mais visíveis e imediatas em um ecossistema, mas há outras intervenções danosas com efeitos que costumam aparecer a médio e longo prazos. Um estudo da UFRN (Universidade de Federal do Rio Grande do Norte), publicado segunda-feira (6) na revista acadêmica Journal of Applied Ecology, estudou os impactos do segundo grupo na degradação da Caatinga brasileira.

Alguns exemplos desse tipo de intervenção são o desenvolvimento de infraestrutura, a construção de estradas e o uso de recursos naturais por populações locais. São atividades humanas que causam alterações pequenas mas contínuas na estrutura, composição e funcionamento de biomas.

As regiões próximas a essas interferências reverberam os efeitos da ocupação por longos períodos. Por não terem efeito visível imediato, no entanto, as perturbações costumam ser negligenciadas, segundo os cientistas. A pesquisa vem para quantificar as áreas da Caatinga com maior potencial de impacto.

Como a Caatinga está ameaçada

Considerado o único bioma exclusivamente brasileiro, a Caatinga recobre cerca de 11% do território brasileiro. Sua área abrange o norte de Minas Gerais e a maior parte dos nove estados do Nordeste. É a região semiárida mais populosa do mundo. Segundo dados de 2010 do Ministério do Meio Ambiente, sobraram apenas 54,6% da cobertura vegetal remanescente do bioma original.

O ministério identificou mais de 47 mil áreas de vegetação do que sobrou da cobertura vegetal original. Para o estudo, os cientistas coletaram dados de cada um desses fragmentos nos bancos do governo e identificaram os critérios de perturbação mais comuns. São eles:

  • população humana: entram aqui, por exemplo, a densidade populacional e distância da mata de regiões urbanas e outros assentamentos
  • infraestrutura: rodovias, turbinas de vento, ferrovias e linhas de transmissão de energia
  • pastoreio: densidade de gado e outros animais
  • exploração madeireira: proximidade de indústrias a base de carvão
  • incêndios: frequência do fogo

A infraestrutura se mostrou o tipo de ação humana com maior probabilidade de impactar a mata. Segundo a pesquisa, a abertura de estradas permite o acesso a áreas antes remotas. Em trechos onde há uma menor densidade delas, como no oeste do Piauí e da Bahia, ainda encontram-se grandes áreas do bioma intactas.

Os efeitos da população humana vem em seguida, e ameaçam principalmente áreas próximas ao litoral, onde estão alguns dos maiores municípios localizados em regiões de Caatinga. É o caso de Fortaleza, capital do Ceará.

Para cada critério, as 47 mil áreas de vegetação receberam um índice de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maiores as chances de um pedaço da mata ser afetado pela ação humana. Com isso, fez-se a média dos cinco critérios, e cada fragmento recebeu um índice final.

Mapa da área respectiva à Caatinga, com cores que vão de verde a vermelho indicando áreas de menor a maior potencial de serem afetadas por perturbações

Esses índices variaram de 0,09 a 0,94, com uma maior proporção de fragmentos menos ameaçados no oeste e no sul da Caatinga, nos estados da Bahia e Piauí. O índice médio dos 47 mil fragmentos foi 0,45, ou seja, as perturbações impõem uma ameaça substancial ao território da Caatinga.

Maior vulnerabilidade

Além de diminuir a área natural, o avanço das atividades humanas torna os espaços preservados mais vulneráveis. Imagine um quadrado coberto por vegetação. Se uma ferrovia o corta ao meio, além de ela ocupar uma faixa da mata, ela cria o que pesquisadores chamam de novas bordas. Se antes a degradação avançava pelas quatro arestas do quadrado, agora há duas novas frentes internas – que envolvem a ferrovia – por onde ela pode avançar.

De acordo com os cientistas, ainda não há estudos empíricos sobre o efeito das bordas na degradação da Caatinga. Mas a pesquisa identificou, com base nos dados do governo, que 75% da vegetação da Caatinga está a um quilômetro de alguma “borda”. Quanto mais perto desses limites, maiores os efeitos da ação humana.

