Quais são as novas metrópoles brasileiras, segundo o IBGE

Pesquisa indica que o país passou a ter três novos centros urbanos principais no período entre 2008 a 2018

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil ganhou três novas metrópoles entre 2008 e 2018: Campinas (SP), Florianópolis (SC) e Vitória (ES). Isso indica que estão entre os principais centros urbanos do país, aqueles com os maiores números de empresas e órgãos públicos e que atraem população de muitas outras cidades em busca de seus bens e serviços.

Elas passaram a integrar um grupo que, agora, tem 15 cidades. São Paulo, a maior delas, possui o status de grande metrópole nacional, enquanto Rio de Janeiro e Brasília compartilham o posto de metrópoles nacionais. As demais metrópoles são Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Salvador e Manaus.

A mudança de status das três cidades foi verificada pela edição mais recente da pesquisa Regic (Regiões de Influência das Cidades), divulgada em 25 de junho de 2020 pelo IBGE. Realizada a cada dez anos, ela tem por objetivo identificar e analisar o funcionamento da rede urbana brasileira, determinando a hierarquia existente entre os centros urbanos e as regiões de influência das cidades.

Para o IBGE, as metrópoles ocupam o topo dessa rede. Não estão subordinadas a nenhuma outra cidade e, em conjunto, cobrem todo o país com suas regiões de influência.

A definição de metrópole da Regic difere do conceito de região metropolitana. As regiões metropolitanas são instituídas por leis estaduais para fins de planejamento e são compostas por municípios limítrofes.

Já a Regic trabalha com a ideia de “arranjo populacional”, uma agregação de municípios que possuem forte integração em função da contiguidade das áreas urbanizadas ou dos deslocamentos frequentes entre essas áreas para trabalho e estudo. Embora haja correlações entre ambas, uma não necessariamente corresponde à outra.

O que a pesquisa avalia

Para estabelecer a classificação dos centros urbanos nos diferentes níveis da rede urbana, a Regic leva em conta o comportamento hierárquico entre as cidades e delimita suas regiões de influência.

Ao Nexo, o geógrafo e supervisor da Gerência de Redes e Fluxos do IBGE Thiago Arantes explicou que isso é feito a partir de dois critérios principais: os deslocamentos realizados por habitantes de cidades menores para cidades maiores em busca de bens e serviços e os fluxos de gestão entre cidades.

Esse segundo ponto diz respeito à presença de empresas que atuam em rede, com sede em uma cidade e filiais em outras, e de órgãos públicos relacionados – por exemplo, agências do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) ficam em cidades menores, enquanto as superintendências do órgão estão instaladas em cidades de maior porte de determinada região.

As cidades que estão em níveis mais elevados dessa cadeia comandam os fluxos dos centros urbanos que estão abaixo. “Isso é medido a partir do índice de gestão do território, a quantidade de articulação, de fluxo de gestão que existe naquela cidade, somado à atração populacional exercida por ela, captada pelos questionários que foram aplicados nos municípios brasileiros”, afirmou Arantes.

Foto: Reprodução/IBGE
Mapa do Brasil com formas geométricas representando centros urbanos e linhas coloridas mostrando suas regiões de influência
Na rede urbana brasileira, as formas indicam a hierarquia entre os centros urbanos e as linhas mostram as irradiações de suas redes de influência

A classificação hierárquica das cidades também leva em conta instituições financeiras, ensino superior, saúde, informação, cultura e esporte, transporte, atividades agropecuárias e ligações internacionais.

Na designação das metrópoles do estudo, também entra o tamanho da população. Segundo o geógrafo do IBGE, a formação das novas metrópoles é um reflexo da densificação da atividade econômica e de uma melhora na articulação territorial das cidades, o que as torna mais atrativas e faz com que se “desprendam” de suas antigas subordinações em relação a outros centros.

A pesquisa também calcula o deslocamento médio percorrido pela população para acessar bens e serviços em outras cidades. A média de deslocamento para os brasileiros que frequentam o ensino superior fora de seus municípios de origem, por exemplo, foi de 92 km, segundo a Regic 2018. Já para acessar serviços de saúde de alta complexidade, o deslocamento médio da população entre cidades foi de 155 km. Para serviços de saúde de média e baixa complexidade, a média foi de 72 km.

