Desmate e queimadas em alta: qual o cenário para a Amazônia

Índices do primeiro semestre de 2020 crescem na comparação com o mesmo período de 2019. Pandemia dificulta trabalho de fiscalização

    A Amazônia registrou em 2020 o junho com mais queimadas florestais em 13 anos, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), órgão do governo federal que monitora a região. Foram 2.248 focos de calor detectados no mês, quantidade que não se via desde junho de 2007.

    A alta recente das queimadas acompanha o aumento de cerca de 12% do desmatamento acumulado na região de janeiro a junho, quando se compara com o mesmo período em 2019, segundo dados parciais também do Inpe. Ao todo, foram 2.465 km² de floresta derrubada no primeiro semestre, equivalente a 1,6 da área da cidade de São Paulo.

    A escalada dos índices ocorre em meio à crise do novo coronavírus, quando as atividades de fiscalização são dificultadas pela quarentena. Ao mesmo tempo, o governo federal enfrenta acusações de negligenciar a política ambiental, num momento em que as atenções se voltam aos desafios na saúde.

    Além do desmatamento e das queimadas, práticas como a grilagem, o garimpo e a invasão de terras indígenas avançam na Amazônia desde o início da pandemia, segundo relatos de pessoas que vivem na região.

    A pressão levou o governo, em maio, a passar o controle dos crimes ambientais na Amazônia do Ministério do Meio Ambiente, comandado por Ricardo Salles, para uma operação militar do Conselho Nacional da Amazônia, liderado pelo vice-presidente Hamilton Mourão. A iniciativa, porém, não se reflete nos índices disponíveis.

    A situação preocupa investidores estrangeiros e pode prejudicar as relações diplomáticas e comerciais do Brasil, que desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, em 2019, acumula uma série de crises na área ambiental. O governo diz preparar um pacote de medidas para recuperar a confiança no exterior, e Bolsonaro afirmou que deve investir em comunicação para “desfazer opiniões distorcidas” sobre o país.

    Qual o cenário das queimadas

    A quantidade de 2.248 focos de queimadas registrados na Amazônia em junho de 2020 representa um aumento de 19,6% em relação aos focos detectados no mesmo mês em 2019. A série histórica recente mostra que apenas junho de 2007, que registrou 3.159 focos de calor, supera a marca mais recente.

    Recorde em 13 anos

    Série histórica de focos de calor na Amazônia no mês de junho. O dado de junho de 2020 só é menor que o de junho de 2007.

    As queimadas de junho de 2020 também foram maiores que de outros meses do primeiro semestre. Até então, o dado mais alto no ano havia sido o de março, quando o Inpe detectou 1.641 focos de calor na Amazônia.

    Mais da metade das queimadas detectadas em 2020 aconteceram no Mato Grosso, que acumulou 52% dos focos de calor na Amazônia Legal de janeiro a junho de 2020. Atrás dele, estão os estados de Roraima (com 20,9% dos casos), Pará (com 12,3%) e Amazonas (6,3%).

    Queimadas nos estados

    Focos de calor de janeiro a junho de 2020 nos estados da Amazônia. Mato Grosso, Roraima e Pará têm os maiores índices.

    Qual o cenário do desmatamento

    A alta nas queimadas em junho acontece ao mesmo tempo em que a Amazônia registra avanços no desmatamento desde o início do primeiro semestre de 2020. A quantidade de alertas de desmate emitidos pelo Inpe neste ano supera os números registrados em 2019.

    Mais alertas

    Alertas de desmatamento mês a mês, nos seis primeiros meses de 2019 e em 2020. 2020 tem mais alertas de janeiro a maio.

    A principal alta na Amazônia no primeiro semestre de 2020 ocorreu nos três primeiros meses do ano, que registraram um aumento de 51% do desmate em relação aos três primeiros meses de 2019. A área devastada, de 796 km², representou um recorde em cinco anos, desde que o Inpe adotou a metodologia que utiliza hoje.

