A nova orientação do governo para quem tem sintomas de covid-19

Secretaria do Ministério da Saúde produz vídeo em que recomenda busca por serviços de saúde logo nos primeiros sinais. E mostra caixas de cloroquina, remédio sem eficácia comprovada contra o coronavírus

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    O governo Jair Bolsonaro opera uma mudança na orientação sobre o atendimento a pacientes que apresentam os primeiros sintomas da covid-19. Desde o início da pandemia do novo coronavírus, decretada em março pela OMS (Organização Mundial da Saúde), o Ministério da Saúde vinha dizendo para que as pessoas ficassem em casa e só procurassem um médico se tivessem falta de ar. Agora, fala em buscar assistência já nos primeiros sinais, como febre e tosse.

    A mudança coincide com a ampliação do uso da cloroquina para casos leves de covid-19. Por pressão de Bolsonaro, o Ministério da Saúde redefiniu no final de maio o protocolo sobre o medicamento, antes recomendado só para casos graves. Desde a permissão para uso em casos leves, o governo brasileiro recebeu doações desse medicamento dos EUA e também investiu em sua produção.

    Na terça-feira (6), Bolsonaro disse estar com covid-19. Com sintomas leves, ele anunciou estar tomando cloroquina. O presidente defende o uso do medicamento abertamente desde o início da pandemia, mesmo que não haja qualquer comprovação científica de que ele tenha efeitos no combate à doença.

    Os sinais de mudança para sintomáticos

    No início de junho, o empresário Carlos Wizard, então cotado para o cargo de secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde, disse que o governo defenderia a mudança da orientação, com tratamento hospitalar precoce.

    “O antigo ministro [Luiz Henrique Mandetta] dava orientação para ficar em casa. Acontecia que a pessoa ficava em casa, não recebia tratamento, passava para a fase 2, a fase 3, quase morrendo buscava atendimento médico, era entubada, ia para UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. É lamentável que tenhamos perdido milhares de vida por esse protocolo”, afirmou à agência Reuters, em junho. Wizard acabaria não assumindo o cargo, mas a ideia de mudar a orientação continuou.

    O vídeo de uma secretaria do ministério

    Já no fim de junho, a Secretaria de Gestão e Trabalho da Educação na Saúde publicou um vídeo em sua conta no YouTube em que diz que o ministério elaborou uma orientação para que as pessoas “com sinais e sintomas de covid-19 possam procurar uma unidade de saúde mais próxima logo no início da doença”. A peça mostra caixas de cloroquina e diz que os pacientes poderão ter a opção de “receber medicamentos”.

    O secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Correia de Medeiros, afirmou ao jornal Valor Econômico que o governo federal não quer que “o paciente caminhe para uma síndrome respiratória aguda grave, porque lá é que pode complicar”. “A ideia é que o paciente, ao sentir os primeiros sintomas, possa tanto ser testado como ser tratado”, disse. O vídeo, até dia 7 de julho, ainda não foi divulgado no canal principal do Ministério da Saúde, segundo o jornal, por ainda aguardar aprovação da cúpula da pasta.

    A recomendação para ficar em casa

    A cartilha do Ministério da Saúde sobre o novo coronavírus divulgada ainda durante a gestão de Luiz Henrique Mandetta recomendava que só se procurasse “um hospital de referência se estiver com falta de ar”. “Se você está com sintomas de gripe, fique em casa por 14 dias e siga as orientações do Ministério da Saúde para o isolamento domiciliar”, dizia o documento.

    A orientação tinha como justificativa evitar que o sistema de saúde — especialmente o público, responsável por atender três quartos da população brasileira — ficasse sobrecarregado. Também visava reduzir os riscos de contaminação pelo coronavírus dentro dos próprios hospitais ou postos de saúde. Doentes leves poderiam transmitir a doença enquanto aguardassem atendimento em filas ou salas de espera lotadas.

    Os cientistas já sabem que cerca de 80% das pessoas com covid-19 manifestam sintomas leves e acabam se curando em casa. Outros 15% precisam de atendimento ambulatorial e apenas 5% podem necessitar de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).

    A estrutura para um atendimento precoce

    Professora do departamento de epidemiologia da UFF (Universidade Federal Fluminense) e dirigente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), Regina Flauzino disse ao Nexo que a busca por atendimento em ambulatórios com sintomas leves de covid-19, como coriza, diarreia, tosse e febre pode exigir das unidades melhores condições de atendimento com ambientes arejados e circulação de ar.

