Vírus sazonal, vacina, imunidade: o que afeta a duração da pandemia

Outros tipos de coronavírus foram controlados em pouco tempo, mas agente causador da covid-19 é mais facilmente transmissível. Para Organização Mundial de Saúde, pior ainda está por vir

    Apenas seis meses após sua descoberta, o novo coronavírus já se espalhou por 188 países e regiões, infectando quase 11 milhões de pessoas e matando 518 mil até o início de julho, segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, nos EUA. Devido à subnotificação em vários países pela falta de testes, os números de infectados e vítimas podem ser muito maiores na realidade.

    Mesmo com os esforços de vários governos em fechar fronteiras e trancar regiões inteiras na tentativa de barrar a disseminação da covid-19, ela continua se alastrando em ritmo acelerado pelo mundo, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde). Em 30 de junho, a entidade declarou que o pior da pandemia ainda pode estar por vir.

    “Todos queremos que isso acabe. Todos queremos dar sequência às nossas vidas. Mas a realidade dura é que não estamos nem perto disso”

    Tedros Adhanom Ghebreyesus

    diretor da OMS, em 30 de junho

    A persistência do vírus tem feito cientistas discutirem qual seria a duração da pandemia e se o Sars-CoV-2, agente causador da covid-19, poderá se tornar sazonal, gerando ciclos que afetam as sociedades de tempos em tempos.

    Como agem os outros coronavírus

    Os coronavírus integram uma família de vírus que é conhecida pela ciência desde os anos 1960. Sete tipos circulam entre humanos, e três deles têm potencial de causar grandes epidemias.

    Em 2002, a Sars (síndrome respiratória aguda grave, na sigla em inglês) começou na China em novembro, mas sua existência só foi notificada à OMS em fevereiro de 2003. A doença se espalhou por 26 países e, como saldo, deixou 8.098 infectados e 774 mortos (índice de mortalidade de 9,5%).

    Já a Mers (síndrome respiratória do Oriente Médio), em 2012, teve um alcance menor do que a Sars, mas com uma taxa de letalidade muito maior. Foram registrados 2.500 casos em 27 países, com 34% de mortes. Segundo a OMS, 858 pessoas morreram devido à doença.

    Tanto a Sars quanto a Mers acabaram controladas. Depois de oito meses, a epidemia de Sars estava sob controle no mundo. A Mers, embora não tenha sido erradicada como a Sars, deixou de ser um perigo. Sua transmissão é mais limitada entre humanos e costumava ocorrer no contato direto entre pessoas e dromedários na península Arábica.

    Os instrumentos usados para o controle das duas doenças foram os mesmos defendidos atualmente contra o novo coronavírus: identificação dos doentes, isolamento imediato, quarentenas rígidas em comunidades que haviam entrado em contato com infectados, monitoramento da situação e uso de equipamentos de proteção individual.

    A dificuldade que o novo coronavírus impõe em relação aos outros dois é que o Sars-CoV-2 pode ser transmitido pelo ar, a partir de gotículas de saliva, por pessoas infectadas mas que não manifestam os sintomas.

    Os responsáveis por isso são os pré-sintomáticos (que ainda vão ter os sintomas em dias seguintes) e os assintomáticos (contaminados que nunca vão manifestar os sintomas, mas podem mesmo assim transmitir a doença). A impossibilidade de identificar muitos desses casos impede o controle efetivo da pandemia. Por isso, a OMS orienta a testagem em massa das populações, o que não tem sido feito pela dificuldade para aquisição e aplicação dos testes em alguns países ou por problemas políticos, de negação da gravidade da doença.

    A duração da covid-19

    Há especialistas na área da saúde que acreditam que o novo coronavírus poderá seguir a tendência dos outros vírus da mesma família. Em março, o professor Marcos Boulos, do departamento de moléstias infecciosas e parasitárias da Faculdade de Medicina da USP, disse em entrevista à TV Band que a pandemia tinha chances de desaparecer depois de 18 meses.

    “Daqui a 18 meses, a epidemia acabou no mundo. E pode ser que ela nunca mais volte porque os outros coronavírus, Sars e Mers, desapareceram, não circulam mais. Os outros eram mais letais, mas não tão transmissíveis como este. Por isso que este virou pandemia e os outros, não”, afirmou.

    Há quem discorde dessa tese. O professor Flávio Guimarães da Fonseca, do departamento de microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), disse ao Nexo em 29 de junho que o fato de o novo coronavírus estar muito mais adaptado ao hospedeiro humano do que a Sars e a Mers indica que ele veio para ficar e que entrará para o rol de vírus respiratórios que infectam as pessoas todos os anos.

