Como Hamilton dá impulso a protestos antirracistas na F-1

Seis vezes campeão, único piloto negro da categoria encabeça manifestação em GP da Áustria, mas sem adesão total dos colegas

    Um protesto contra o racismo marcou o Grande Prêmio da Áustria de 2020, primeira etapa da temporada de Fórmula 1 realizada no domingo (5). Comandados por Lewis Hamilton – único atleta negro da categoria –, pilotos se ajoelharam durante a execução do hino nacional do país europeu e usaram camisetas contra o preconceito.

    Hamilton vestia uma camiseta com a afirmação “Black Lives Matter” (Vidas negras importam), nome do movimento originado nos EUA em 2013 contra a violência policial contra negros. Um movimento que ganhou novo destaque com o assassinato de George Floyd, um homem negro, por policiais brancos em 25 de maio de 2020.

    Nem todos os atletas aderiram ao gesto de se ajoelhar no hino. Seis dos 20 pilotos permaneceram em pé: Max Verstappen, Antonio Giovinazzi, Carlos Sainz, Charles Leclerc, Kimi Raikkonen e Daniil Kvyat. Alguns deles justificaram nas redes sociais a escolha de não ajoelhar.

    “Acredito que o que importa são fatos e comportamentos em nossa vida cotidiana, e não gestos formais que poderiam ser vistos como controversos em alguns países. Não vou ficar de joelhos, mas isso não significa que estou menos comprometido do que outros na luta contra o racismo”, escreveu Leclerc em seu perfil no Twitter.

    Segundo a associação dos pilotos da Fórmula 1, conhecida pela sigla GPDA (Grand Prix Drivers' Association), seus membros realizaram várias reuniões virtuais para discutir qual seria a melhor forma de expressar apoio coletivamente à causa. Os pilotos se declararam unidos contra o racismo e ficou decidido que cada indivíduo teria “a liberdade de expressar seu apoio pelo fim do racismo da sua própria maneira” no domingo, ficando “livre para escolher como fazê-lo”.

    Inspiração do futebol americano

    O protesto dos pilotos da Fórmula 1 ecoa uma manifestação iniciada em 2016 pelo jogador de futebol americano Colin Kaepernick. Atleta negro que costumava ocupar a posição de quarterback no time San Francisco 49ers, Kaepernick se sentou no gramado em 26 de agosto de 2016 durante a execução do hino dos Estados Unidos, em um protesto contra o racismo.

    Em partidas posteriores, passou a se ajoelhar, gesto reproduzido por diversos jogadores, atraindo atenção da mídia e aquecendo o debate no país sobre racismo, patriotismo e protestos no esporte.

    “Eu não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas não brancas em geral. Para mim, isso é mais importante que futebol e seria egoísta da minha parte fazer vista grossa. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos”

    Colin Kaepernick

    jogador de futebol americano em entrevista à NFL Media, após uma partida em 2016

    O quarterback sofreu represálias por seu protesto: passou a ser boicotado por dirigentes de times, o que o tem mantido afastado da NFL (National Football League, maior liga de futebol americano) desde o início de 2017.

    A participação de negros da Fórmula 1

    Ao contrário da NFL, em que atletas negros são maioria, o automobilismo é dominado por pilotos brancos. Essa falta de diversidade costuma ser atribuída ao elitismo do esporte. Formar pilotos exige o acesso a uma estrutura pouco acessível, a dos kartódromos. As famílias dos pilotos iniciantes que em geral bancam sua participação em campeonatos, a um custo de centenas de milhares de reais por ano.

    Assistir a uma corrida no autódromo tampouco sai barato: em 2019, ingressos para o GP do Brasil, disputado anualmente no Autódromo de Interlagos, iam de R$ 610 a R$ 3.100 para os três dias de evento. Nos setores VIP, os valores foram de R$ 4.900 até R$ 16.600.

    O papel de Hamilton no debate racial

    Nascido em 1985 em Stevenage, na Inglaterra, Hamilton ingressou na Fórmula 1 em 2007 e é oficialmente o primeiro e, até o momento, único piloto negro a disputar corridas na categoria. Com seis títulos, é também o segundo maior campeão da história da categoria, que foi criada em 1950 pela Federação Internacional de Automobilismo e é a principal do automobilismo mundial.

    Antes de Hamilton, o americano Willy Theodore Ribbs Jr. foi o primeiro negro a pilotar na categoria em um teste realizado no circuito de Estoril, em Portugal, pela equipe Brabham, em 1986. O piloto, que competiu em outras categorias do automobilismo, foi um dos avaliados para defender a equipe no ano seguinte, mas acabou não sendo contratado.

    Em um texto publicado em seu site, Hamilton afirma que, no início da carreira, tentou ignorar o fato de ser o primeiro piloto negro da Fórmula 1. Com o tempo, passou a valorizar o feito de ter ultrapassado essa barreira, abrindo caminho para outros.

    Após o assassinato de George Floyd nos EUA, Hamilton cobrou um posicionamento antirracista da Fórmula 1 e de seus colegas de pista. Também participou pessoalmente de protestos de rua do movimento Black Lives Matter em Londres e foi nomeado líder da força-tarefa “We Race as One” (Corremos como um só, em tradução livre), criada pela F1 para promover a diversidade no esporte.

    “É muito importante aproveitarmos esse momento e o utilizarmos para educar a nós mesmos, indivíduos, marcas ou empresas, para fazer mudanças realmente significativas e garantir a igualdade e a inclusão. Vivenciei pessoalmente o racismo em minha vida e vi minha família e amigos o vivenciarem, e falo de coração quando faço um apelo à mudança”

    Lewis Hamilton

    piloto e hexacampeão da Fórmula 1

    Hamilton já vinha se posicionando em anos recentes em relação à falta de diversidade racial em seu esporte, não só entre os pilotos como também em outras funções. O piloto já criticou várias vezes a falta de avanços das equipes nesse aspecto.

    A Mercedes, equipe que Hamilton integra atualmente, se comprometeu a ampliar a diversidade em sua força de trabalho, além de adotar em 2020 uma pintura preta em seus carros de corrida com a frase “fim ao racismo”.

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