Por que bares são lugares ideais para espalhar covid-19

Reabertura de estabelecimentos gerou situações de aglomeração e descuido no Rio de Janeiro. Especialistas afirmam que características físicas de locais e comportamento de frequentadores contribuem para facilitar o contágio

No primeiro dia da reabertura de bares no Rio de Janeiro, na quinta-feira (2), foram registradas diversas cenas de aglomeração e frequentadores conversando sem máscara em locais na zona sul da cidade. Vídeos e fotos de estabelecimentos e calçadas cheias no bairro do Leblon, bairro de classe média alta, causaram revolta nas redes sociais.

"Hoje é dia 2 de julho, primeiro dia da liberação dos bares no Rio de Janeiro, a gente está aqui na [rua] Dias Ferreira, e está realmente todo mundo de máscara, olha...", ironiza uma mulher num vídeo postado que mostra aglomeração e ninguém de proteção no rosto.

Além de pessoas se amontoando, diversos bares do Leblon não respeitaram o horário de fechamento determinado pela prefeitura: 23h. Uma reportagem da TV Globo mostrou que havia locais funcionando perto das 00h30.

A cidade iniciou a “fase 3” de sua reabertura. Nela, podem voltar a funcionar atividades como comércios, com restrição de pessoas, bares e restaurantes, academias com agendamento e distanciamento, escolas – no quinto e nono ano –, praias e parques.

Segundo as determinações da prefeitura, bares devem funcionar com apenas 50% da capacidade em áreas internas e manter mesas a uma distância mínima de dois metros umas das outras. Às sextas, sábados e domingos, os estabelecimentos podem funcionar até a uma da manhã. Nos outros dias, só até às 23 horas. O uso da máscara é obrigatório para clientes e funcionários. Clientes só podem remover o acessório se estiverem nas mesas, na hora de comer ou beber.

Diante da repercussão das imagens, a prefeitura do Rio de Janeiro anunciou uma força-tarefa para fiscalizar os bares do Leblon. Lugares que não estiverem seguindo as normas do decreto de reabertura levarão multa e podem ser fechados. Consumidores também poderão ser autuados.

Em reunião virtual organizada pelo Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio, donos de estabelecimentos afirmaram que precisam tomar a iniciativa de denunciar comportamentos irregulares de fregueses. “O comerciante tem que chamar a polícia, a prefeitura e mandar para a imprensa. E mostramos nosso interior, com o protocolo respeitado”, afirmou Alexandre Serrado, presidente do Polo Gastronômico do Jardim Oceânico, dono do Bar da Lapa e conselheiro do sindicato.

Outras cidades que estão liberando

Mais cidades do país preveem a volta do funcionamento de bares nas próximas semanas. Em São Paulo, bares, assim como restaurantes, salões de beleza e barbearias, poderão retomar suas atividades a partir de segunda-feira (6).

A prefeitura anunciou a assinatura dos protocolos que autorizam o reinício dos estabelecimentos. Os locais só poderão funcionar por seis horas diárias e com 40% da capacidade. Funcionários e clientes devem usar máscaras.

No Distrito Federal, a volta dos bares e restaurantes foi programada para o dia 15 de julho. Entre as obrigações dos estabelecimentos está a manutenção de distanciamento de pelo menos dois metros entre frequentadores, utilização de máscaras e revezamento de funcionários.

Em Pernambuco, a decisão do governo estadual de prorrogar a quarentena de bares e restaurantes em todo o estado desagradou o setor. A reabertura de várias atividades na região metropolitana do Recife está prevista para o dia 6 de julho, mas o governador Paulo Câmara (PSB) decidiu tirar bares e restaurantes da lista por acreditar que a situação sanitária do estado ainda não permite sua retomada. Não foi divulgada uma nova data de retorno.

A Abrasel-PE (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Pernambuco) se declarou frustrada com a decisão. “Estamos com todos os protocolos prontos, os mesmos que estão sendo usados em outros estados que já permitiram a retomada deste segmento”, afirmou a entidade em nota.

O ambiente perigoso dos bares

Para especialistas em epidemiologia, as características físicas dos bares e do comportamento de seus frequentadores fazem com que esses locais sejam propícios para a transmissão da covid-19.

Os recintos muitas vezes são pequenos e fechados, com diversas oportunidades para a aproximação e aglomeração dos clientes, do balcão ao banheiro. Um estudo realizado no Japão demonstrou que as chances de transmissão da covid-19 em um ambiente fechado são 18,7 vezes maiores em comparação com um ambiente ao ar livre.