    A existência de novos surtos da infecção em países que passaram o pico indicaria isso. “Assim que flexibiliza e as pessoas voltam a circular, o vírus está lá. Ele não vai desaparecer. Pode não ter mais as proporções epidêmicas que a gente está vendo hoje”, disse.

    Na opinião do professor, o novo coronavírus deve se estabilizar como um vírus sazonal que causa surtos e até pandemias de vez em quando. Por isso a necessidade de se achar uma vacina, o que também não significaria que a doença seria eliminada. O vírus da influenza, por exemplo, que causa da gripe, motiva campanhas de vacinação todos os anos, mas isso não é suficiente para que ele desapareça.

    Principal consultor científico da Presidência nos Estados Unidos, Anthony Fauci afirmou em março que o mais provável seria o novo coronavírus se tornar sazonal. Ele alertou para a necessidade de os países se prepararem para ciclos repetidos da doença.

    As dúvidas sobre a imunidade

    O virologista belga Peter Piot, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, afirmou em entrevista ao jornal espanhol El País, na quinta-feira (2), acreditar que a pandemia está só no começo e poderá durar vários anos. “Enquanto houver pessoas propensas a se infectar, o vírus estará muito propenso a fazê-lo, porque precisa de nossas células para sobreviver”, afirmou.

    Uma imunidade contra o vírus em pessoas que já tiveram contato com ele e criaram anticorpos ajudaria a barrar o avanço da doença. Em 18 de junho, um trabalho publicado pela revista científica Nature, porém, colocou em dúvida a duração dessa imunidade. Os cientistas mostraram que o nível de anticorpos no organismo de quem se infectou e se curou caiu dois ou três meses após a infecção. O estudo usou uma amostra pequena, e outros estão em andamento. A ciência ainda não sabe responder se haverá proteção do corpo por um longo período.

    Em abril, cientistas de Harvard, nos EUA, simularam possíveis trajetórias da pandemia e concluíram que o novo coronavírus se tornará como uma gripe comum com taxas de transmissão maiores em meses mais frios e que, por isso, as sociedades precisarão adotar períodos alternados de distanciamento social até 2022 para que os hospitais não fiquem sobrecarregados.

    Nos períodos de flexibilização, mais pessoas teriam contato com o Sars-CoV-2, criariam a proteção do organismo com os anticorpos e poderiam adquirir imunidade. Os pesquisadores ressaltam a importância de se descobrir por quanto tempo uma pessoa que já foi infectada fica imune para o planejamento dessa estratégia. Eles dizem, porém, que essa imunidade não deve ser duradoura.

    O fim do medo da pandemia

    A pandemia do novo coronavírus foi decretada em março pela OMS após a organização identificar que o vírus havia se disseminado globalmente. Formalmente, o conceito está relacionado com a abrangência geográfica da doença e a existência de surtos espalhados pelo mundo.

    Mas mesmo que a doença persista por anos e que não se encontre para ela uma solução científica, como vacinas e remédios, a noção de pandemia, como uma construção social que interfere na maneira como as pessoas se comportam, pode ter seu fim decretado, segundo alguns pesquisadores. Isso acontece quando as pessoas passam a conviver com o vírus, sem sentir medo de se infectar.

    O historiador Allan Brandt, da Universidade Harvard, afirmou ao jornal The New York Times, em maio, que o fim de pandemias ocorre historicamente também por processos sociopolíticos — o que já estaria sendo sinalizado, por exemplo, pelo início das discussões sobre a reabertura da economia mesmo com os casos ainda em alta.

    Naomi Rogers, historiadora da Universidade Yale, disse ao jornal que pandemias envolvem uma espécie de questão psicológica social da exaustão e frustração. “Talvez estejamos em um momento em que as pessoas simplesmente digam: ‘Já basta! Tenho o direito de poder voltar à minha vida normal’”, afirmou.

    Devido à estafa surgida com as restrições de circulação, as pessoas passam a considerar que o problema teve fim para poderem ter uma vida mais próxima ao que era antes, mesmo sem que a doença tenha sumido de fato. Essa noção envolve a aceitação de que muitas mortes irão ocorrer por causa da doença. Para os pesquisadores, esse processo já vem ocorrendo em alguns países onde os governos decidem pela reabertura antes de a pandemia ter atingido o pico.

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