    “Nem sei se tem gente suficiente para o atendimento desses casos. Vai depender muito da estrutura de cada município e de cada estado para essa proposta do ministério. De alguma forma, ela vai contra o que foi preconizado antes”, afirmou.

    Qual a justificativa do governo

    O argumento principal do governo federal ao incentivar a procura dos serviços de saúde logo nos primeiros sintomas é aliviar a ocupação das UTIs. Em 29 de junho, 13 das 27 capitais brasileiras tinham mais de 80% dos leitos ocupados.

    Para evitar que os casos se agravem, o atendimento preventivo proposto pelo Ministério da Saúde prevê o uso da cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina. A maioria das pesquisas, porém, mostra que o remédio usado há décadas para tratar doentes com malária e artrite reumatóide não funciona no combate à covid-19. Ele ainda pode causar graves efeitos colaterais, como arritmias cardíacas.

    No início de julho, a OMS (Organização Mundial de Saúde) retirou de forma definitiva a hidroxicloroquina de seus testes científicos. Segundo a entidade, o uso do medicamento não resultou em “nenhuma redução na mortalidade de pacientes internados com covid-19 quando comparados ao padrão de atendimento”.

    No Brasil, já foram produzidos na pandemia 1,8 milhão de comprimidos de hidroxicloroquina pelo laboratório do Exército. O volume representa cerca de 18 vezes a produção anual do remédio. O país também recebeu dos Estados Unidos uma doação de 2 milhões de doses.

    A quem cabe receitar a cloroquina

    Cabem aos médicos decidir sobre a aplicação do medicamento, com o consentimento do paciente. Em entrevista do Nexo na sexta-feira (3), o presidente do Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde), Carlos Lula, afirmou que os estados colocaram a cloroquina à disposição dos hospitais, mas seu uso tem sido cada vez menor por causa da falta de evidências científicas de que a substância funcione.

    Para a epidemiologista Regina Flauzino, a justificativa do ministério de evitar que as pessoas cheguem já em quadro grave às UTIs faz sentido, mas não é uma situação que se aplica a todos. “Tem algumas pessoas que rapidamente vão de um quadro leve para um quadro mais grave. Mas eu diria que isso não é o rotineiro. Estão em cima de uma coisa que não é tão frequente de acontecer, mas que acontece. Não se justifica usar essa recomendação”, disse.

    A busca por uma solução eficaz

    Em vez de pedir aos pacientes que tiverem os primeiros sintomas que corram para as filas dos hospitais, alguns governos estão reorganizando a atenção básica à saúde. A medida evita tanto a sobrecarga do sistema de saúde quanto o aumento de mortes em UTIs.

    Em São Caetano do Sul, por exemplo, foi criado um 0800 em que as pessoas são orientadas por telefone sobre o que fazer. Elas recebem em casa kits de autocoleta de secreção da garganta e nariz para os exames de covid-19. No caso de resultados positivos, os pacientes são monitorados a distância.

    Na cidade, equipes de saúde também vão às casas das pessoas para avaliá-las e medir o nível de oxigênio no sangue. Só depois disso elas são ou não encaminhados à internação. Cidades que reorganizaram seus serviços de saúde, como São Caetano, Florianópolis e Teresina, conseguiram reduzir as taxas de letalidade e de ocupação das UTIs.

    Segundo Regina Flauzino, que também compõe o Comitê Científico de Niterói, modelos como esses são “o sonho de consumo” das cidades. “É isso o que a gente tem que fazer. A gente chama isso de busca ativa, de fazer a vigilância, de acompanhar o paciente. Até pode ser pelo teleatendimento, mas você já viu o paciente, já orientou, e vai acompanhando a evolução dele. Isso é traçar uma linha de cuidado, um itinerário terapêutico que está dentro da proposta da Estratégia de Saúde da Família. É tudo o que a gente acha que tinha que ter”, disse.

    Segundo ela, a proposta não é adotada nacionalmente porque o ministério “está desestruturado” e o SUS vem “sendo desmontado” há algum tempo. “Esse modelo de conhecer o território, as famílias, o paciente, a história dele e acompanhá-lo, é uma proposta antiga. Os municípios ganhavam um valor X para ter toda a população acompanhada por profissionais dessa linha de atenção à saúde. E aí, com o tempo, como o dinheiro teria que ser muito voltado para isso, nem todos os prefeitos e secretários concordavam”, afirmou.

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