A infiltração de neonazistas no Exército alemão

Governo desmantela grupo de extremistas em unidade de elite e abre investigação extensiva para depurar suas forças

    A ministra da Defesa da Alemanha, Annegret Kramp-Karrenbauer, anunciou na quarta-feira (1º) a dissolução de uma das quatro companhias que formam o Comando de Forças Especiais do Exército Alemão, conhecido pela sigla KSK.

    A decisão foi tomada após a descoberta de que membros dessa companhia, formada por aproximadamente 350 homens, estavam envolvidos com o culto a símbolos nazistas, e tinham desviado 37 mil munições e 62 kg de explosivos do Exército.

    “O muro do silêncio está sendo derrubado”, disse a ministra, conhecida pela iniciais de seu nome, AKK, ao anunciar a medida. Além da dissolução da companhia em particular, toda unidade de elite, formada por 1.400 homens, foi temporariamente suspensa de missões internacionais e pode vir a ser extinta.

    Os rumores de que parte do Exército e da polícia alemã sofrem infiltrações de neonazistas são persistentes, mas sempre foram tratados como casos pequenos e isolados. Agora, os casos “se multiplicaram e se tornaram graves demais para serem ignorados”, disse o jornal americano The New York Times ao noticiar a intervenção do governo nas KSK.

    Essa unidade especial foi criada em 1996, dois anos após a Alemanha ter se apoiado nos serviços de uma unidade de forças especiais da Bélgica para socorrer um grupo de trabalhadores da agência pública de notícias Deutsch Welle, alemã, que tinham sido sequestrados em Ruanda.

    Músicas, revistas e armas

    As primeiras suspeitas de que a Segunda Companhia das KSK estavam infestadas de neonazistas vieram a público ainda em 2017, a partir de reportagens publicadas pela imprensa alemã.

    À época, foram publicadas informações de que militares do núcleo participavam de festas embaladas a rock com letras supremacistas, nas quais os participantes se saudavam estendendo a mão espalmada, no famoso gesto hitleriano.

    Em maio de 2020, a polícia cumpriu um mandado de busca na casa de um sargento das KSK, onde foram encontradas armas, munições e objetos neonazistas, como revistas e livros, enterrados no quintal.

    O comando do Estado Maior das Forças Armadas da Alemanha apresentou um relatório de 55 páginas à Comissão de Defesa do Bundestag, o Parlamento alemão, no qual reconhece que esse não é um problema recente ou conjuntural.

    “Parece que uma cultura e um terreno fértil ao desenvolvimento de tendências extremistas se desenvolveu no seio da unidade. Para que isso cesse, as estruturas extensivamente comprometidas devem ser quebradas”, diz um dos trechos do relatório.

    Penetração extensiva

    Após a descoberta do núcleo neonazista das KSK, foi dado início a um trabalho de contra-inteligência que investigará filiações extremistas e desvios de armas no conjunto das forças alemães.

    Um novo relatório deverá ser apresentado em outubro, quando então será decidido o futuro de toda a unidade de forças especiais. O governo espera que os próprios comandantes sejam capazes de identificar e responsabilizar os neonazistas. Do contrário, as KSK serão extintas.

    “Quando começaram a procurar de verdade, encontraram muitos casos. Quando você descobre centenas de casos individuais, isso dá a entender que há um problema estrutural. É extremamente preocupante”

    Konstantin von Notz

    vice-presidente da Comissão de Supervisão de Inteligência do Parlamento alemão, em entrevista à imprensa

    A Alemanha vem testemunhando um aumento nos episódios de violência ligada a grupos de extrema direita. Em junho de 2019, o prefeito da cidade de Cassel, Walter Lübcke, foi assassinado por membros de um grupo neonazista.

    Em outubro de 2019, uma sinagoga na cidade de Halle foi atacada e, em fevereiro de 2020, um homem armado passou atirando contra um bar frequentado pela comunidade estrangeira muçulmana em Hanau.

    O aumento dos casos ocorre no momento em que o partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha), cujos membros mantêm uma relação ambígua em relação ao nazismo, cresce na preferência do eleitorado.

    Em setembro de 2017, a AfD se tornou o primeiro partido de extrema direita a eleger parlamentares no Bundestag, o Parlamento nacional, desde o fim da Segunda Guerra, em 1945. A legenda tem hoje a terceira maior bancada do Parlamento.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: