Professores: o risco da volta às salas e a ansiedade na pandemia

Maioria dos profissionais de educação no Brasil diz não ter preparo para o ensino remoto. Educadores relatam pressão e abandono das escolas na quarentena, mas temem retorno ao modelo presencial

    A suspensão das aulas em março devido à pandemia do novo coronavírus fez com que os hábitos e a forma de trabalho dos professores no Brasil mudassem radicalmente sem que eles tivessem tempo para se preparar para uma rotina de teletrabalho e home office.

    Em maio, o Instituto Península, que atua nas áreas de educação e esporte, ouviu mais de 7.000 profissionais de ensino pelo país das redes pública e privada, sendo 80% deles professores. A pesquisa mostrou que 83,4% dos entrevistados se diziam nada ou pouco preparados para o ensino remoto.

    Uma etapa anterior do levantamento, realizada em março, apontava que 76% dos entrevistados tinham mudado muito ou totalmente seus hábitos logo no início da pandemia. O fechamento das escolas significou para esses profissionais uma espécie de abandono em relação à tarefa de ensinar longe das salas de aula: 75% disseram não ter recebido suporte emocional, e 55% afirmaram não ter tido treinamento para dar aulas remotamente.

    O resultado disso são professores que se dizem ansiosos (67% dos entrevistados) e cansados (38%). “As demandas e expectativas que recaem sobre as professoras e professores aumentaram ainda mais, trazendo junto com elas sentimentos como medo, ansiedade e insegurança”, afirma um trecho da pesquisa.

    61%

    dos professores entrevistados pelo Instituto Península disseram que mantiveram contato com os alunos na pandemia; na rede privada, esse número sobe para 77%

    83%

    dos contatos entre professores e alunos foram realizados pelo WhatsApp, principalmente na rede pública; na privada, 69% dos contatos acontecem por ambientes virtuais próprios de aprendizagem

    O risco de infecção pelo novo coronavírus tornou-se algo presente para a maioria dos entrevistados. Apenas 9% afirmou não ter preocupação com a saúde na pandemia. A maior parte dos entrevistados (71%) passou a usar o tempo para reorganizar a vida pessoal no período de suspensão das aulas, e 60% disseram dedicar o tempo para estudar.

    O acesso à tecnologia

    Os professores brasileiros já eram altamente conectados antes da pandemia, como revelam os dados da pesquisa TIC Domicílios de 2019, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação. Segundo o levantamento, 99% têm internet em casa, acessam a rede pelo telefone e usam aplicativos de mensagem. A grande maioria (97%) também lê notícias pela internet e usa as redes sociais (88%).

    Em todo o país, 92% dos professores têm computadores portáteis e 60% computador de mesa, mas esse número cai dependendo da renda do professor e da região em que ele vive.

    Mas apesar de a tecnologia ser acessível aos profissionais da educação, seu uso não é tão presente assim na relação professor-aluno, como mostra a pesquisa. Embora cerca da metade dos professores do país, das redes público e privada, já tenha dado aulas expositivas pelo computador e disponibilizado conteúdo online aos alunos, apenas 48% já tiraram dúvidas dos estudantes pela internet e 35% receberam trabalhos por e-mail. Considerando apenas a rede privada, os números são maiores: 65% dos professores já tiraram dúvidas e 52% receberam trabalhos pela internet.

    Começar repentinamente a usar a tecnologia tornou-se um obstáculo para muitos profissionais. Ao jornal El País Brasil, uma professora de escola particular de Salvador disse gastar mais tempo preparando aulas remotas do que as presenciais, por ter que elaborar apresentações em powerpoint e em outras linguagens que ela não costumava usar.

    Para Nelson Pretto, professor titular da Faculdade de Educação da UFBA (Universidade Federal da Bahia), a desigualdade social também afeta as condições dos professores de ensinar a partir de casa. “Com a pandemia, a primeira questão que a gente observa são as diferenças do ponto de vista de classe social dos nossos professores. Tem desde professores com condições concretas de melhor qualidade, com espaço para que possa trabalhar, a professores que moram em situação precária”, disse ao Nexo.

