O festival que promove a música eletrônica africana, agora online

Criado em 2015, o Nyege Nyege, de Uganda, vem ganhando destaque no circuito musical ao reunir artistas e coletivos do continente. Com a pandemia, edição de 2020 terá programação digital

    Festivais de música de reputação internacional, como Glastonbury, Primavera Sound e Coachella, estão quase todos concentrados nos EUA e Europa. O festival Nyege Nyege, de Uganda, é uma exceção que ganhou destaque crescente nos últimos anos.

    Dedicado principalmente à música eletrônica produzida em países africanos, com participações de coletivos artísticos de todo o continente, o Nyege Nyege acontece desde 2015 em Jinja. O lugar é a segunda maior cidade e destino turístico do país, sendo o local da nascente do rio Nilo Branco. Em 2019, cerca de 10 mil pessoas participaram do evento, segundo os organizadores.

    A edição de 2020 está agendada para 3 a 6 de setembro com um “espaço online temporário” que incluirá música ao vivo, sets de DJs, “raves secretas”, batalhas de dança, performances, palestras e uma galeria digital. Haverá também uma festa presencial em Uganda, com precauções sanitárias contra a covid-19. O país africano registrou pouco mais de 900 casos da doença até o fim de junho e nenhuma morte.

    História do festival

    O Nyege Nyege foi criado por Arlen Dilsizian, DJ e etnomusicólogo greco-armeno, e Derek Debru, cineasta belgo-burundiano, que se mudaram para Kampala, capital de Uganda, no início dos anos 2010. Antes do festival, a dupla promoveu noites em clubes na cidade, atraindo um público panafricano para ouvir os estilos eletrônicos do continente como electro acholi (Uganda), kuduro (Angola), balani (Mali), singeli (Tanzânia) e coupé-décalé (Costa do Marfim).

    No mesmo ano do primeiro festival, a dupla começou um selo para lançar novos artistas do oeste da África, também chamado Nyege Nyege. Apesar de Uganda contar com raros espaços alternativos, segundo os criadores do evento, há muita inovação cultural. “Assim como em Detroit, Londres ou Memphis, jovens em Durban, Luanda, Dar Es Salaam e Gulu estão inventando e reinventando novos sons por meio de diálogos entre si”, explicou Dilsizian ao site Resident Advisor.

    O nome do festival deriva de uma palavra na língua luganda que significa “vontade incontrolável de se mexer ou dançar”. Em suaíli, apenas “nyege” é um adjetivo usado para quem está com forte desejo sexual.

    Espaço seguro

    Das primeiras noites em clubes até o festival, o Nyege Nyege apostou em um ambiente de liberdade e tolerância. Com isso, a organização acabou criando espaços seguros em que a comunidade LGBTI de Uganda podia ficar à vontade apesar da perseguição no país. A homossexualidade é ilegal em Uganda, com o governo proibindo a organização de uma Parada do Orgulho LGBTI por dois anos consecutivos.

    Não à toa, o Nyege Nyege está sempre na mira de autoridades e grupos religiosos conservadores locais. Em 2019, um panfleto denunciava o festival como sendo local de “orgias sexuais”. Um ano antes, o ministro da Ética, Simon Lokodo, tentou proibir o evento, mas não conseguiu a adesão de outros colegas de governo. O motivo é que o Nyege Nyege atrai turistas e dinheiro. Desde a primeira edição, ele tem como principal patrocinador a empresa sul-africana de telecom MTN. “Tentei meu melhor para deter o evento, mas a mão do diabo é forte. Tive que recuar”, afirmou Lokodo.

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