As três novas metrópoles do IBGE

Campinas

Única metrópole que não é capital estadual, o que se justifica pelo alto dinamismo empresarial existente tanto na própria cidade quanto em sua área de influência, bem como pelo tamanho de sua população, que ultrapassa os 4 milhões de habitantes. Possui a menor extensão territorial dentre as metrópoles (14 mil km²) e o menor número de cidades na sua rede de influência (34). Em contrapartida, tem a segunda mais alta densidade demográfica em relação às outras metrópoles, com 312 hab./km, comparável à do Rio de Janeiro. Também faz de São Paulo o único estado brasileiro com mais de uma metrópole

Florianópolis

É a quarta menor metrópole, com menos de 100 mil km² e um total de 265 cidades na sua rede de influência. A metrópole catarinense se insere em um contexto estadual específico, de capitais regionais com grande dinamismo econômico, como Chapecó, Criciúma, Joinville, Itajaí e Balneário Camboriú. Por conta disso, Florianópolis responde por apenas 14,1% do PIB produzido por toda sua região de influência, o que aponta para uma melhor distribuição territorial da geração de riqueza

Vitória

A rede de influência da metrópole capixaba tem a segunda menor área entre as metrópoles, superior apenas à de Campinas e com população equivalente. É composta por 85 cidades, com destaque para a capital regional Cachoeiro de Itapemirim (ES), e para os centros sub-regionais de Colatina (ES) e Teixeira de Freitas (BA). Metade do PIB produzido pela região de influência de Vitória ocorre na capital

Uma análise sobre a metropolização

Embora só tenha entrado agora na classificação do IBGE, Campinas é considerada uma metrópole há décadas pelo poder público. Sua região metropolitana foi instituída por uma lei estadual de 2000.

“É bom que os números reforcem isso, a necessidade de uma gestão compartilhada na escala metropolitana, mas [no caso de Campinas] não é exatamente uma novidade”, apontou o professor da Universidade Federal do ABC Jeroen Klink em entrevista ao Nexo.

Na definição de Klink, menos preocupada com questões administrativas e jurídicas, a metrópole é uma região que “concentra as principais funções públicas de interesse comum”, como os recursos hídricos, as cadeias produtivas e o movimento pendular.

[Henri] Lefebvre fala que o espaço privilegiado para a reprodução da vida é a cidade. Eu diria que o espaço privilegiado para a reprodução da vida e para a geração e apropriação da riqueza é a metrópole”, disse, por ser hoje o espaço em que as pessoas moram, trabalham e se deslocam.

O professor define a gestão e o planejamento da metrópole portanto ao mesmo tempo como um problema e uma oportunidade. “Quase nunca o planejador, urbanista ou administrador público consegue dialogar adequadamente com o fenômeno metropolitano. Esse é o dilema com o qual o Brasil continua se deparando”, disse.

Criar uma lógica administrativa e institucional que tenha um encaixe perfeito entre as funções da metrópole e suas variáveis geográficas – equacionando, por exemplo, necessidades econômicas com a espacialidade dos recursos hídricos – tem sido um desafio a nível global.

No contexto brasileiro, Klink destaca como desafio adicional o fato de que, desde a redemocratização, tanto o poder público quanto a sociedade civil (prefeitos eleitos e movimentos sociais) elegeram a cidade – e não a metrópole – como escala privilegiada para os projetos de reforma urbana.

Para ele, essa escolha se mostrou uma armadilha. A falta de percepção de que esses projetos deveriam ter como foco a escala metropolitana faz com que raramente se reivindique, por exemplo, uma mobilidade melhor para as metrópoles no Brasil, ainda que os deslocamentos pendulares venham aumentando.

Essa situação é agravada pelo fato de a gestão da metrópole ser de responsabilidade de governos estaduais, tendo suas funções administradas por autarquias (muitas delas criadas no período da ditadura militar). Segundo o professor da Ufabc, isso dificulta a mobilização da população em relação ao tema – as questões da metrópole acabam sendo conduzidas “de forma técnico-burocrática, sem muita participação”.

A formação de metrópoles é, na visão de Klink, um processo natural. Ainda assim, tem aspectos positivos e negativos, já que as metrópoles são espaços paradoxais. De um lado, concentram grandes oportunidades de geração de riqueza e, de outro, grandes deficits sociais (habitação, educação, saúde).

“Sem um arcabouço de planejamento e gestão [voltado para as metrópoles], elas se transformam num espaço completamente contraditório, insustentável e excludente do ponto racial e socioespacial”, diz Klink.

“O espaço da metrópole deveria ser fundamental e estratégico para um projeto de nação. Quando não existe um projeto nacional para as áreas metropolitanas, elas se tornam espaços dramáticos, que é o que estamos vendo claramente no caso brasileiro: espaços onde se sobrepõem a contradição, a desigualdade, a desorganização, o descaso. Ao mesmo tempo, é um espaço que é preenchido pelos interesses obscuros – o capital imobiliário, o capital financeiro, a máfia, as milícias. Sem coordenação federativa, o resultado está aí”.

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