    As taxas de desmatamento nos últimos seis meses se concentraram nos mesmos estados que registraram os maiores índices de queimadas, com poucas diferenças. A liderança ficou com o Pará, que registrou 38% dos alertas emitidos pelo Inpe, seguido pelo Mato Grosso (25,4%), o Amazonas (17%) e Rondônia (12%).

    Desmatamento nos estados

    Alertas de desmatamento de janeiro a junho de 2020 nos estados. Mato Grosso, Amazonas e Rondônia têm maiores índices.

    As informações sobre o desmate em 2020 são do Deter, um dos sistemas de monitoramento do Inpe. Apesar de servirem de guia para acompanhar o avanço do desmate, as taxas do Deter são parciais. Elas não representam a medida definitiva da devastação na Amazônia, que costuma ser liberada no fim de cada ano.

    O Deter foi criado, na prática, para alertar os agentes ambientais que atuam na Amazônia sobre potenciais crimes ambientais na região. As atividades de fiscalização, contudo, estão precarizadas não só pela pandemia do coronavírus, mas pelo que fiscais contam ser falta de vontade política do governo federal para lidar com esses problemas.

    Qual a relação entre desmate e queimada

    A alta do desmatamento e das queimadas em junho coincide com o início da estação seca na Amazônia, época que tradicionalmente registra aumento dos casos de devastação em relação ao resto do ano. A temporada de seca na região começa no fim do primeiro semestre, entre junho e julho, e costuma durar cerca de três meses, até setembro.

    A explicação para o aumento dos índices de desmate e queimadas na época de seca está na diminuição das chuvas. A seca facilita a logística das operações de derrubada de floresta (que envolve o transporte de maquinário, por exemplo) e o alastramento do fogo, usado para “limpar” terrenos depois do corte.

    A onda de queimadas que se espalhou pela Amazônia entre agosto e setembro de 2019 aconteceu no auge dessa época. As queimadas atingiram cerca de 9.762 km² de área de floresta e criaram uma forte crise dentro do governo brasileiro, que enfrentou reação internacional. A origem mais provável dos incêndios da época é o desmatamento.

    A expectativa é que as queimadas se intensifiquem até setembro. Uma análise do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) mostra que pelo menos 4.509 km² de florestas derrubadas na Amazônia entre janeiro de 2019 e abril de 2020 aguardam pela queima, o que deixa especialistas apreensivos em relação ao que pode acontecer nos próximos meses da seca.

    Além dos prejuízos ambientais, a alta de queimadas pode provocar problemas de saúde graves durante a crise do novo coronavírus. Uma nota técnica do Inpe aponta que a circulação de fumaça deve degradar a qualidade do ar e aumentar a incidência de doenças respiratórias na Amazônia, o que pode sobrecarregar as unidades de saúde.

    O que os dados indicam para a Amazônia

    O Nexo conversou com Ana Alencar, diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), e com Paulo Moutinho, cientista sênior do mesmo instituto, sobre o que indicam os dados mais recentes de queimadas e desmatamento na Amazônia.

    Moutinho afirmou que o fogo, em parte, segue o caminho do desmatamento na região. A causa da alta de ambos os índices, para Alencar, é a falta de ações do governo federal que reprimam os crimes na floresta, dando um sinal claro de que as pessoas vão ser punidas.

    A alta do desmatamento agora indica que está se desenhando uma temporada de fogo igual ou pior que a do ano passado, segundo Coutinho. Como há uma grande extensão de área devastada recentemente que ainda não foi queimada, a ação deve ocorrer nos próximos meses, entre agosto e setembro.

    Para Alencar, após a crise das queimadas na Amazônia em 2019 o governo federal tomou medidas que inibiram os incêndios florestais. Isso mostrou que as queimadas não eram uma questão climática. Reduzir o fogo era realmente uma questão de vontade política, disse. Apesar disso, o governo ainda não freou o desmatamento, o que ela considera preocupante, porque toda área desmatada um dia vai ser queimada.

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