“Na Caatinga, há inúmeras pequenas estradas que cortam os fragmentos e que não foram mapeadas por nós. Acreditamos que, se essas estradas tivessem sido contempladas neste estudo, novas bordas iriam aparecer”, disse ao Nexo Marina Antongiovanni da Fonseca, uma das pesquisadoras que assinam o estudo.

Os incêndios se mostraram o elemento humano de menor potencial de impacto, segundo o estudo. Houve presença expressiva apenas em trechos do Ceará e Tocantins. Segundo Fonseca, o fogo é uma ameaça, especialmente porque a queima de vegetação é usada pela população local para fins agropecuários e de extração de lenha. No entanto, a pesquisa mostrou que seu impacto é mais contido do que outros tipos de ação humana.

Os desafios para a conservação

Com um mapa mais preciso de quais atividades humanas afetam quais regiões da Caatinga, os pesquisadores afirmam que o governo pode promover iniciativas de gestão, monitoramento e conservação mais direcionadas. Será possível também determinar quais trechos estão em maior risco e precisam de ações imediatas, como a criação de unidades de proteção.

1,75%

da área da Caatinga está dentro de uma Unidade de Proteção Integral, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente de 2011

Essas medidas muitas vezes esbarram na dificuldade de gerenciar mais de 100 cidades, vilas e assentamentos localizadas no bioma. Na região vivem 27,6 milhões de pessoas, que em muitos casos dependem inteiramente de recursos naturais para sobrevivência. A principal forma de energia da região, por exemplo, vem do carvão e lenha. Segundo o estudo, cerca de 30% deles são extraídos de madeira da Caatinga.

A vegetação também é derrubada para criação de rebanhos. Em outras áreas do Brasil, os animais são separados por cercas, mas na Caatinga, o gado geralmente vive solto, alimentando-se de plantas nativas do bioma. Há também o consumo expressivo, embora ilegal, de animais silvestres, facilitado pelo acesso fácil a territórios selvagens.

A diversidade da Caatinga

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a Caatinga reúne 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 de anfíbios, 241 de peixes e 221 de abelhas. É original do bioma, por exemplo, a ararinha-azul, ave extinta na natureza. Há hoje menos de 200 exemplares em cativeiro, que o governo planeja soltar no habitat natural até 2021. Outros animais também em risco são a onça-parda e o sapo-cururu.

Já a flora da Caatinga vai muito além dos cactos. São cerca de 4.479 espécies vegetais, muitas delas endêmicas como a faveleira, cujo óleo é usado para produção de biocombustíveis, extratos medicinais e recuperação de áreas degradadas. Entre os cactos, há o famoso mandacaru, que abre um dos xotes mais famosos de Luiz Gonzaga: o “Xote das meninas”. São espécies que chegam a seis metros de altura, com grande capacidade de retenção de água. Sua fama se dá principalmente pelas suas flores brancas, que desabrocham à noite e murcham ao nascer do sol.

A fauna e flora da Caatinga são adaptadas à seca, mas a degradação leva muitas áreas a um processo irreversível de desertificação. Quando chega a esse ponto, é inviável economicamente recuperar a vegetação. Nem as áreas dentro de unidades de proteção são poupadas. O Atlas das Caatingas, produzido pela Fundação Joaquim Nabuco, mostrou que 19% delas sofreram algum processo de degradação ambiental entre 2000 e 2017.

O bioma também abriga alguns parques nacionais de alta variedade ecológica e potencial turístico. É o caso da Chapada Diamantina (BA), com seu complexo de bacias que dá origem a rios e cachoeiras da região, e da Serra da Capivara (PI), famosa por suas pinturas rupestres em uma área considerada a maior e mais antiga concentração de sítios pré-históricos da América.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que a pesquisa havia sido publicada na revista Journal of Applied Economy. Na verdade, a correta é Journal of Applied Ecology. A mudança foi feita às 18h11 do dia 7 de julho de 2020.

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