Por que Paraisópolis se destaca no combate ao coronavírus

Moradores de comunidade da zona sul da capital paulista vem implementando desde março estratégia bem sucedida de enfrentamento da crise de saúde

    A reação à pandemia de covid-19 tem sido mais eficaz em territórios precários do município de São Paulo que dispõem de uma organização comunitária maior do que a média do município. É o que mostra um levantamento divulgado em 23 de junho pelo Instituto Pólis, organização da sociedade civil voltada ao direito à cidade.

    A análise indica como caso exemplar a comunidade de Paraisópolis, localizada na zona sul. De acordo com o instituto, o local apresentava em 18 de maio uma taxa de mortalidade por covid-19 de 21,7 pessoas por 100 mil habitantes. O índice ficou abaixo da média municipal (56,2) e de outros distritos vulneráveis, como Pari (127), Brás (105,9) e Brasilândia (78).

    Segunda maior comunidade da capital paulista e uma das maiores do Brasil, Paraisópolis tem cerca de 100 mil habitantes e vulnerabilidades comuns a outras áreas precárias do país: moradias aglomeradas, muitas vezes compartilhadas por mais de dez pessoas, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e falta de saneamento básico, com abastecimento de água intermitente. São condições que tornam as periferias mais suscetíveis à disseminação do novo coronavírus.

    Além das questões de infraestrutura urbana, há ainda a perda de fontes de renda que acomete fortemente a população periférica durante a pandemia, principalmente os trabalhadores informais; a fome que atinge as famílias como consequência da situação econômica; e a desinformação que também impede a adesão a medidas preventivas.

    O que tem feito a diferença nesse contexto é um conjunto de ações integradas que os moradores de Paraisópolis vêm implementando desde março para suprir as lacunas deixadas pelo poder público.

    A organização da comunidade e o papel do Estado

    O Nexo conversou sobre essas ações com Igor Alexsander Gonçalves Amorim, coordenador geral dos centros de acolhimento criados em Paraisópolis para pacientes da covid-19 e um dos coordenadores do G10 Favelas, iniciativa que reúne lideranças e empreendedores de impacto social de diferentes comunidades.

    Junto com o G10, a associação de moradores da comunidade idealizou formas de combate à pandemia e seus impactos que vão do monitoramento da saúde dos moradores à geração de renda para a comunidade. Segundo Amorim, todas as iniciativas são financiadas por vaquinhas online, em que a maior parte das contribuições vêm de pessoas físicas, e por algumas parcerias com empresas privadas.

    Para o Instituto Pólis, o caso de Paraisópolis torna clara a eficácia de um modelo que combina “iniciativas de atenção básica à saúde, ações voltadas para garantir a segurança alimentar e outras despesas essenciais, com ampla testagem e busca ativa de novos casos e controle dos familiares” e que “poderia ser replicado, como uma política de Estado, em outros territórios vulneráveis” para conter o coronavírus.

    O líder comunitário de Paraisópolis critica a omissão do Estado com relação às periferias. Segundo ele, mesmo o auxílio emergencial criado pelo governo federal é falho – muitas pessoas da comunidade ainda estariam com o pedido em análise, sem receber nenhuma parcela.

    “Infelizmente o Estado, quem está no poder, não falou nada sobre políticas públicas para as favelas. Só citavam o comércio, os empresários. Vimos que estávamos à mercê e resolvemos fazer com nossas próprias mãos. Fizemos uma manifestação até o Palácio [dos Bandeirantes, sede do governo estadual] e o governador nem sequer deixou a gente chegar perto da porta, ele não quis nos receber. É um descaso”, disse Amorim ao Nexo.

    A estratégia de Paraisópolis

    Contratação de ambulâncias

    A comunidade contratou, por meio de uma empresa privada, três ambulâncias equipadas para o atendimento de sintomáticos da covid-19, incluindo uma UTI móvel. O Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) muitas vezes não chega à comunidade. Também foram contratados médicos, socorristas e enfermeiros para atuar 24 horas dentro da comunidade. Foram capacitados ainda 240 moradores como socorristas para apoiar 60 bases de emergência para pronto atendimento, criadas com a presença de bombeiros civis

    Testes e isolamento

    Foram obtidos por meio de parceria privada 20 mil testes, disponibilizados nas três Unidades Básicas de Saúde de Paraisópolis. Para impedir o contágio de familiares daqueles infectados pelo vírus, a comunidade transformou duas escolas públicas em centros de acolhimento com um total de 510 leitos. Já foram recebidas 300 pessoas que haviam tido testes positivos para a covid-19 e puderam ficar em quarentena e receber os cuidados necessários até a recuperação. A estrutura inclui hospedagem, alimentação, wi-fi e instalações como biblioteca e sala de jogos

    Presidentes de rua

    Na base do atendimento às necessidades das famílias da comunidade na pandemia está o trabalho dos “presidentes de rua”, voluntários responsáveis por monitorar a saúde dos moradores – cada um encarregado por 50 famílias de sua rua. Atualmente, são 652 presidentes (536 são mulheres) que também desenvolvem atividades para conscientizar a população sobre o vírus, arrecadam e distribuem cestas básicas, procuram combater notícias falsas relativas à pandemia e são capacitados para dar encaminhamento às pessoas que apresentaram sintomas

    Doações e geração de renda

    Há várias iniciativas construídas com a mão de obra local, principalmente de mulheres, para gerar renda e alimentar a comunidade. O Bistrô Mãos de Maria foi convertido em uma cozinha comunitária que produz e entrega por dia 10 mil marmitas para as famílias mais vulneráveis. Costureiras do projeto Costurando sonhos, que também já existia na comunidade, foram contratadas para confeccionar máscaras (em casa) para os moradores da comunidade. Há também a campanha Adote uma diarista, na qual o valor doado é usado para apoiar diaristas que moram na comunidade

    Perspectivas com a reabertura

    Assim como outras cidades brasileiras, a capital paulista vem dando início à reabertura do comércio. Lojas de rua, imobiliárias e shoppings voltaram a funcionar em horário reduzido em 10 junho.

    Diante de um crescimento do número de casos e mortes, o prefeito Bruno Covas adiou a reabertura de bares e restaurantes, prevista na fase seguinte de flexibilização da quarentena, a “fase amarela” do plano de reabertura do governo do estado. A capital entrou na fase amarela na segunda (29), mas o prefeito declarou que bares e restaurantes só poderiam reabrir a partir de 6 de julho.

    “O vírus é real, ainda está atacando muita gente. A gente crê que ainda há muito por vir”, disse ao Nexo o líder comunitário de Paraisópolis Igor Alexsander Gonçalves Amorim. “Infelizmente estão reabrindo o comércio, falam do ‘novo normal’. Desde que a comunidade nasceu até hoje, nós aqui não temos nem o normal, quanto mais o novo. São Paulo não fez uma quarentena correta. Só quem teve quarentena foram os ricos. São mais de 14 milhões de periféricos que infelizmente estão à mercê. Isso acaba se tornando um genocídio, parece que é proposital”.

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