“Apesar de não ser a rota principal de transmissão, o vírus pode ficar em suspensão no ambiente, sob a forma de gotículas, por até três horas, segundo alguns estudos feitos em laboratório. Em um ambiente fechado, com muitas pessoas infectadas, você pode ter muita carga viral”, disse ao Nexo Rafaela Rosa-Ribeiro, doutora em biologia celular com pós-doutorado na Itália.

A especialista lembra que as pessoas tiram a máscara para comer e beber e, naturalmente, irão conversar, se tocar e se cumprimentar. “Os bares, cinemas, shoppings, escolas, universidades, todos têm de ter certos cuidados, como distanciamento social, máscaras e higienização das mãos. Em bares e restaurantes isso tudo fica muito mais complicado porque as pessoas acabam se descuidando por estarem em um momento de descontração”, pontuou.

Um estudo americano de 2009 demonstrou que as partículas menores de saliva, como as projetadas durante uma conversa, tendem a ficar mais tempo suspensas no ar. “As pessoas podem respirar essas partículas e acabar se infectando”, afirmou Rosa-Ribeiro.

Falar mais alto, um comportamento comum em locais cheios de gente, também contribui para a exposição viral. Uma análise publicada em 2019 na revista Nature afirmou que a emissão de partículas de saliva tende a aumentar conforme o volume da voz aumenta.

“É uma decisão muito arriscada abrir esse tipo de estabelecimento sem que a curva [de casos e mortes] esteja diminuindo. A Itália só reabriu bares e restaurantes na última etapa, depois de várias fases. O governo e pesquisadores iam analisando a segurança de se prosseguir para a fase seguinte. O Brasil está fazendo uma escolha muito perigosa”, afirmou a pesquisadora.

Ela lembra ainda que o país apresenta subnotificação e falta de conhecimento do real quadro da doença graças à falta de testagem. “É um tiro no escuro, não sabemos como a doença está, mas estamos tomando atitudes que podem fazer com que a doença se agrave”, avaliou. “As pessoas podem ir parar no hospital por causa de um risco bobo, evitável”.

Recentemente, os Estados Unidos reportaram diversos episódios de contaminação com origem em bares. Em meados de junho, uma turma de 16 amigos que havia se reunido em um bar na Flórida acabou com todos contaminados alguns dias depois. Na Luisiana, no mesmo mês, pelo menos 100 pessoas testaram positivo para covid-19 depois de frequentar uma área de bares.

As medidas adotadas na Itália

Durante março e abril de 2020, a Itália se tornou o epicentro da covid-19 no mundo, chegando a registrar cerca de mil mortes diárias em muitos dias. Depois de um lockdown severo que durou dez semanas, o país reabriu bares, cafés e restaurantes em 18 de maio. O número diário de mortes tinha caído para 99 naquela data, e a tendência era de queda de óbitos e novos casos. Em 26 de junho, o país registrou menos de dez mortes diárias pela primeira vez.

Doutora em biologia celular pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Rafaela Rosa-Ribeiro foi para o país europeu trabalhar em um projeto de pesquisa do zika vírus. Com o estouro das infecções pelo novo coronavírus, acabou mudando o foco de sua pesquisa. Trabalhou na equipe de Elisa Vicenzi, uma das maiores especialistas em covid-19 da Itália. Com a reabertura no país, Ribeiro retornou à sua pesquisa original.

Segundo a especialista, as regras para a reabertura de bares na Itália incluem as seguintes medidas:

  • Distanciamento de mesas de pelo menos um 1,5 metro
  • Posições intercaladas para pessoas sentadas em mesas, de modo que uma pessoa se sente na diagonal a quem está do outro lado
  • Medição da temperatura de todos os clientes que chegam
  • Frequentadores têm de lavar as mãos ou passar álcool em gel antes de entrar no estabelecimento
  • Manutenção da máscara no recinto até a hora de sentar, só tirando na hora de comer. Quando for se locomover, ir ao banheiro, colocar a máscara
  • Cardápios de papel não podem ser usados. Clientes devem tirar uma foto e consultar o cardápio no celular ou ter um quadro onde as pessoas possam olhar sem tocar.

Na sexta-feira (3), o Brasil registrava números de covid-19 mais altos que o pico da doença na Itália. Foram 1.264 mortes pela covid-19 nas últimas 24h, de acordo com dados do consórcio de imprensa. O total de mortes acumulado no país é de 63.254. Por todo o país, prefeitos e governadores agendam a reabertura de atividades, incluindo escolas, comércios, restaurantes e bares, mesmo diante do descontrole da doença.

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