Como a explosão da cloroquina criou um mercado ilegal na África

Promoção de produto sem eficácia comprovada alimenta uma rede internacional de ilegalidades durante a pandemia

    A Interpol deflagrou no mês de março uma operação batizada de Pangea para desbaratar grupos organizados internacionais que falsificam e contrabandeiam equipamentos médicos e remédios ligados à covid-19.

    A operação resultou em 121 prisões, além da apreensão do equivalente a US$ 14 milhões em 4,4 milhões de unidades de produtos adulterados. Mais de 2,5 mil websites fraudulentos foram fechados por fazer anúncios de produtos falsos e 37 grupos criminosos organizados foram desbaratados.

    Ainda assim, a Interpol advertiu que todo esse montante corresponde apenas à “ponta do iceberg” de um esquema internacional que é muito mais vasto do que os números da Operação Pangea demonstram.

    Cloroquina na África

    Quatro meses depois da deflagração da operação, o Ifri (Instituto Francês de Relações Internacionais) se debruçou sobre os achados da Interpol especificamente no continente africano. O centro de estudos, baseado em Paris, detectou um aumento expressivo na circulação legal e ilegal de medicamentos à base de cloroquina, sobretudo no países do oeste do continente.

    A Interpol disse que a apreensão mundial de lotes contrabandeados ou adulterados do produto foi 100% maior este ano na comparação com as apreensões feitas em 2018, na última versão dessa mesma operação de repressão ao tráfico de medicamentos em geral.

    A cloroquina é uma substância usada normalmente para o combate à malária e em casos de doenças auto-imunes, mas, com a eclosão da pandemia, passou a ser propagandeada como um medicamento potencialmente eficaz contra o vírus da covid-19.

    O mais célebre dos entusiastas do uso da cloroquina contra a covid-19 é o médico francês Didier Raoult. Um vídeo produzido por ele no dia 25 de fevereiro fez sucesso especialmente entre os países francófonos do Oeste Africano.

    De acordo com o Ifri, “a circulação do vídeo do professor Raoult teve como consequência um aumento da demanda local” de cloroquina nesses países.

    Os estudos a respeito da eficácia da cloroquina contra a covid-19 não são conclusivos e o consenso médico internacional não recomenda seu uso no tratamento da doença. Apesar disso, presidentes como o americano Donald Trump e o brasileiro Jair Bolsonaro usaram a visibilidade e prestígio político de seus cargos para incentivar médicos a receitarem-na e houve esforços para produzir a substância em larga escala. Ao mesmo tempo, esses líderes negligenciaram medidas internas de contenção do surto, como o distanciamento social e o uso de máscaras.

    O apoio entusiasmado dos presidentes e de médicos como Didier Raoult à cloroquina inflacionou a produção e a comercialização do produto em diversos países. Aos poucos, porém, autoridades americanas acabaram baixando o perfil do remédio nos EUA, enquanto o governo do Brasil manteve a aposta no medicamento e derrubou dois ministros da Saúde por, entre outros motivos, resistirem a serem seus fiadores no país.

    O laboratório do Exército Brasileiro já gastou mais de R$ 1,5 milhão na produção de cloroquina, o que representa um aumento de seis vezes em um ano. O TCU (Tribunal de Contas da União) está questionando o governo Bolsonaro sobre os critérios e custos dessa produção.

    Alerta da OMS

    Enquanto o debate político e científico a respeito da eficácia da cloroquina mobilizava grande parte da academia e da imprensa nos países europeus e nos EUA, a OMS (Organização Mundial da Saúde) emitia, no dia 9 de abril, um alerta sobre a venda de “cloroquina falsificada” em Camarões, Mali, República Democrática do Congo e Níger.

    Até os anos 1980, a cloroquina foi largamente prescrita na África para casos de paludismo, uma doença infecciosa causada por um parasita transmitido por mosquitos. Contudo, focos de resistência ao produto fizeram com que a OMS recomendasse a troca da cloroquina por medicamentos à base de artemísia.

    Assim, diversos países africanos suspenderam o uso ou impuseram restrições à circulação da cloroquina, exigindo a apresentação de receita médica para a compra, por exemplo.

    A pandemia da covid-19 fez explodir a circulação do produto na região. Isso ocorreu tanto com a venda indiscriminada de cloroquina produzida por grandes laboratórios quanto com a circulação de produtos feitos de maneira improvisada, adulterada e fora do controle das autoridades sanitárias locais.

    “Remédios falsos contém muitas vezes quantidades erradas do princípio ativo – às vezes demais, às vezes de menos, às vezes nada. Em outros casos, os remédios podem ser originais, mas podem ter sido roubados e, em seguida, mal acondicionados, ou podem ainda ter a validade expirada, o que, em todo caso, torna-os inefetivo ou contaminado”, disse a Interpol a respeito das apreensões.

    Em alguns casos, as caixas com os remédios sequer trazem o nome do fabricante. Em outras, trazem sobretudo o nome de laboratórios indianos. O Ifri nota que a Índia produz 70% da cloroquina comercializada no mundo, mas não há como garantir que as inscrições nas caixas sejam verdadeiras.

    O Instituto diz que o trânsito da cloroquina que chega da Índia à África se dá por via marítima. Em seguida, “para circular o produto nas sub-regiões, os traficantes inserem os carregamentos no fluxo das mercadorias legais, dissimulando as cargas ou simplesmente corrompendo as autoridades aduaneiras. Em outros casos, eles simplesmente utilizam rotas secundárias que não passam por controle”.

    O negócio alimenta uma vasta rede de pessoas que lucram com essa atividade, segundo o Ifri – como “quadros da indústria farmacêutica, gerentes de pequenas empresas, atacadistas legais e ilegais, transportadores, pequenos revendedores etc”.

    100 mil

    mortes são causadas por ano pelo consumo de medicamentos falsos na África, segundo a OMS

    Em março, as autoridades de Camarões descobriram e fecharam uma fábrica clandestina de cloroquina. Em Burkina Faso, a única indústria nacional que produzia o medicamento retomou suas atividades durante a pandemia, depois de ter paralisado completamente a produção em 1994.

    Mesmo quando a cloroquina tem procedência legal, a oferta se dá muitas vezes em embalagens inapropriadas ou em carregamentos mantidos sem as devidas condições de higiene, o que leva a adulterações perigosas na qualidade do produto.

    “Se há algo que essa pandemia nos mostrou – assim como a comoção que ela provoca – é o tamanho do risco ligado aos medicamentos falsificados ou de qualidade inferior, o que se converteu numa oportunidade para o disfuncionamento do mercado de remédios na África Ocidental, com uma marcada dependência do mercado asiático e com tentativas de produção local”, conclui o documento do Ifri.

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