O que é o Parler, a rede social que atrai a extrema direita

Com mecânica similar ao Twitter, plataforma promete liberdade de expressão ampla para seus usuários

Mesmo tendo entre muitos de seus representantes pessoas de grupos sociais majoritários – em especial homens, brancos, héteros e de classe média –, uma parte significativa da extrema direita se diz oprimida.

Segundo eles, plataformas como o Twitter e o Facebook não toleram a ideologia conservadora, e censuram discursos, tolhendo suas liberdades de expressão.

Ambas as plataformas são conhecidas por dificilmente intervir naquilo que é publicado, mesmo quando as mensagens trazem discursos de ódio.

Para suprir essa demanda, o programador americano John Matzer criou, em 2018, a rede social Parler, que promete garantir liberdade de expressão ampla a seus usuários.

A plataforma ainda tem baixa adesão: 1,5 milhão de usuários no mundo todo, segundo dados divulgados em junho o Twitter, por exemplo, tem cerca de 330 milhões de usuários globais. Porém, tem ganhado destaque por atrair políticos conservadores e seus apoiadores.

O movimento começou no final de junho de 2020, quando apoiadores do presidente americano Donald Trump – tanto civis quanto parlamentares – iniciaram uma campanha para povoar a plataforma.

“Já é hora de vocês se juntarem a mim no Parler”, escreveu no Twitter Rand Paul, senador Republicano eleito pelo estado de Kentucky. “Por que está demorando tanto?”, questionou.

No Brasil, a família Bolsonaro e seus apoiadores montaram base na plataforma americana.

“Siga-me no Parler! A rede social que tem como prioridade a liberdade de expressão”, escreveu no Twitter o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) em 1º de julho.

“A rede social que promove liberdade”, disse o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também no Twitter, anunciando sua conta na plataforma.

O presidente e outro de seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), também criaram conta no Parler, mas não fizeram nenhum tipo de anúncio em outras redes sociais.

O polemista Olavo de Carvalho, figura próxima ao governo e considerado o guru do bolsonarismo, criou conta na plataforma. “Também estou no Parler”, escreveu no Twitter.

Como funciona o Parler

“Leia as notícias, fale livremente”, diz o slogan do Parler, que tem acesso gratuito. “Parler”, em francês, significa “falar”. Em inglês, a palavra tem sonoridade similar a “parlor” – salão, ou sala de estar.

Segundo o próprio site, a rede social foi construída porque Metzer e Jared Thomson, ambos programadores recém-formados pela Universidade de Denver, tinham se cansado da falta de transparência de outras plataformas, bem como uma suposta supressão ideológica que aconteceria nos sistemas concorrentes.

O visual e a mecânica do Parler são muito similares ao Twitter. Na plataforma, os usuários podem publicar mensagens curtas (de até 1.000 caracteres), imagens e vídeos.

Também podem responder outras mensagens, seguir hashtags e republicar postagens de outros usuários, da mesma forma que acontece no Twitter.

A moderação de conteúdo no Parler

De acordo com o Parler, a moderação de conteúdo é feita com base na Comissão Federal de Comunicações e na Suprema Corte dos EUA que, com base na Primeira Emenda da Constituição Americana, permite qualquer tipo de expressão – mesmo discursos de ódio – desde que eles não se tornem ações concretas que coloquem em risco um indivíduo ou grupo. Segundo o Parler, são proibidos na rede social:

  • Divulgação de dados pessoais de terceiros
  • Apologia à violência contra animais
  • Apologia ao tráfico de pessoas e à escravidão sexual
  • Apologia ao terrorismo e organizações consideradas terroristas pelo governo dos EUA
  • Calúnia e difamação
  • Chantagem
  • Nudez e pornografia
  • Conteúdos que violam direitos autorais

Para além disso, qualquer tipo de discurso é permitido dentro da rede social. Apesar de ter se tornado um pólo da extrema direita, o Parler não se limita aos conservadores, segundo Matzer.

“A empresa não foi criada com o intuito de ser algo pró-Trump”, disse o programador ao site CNBC em 27 de junho. “Muitos usuários são pró-Trump. Eu não me importo. Não estou julgando”, afirmou.

Segundo o empresário, há usuários de esquerda no site, e eles possuem a mesma liberdade ampla que todos os outros, mesmo sendo minoria dentro da plataforma.

As razões para a migração

Desde 2016, conservadores vêm alegando com maior frequência que são censurados em redes sociais maiores, como o Facebook e o Twitter, hipótese usada para justificar uma migração para o Parler.

A acusação é de que haveria uma perseguição por parte dessas empresas contra eleitores de direita e que, por isso, tinham suas publicações constantemente removidas das plataformas.

O presidente americano Donald Trump corroborou essa visão. Em junho de 2019, em uma entrevista ao canal Fox News, Trump comentou que o governo deveria “processar” o Google e o Facebook. Sem especificar o motivo, ele reclamou que as empresas que controlam as redes sociais estão na mão de apoiadores dos Democratas, seus rivais políticos.

Quando há remoção de conteúdo, tanto Facebook como Twitter enviam uma notificação para o usuário, justificando a decisão. Segundo as plataformas, há uma série de regras que todos devem seguir dentro do espaço virtual e que, quando há violação, a punição é igual para todos, independentemente de ideologias.

Apesar do que é dito, a atuação do Facebook e do Twitter na moderação de conteúdo é considerada ínfima e, muitas vezes, inefetivas.

A migração da extrema direita para o Parler se dá dias depois de iniciativas que buscam frear os discursos de ódio na internet. A campanha “Stop Hate for Profit” (Pare de lucrar com o ódio, em tradução livre) é capitaneada pela ADL (Anti-defamation League – ou Liga antidifamação), organização sem fins lucrativos que tem como objetivo combater as mensagens abusivas que se proliferam pelas redes.

O pedido da campanha é para que anunciantes deixem de veicular publicidade no Facebook durante todo o mês de julho. Empresas como a Coca-Cola e a rede de cafés Starbucks aderiram à ação.

Apesar da adesão, o Facebook não pretende mudar seu posicionamento. “Não vamos mudar nossas políticas ou posicionamento por causa de uma ameaça a uma pequena porcentagem da nossa arrecadação. Ou por qualquer porcentagem”, disse Mark Zuckerberg, fundador e CEO da plataforma, ao jornal The Telegraph em 2 de julho. Nesta sexta-feira (3), o executivo anunciou que vai se encontrar com a ADL.

Também integra o contexto da migração o fato de que a rede social Reddit e a plataforma de streaming Twitch baniram Trump e seus apoiadores, em decisões divulgadas na segunda-feira (29).

Ambos os sites afirmaram que os banimentos se deram por violações das regras internas no que diz respeito aos discursos de ódio.

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