    Segundo ele, os professores brasileiros que já viviam uma situação de desvalorização antes da pandemia, agora são submetidos a uma pressão maior. “Precisamos de um trabalho forte de escolas, prefeituras, governos estaduais e federal de acolhimento e suporte aos professores das redes básica e universitária”, defendeu.

    Ele diz que os professores passaram a ser cobrados por habilidades que não tinham. “Você tem que imaginar que uma boa parte dos professores, desestabilizada emocionalmente, é colocada para enfrentar um desafio que não foi cumprido no passado. Tínhamos que estar trabalhando essa preparação não por conta da pandemia, mas por conta dos desafios contemporâneos da educação, que exigem que o professor seja um operador dessas tecnologias”, afirmou.

    Na opinião do professor, a partir de agora mesmo a educação presencial fará cada vez mais uso da tecnologia, aproximando o ensino a distância das salas de aula. “A quantidade de professores que usa o WhatsApp para atender os alunos é grande. O que isso significa? Que já incorporaram a tecnologia no cotidiano da relação com os alunos. E demonstra como estão trabalhando fora do horário de trabalho”, disse.

    Pretto ajudou a elaborar com outros professores da UFBA a cartilha “Educação em tempos de pandemia” em que trata dos desafios do ensino em meio à crise sanitária. O documento cobra das secretarias de Educação o “fornecimento de atenção psicológica a professores, alunos e suas famílias” e a garantia de “condições de acesso à internet com qualidade através de seus equipamentos pessoais”.

    2,2 milhões

    é o número de professores da educação básica no Brasil, segundo o Censo Escolar de 2019

    O retorno às aulas

    Embora a pandemia ainda não tenha chegado ao pico no Brasil, algumas regiões já discutem o retorno das aulas. O governo de São Paulo anunciou no final de junho um plano para a retomada das atividades educacionais em 8 de setembro. Na primeira das três etapas de reabertura, a ocupação máxima das salas de aula será de 35%, e as atividades continuarão a ser complementadas a distância.

    Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 28 de junho, Celso Napolitano, presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo, criticou a proposta por não ouvir os professores e reconheceu que os profissionais estão sobrecarregados durante a pandemia e que serão expostos ao vírus mesmo com uma retomada parcial. Ele afirmou que a entidade poderá ir à Justiça caso as aulas retornem sem que os governos tenham o controle da doença.

    O professor Nelson Pretto também questiona a estratégia de volta das escolas com poucos alunos, o que pode beneficiar os alunos, mas não os professores. Nesse retorno, tanto as atividades presenciais quanto a distância ocorreriam. “Se a gente voltar com turmas reduzidas, a pergunta que se faz é: turmas reduzidas com professores trabalhando o dobro da carga horária? Ou o dobro de professores também?”, disse.

    Segundo ele, é preciso pensar em várias soluções a depender de cada caso. “Não resta dúvida de que vamos ter que ter um tratamento absolutamente diferenciado para cada escola, e dentro de cada escola, para cada professor, cada sala de aula e cada matéria. Não vai ser possível decretar uma solução única neste momento, que todo mundo saia seguindo. Por isso, acho que essa ideia de ficar preocupado agora em cumprir dias letivos ou quantidade de horas/aula é algo que não nos ajuda a enfrentar o problema”, disse.

    No Rio de Janeiro, especialistas da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) condenaram os planos de reabertura das escolas privadas e municipais em julho e agosto, anunciados pelo governo. Segundo eles, a retomada das aulas irá colocar quase 1 milhão de pessoas nas ruas, gerando aglomeração no transporte público e agravando a crise. A flexibilização deveria acontecer, segundo a entidade, quando a taxa de contágio do vírus atingisse 0,5 (cem doentes transmitem para outras 50 pessoas). Atualmente, o índice na cidade é de 1,48, ainda distante do ideal.

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