Por que SP fechou um hospital de campanha em meio à pandemia

Após 84 dias de funcionamento, prefeitura da capital paulista vai desmontar estrutura criada no estádio do Pacaembu para tratar casos leves. Entenda o que isso indica sobre o estágio das contaminações e mortes na cidade

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    A Prefeitura de São Paulo fechou na segunda-feira (29) o hospital de campanha erguido no estádio do Pacaembu para atender casos leves de pacientes com o novo coronavírus. A estrutura será desmontada depois de 84 dias de funcionamento, a um mês do final do contrato. Segundo o governo municipal, o local estava com baixa ocupação.

    O hospital temporário com 200 leitos foi inaugurado em 6 de abril com a previsão de atendimento da população até o final de julho. A gestão coube a uma organização social ligada ao Hospital Israelita Albert Einstein. O custo final da prefeitura com o local ficou em R$ 23 milhões, sem atingir os R$ 28,4 milhões previstos inicialmente, segundo dados oficiais.

    “A gente tem tido uma diminuição, ao longo das últimas quatro semanas, de pedidos de internação. Seja em leitos de UTI, seja em leitos de enfermagem. A gente está com uma tranquilidade [no atendimento] que não havia mais necessidade do hospital de campanha do Pacaembu”, afirmou o prefeito Bruno Covas. Os equipamentos que estavam na unidade provisória montada no estádio, entre os quais 17 ventiladores mecânicos, serão doados a hospitais municipais da periferia.

    Na terça-feira (30), o governo do estado de São Paulo divulgou que o número de novas internações por covid-19 na capital paulista caiu 10%, e o de mortes, 17%, ao longo da semana de 22 a 28 de junho, em relação à semana anterior. A cidade de São Paulo soma 127 mil casos confirmados do novo coronavírus (45% do total do estado) e 7.162 mortes (48,5% do total estado).

    1.515

    pessoas foram atendidas no hospital de campanha do Pacaembu no período em que ficou aberto; 405 delas usaram a estrutura de terapia intensiva

    5

    dias foi o tempo médio de internação de pacientes no local

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    mortes ocorreram no hospital de campanha

    Na sexta-feira (26), a cidade de São Paulo foi reclassificada dentro do plano de flexibilização das quarentenas do governo estadual para a fase 3 (amarela), que permite a reabertura de bares e salões de beleza. Covas decidiu, porém, postergar o funcionamento desses estabelecimentos para 6 de julho para a definição de protocolos de saúde.

    Segundo os cálculos do governo, de 19 a 25 de junho (intervalo de sete dias considerado pelo plano de reabertura), as mortes e as novas internações na capital estavam em queda de 6% e de 5,8%, respectivamente. O número de novos casos, porém, havia aumentado em 21,5% em relação à semana anterior. A classificação de cada região é revista às sextas-feiras, a cada duas semanas.

    A prefeitura ainda mantém um hospital de campanha no centro de convenções do Anhembi. A unidade tem capacidade para até 1.800 leitos. Na segunda-feira (29), 188 pessoas estavam internados no local. Outros hospitais de campanha do estado, no Ibirapuera e em Heliópolis, continuam funcionando com capacidade para 268 e 200 leitos, respectivamente.

    Opções mais vantajosas

    Apesar do simbolismo decorrente do fechamento de um hospital voltado exclusivamente ao tratamento de pacientes com covid-19, especialistas dizem que o episódio não significa uma melhora na situação da pandemia na cidade.

    “Tem um peso simbólico o fechamento desses hospitais ou parte deles, mas isso certamente não reflete a realidade. Se esse desmonte [do hospital do Pacaembu] está sendo entendido como o fim da pandemia, certamente isso está errado”, diz ao Nexo o pesquisador Leonardo Mattos, do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos integrantes da campanha Leitos para Todos.

    Segundo ele, no início da pandemia no Brasil, em março, os gestores públicos não tinham uma noção exata do tamanho do estrago que a doença causaria no país. Por isso, a construção de hospitais de campanha, como o do Pacaembu, se justificou. “Foi anunciado que o pico ocorreria em dois meses, no máximo. O tempo era extremamente curto, e os hospitais de campanha eram uma alternativa usada em vários lugares. Com o passar do tempo, houve um aprendizado coletivo no Brasil de que talvez não fossem a alternativa mais vantajosa”, disse.

    Para Mattos, possibilidades como recuperar leitos da rede pública e ter a oportunidade de contratar leitos privados foram se impondo aos governos como estratégia de resposta à pandemia.

    Em maio, o Ministério da Saúde, por exemplo, passou a orientar que hospitais de campanha fossem usados apenas quando as redes pública e privada não fossem suficientes. No mesmo mês, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) elaborou uma nota técnica dizendo que a União, estados e municípios deveriam negociar com a rede privada para “racionalizar o uso dos leitos existentes” e evitar soluções que “não deixarão um legado útil para a sociedade, como os hospitais de campanha”.

    “A preferência neste momento deve se dar pela requisição ou contratação de leitos não-SUS pela rapidez e pela economicidade dessa ação em relação à construção de hospitais de campanha, mantendo-se, é claro, a utilização das estruturas já criadas”

    Conselho Nacional de Justiça

    em nota técnica que trata de medidas de prevenção da judicialização da saúde durante a pandemia

    Na nota, o CNJ apontava que, dos mais de 430 mil leitos de internação no país, 62% estava em instituições privadas e 52% desses leitos particulares já eram disponibilizados ao setor público.

    Ao comentar o fechamento dos 200 leitos do hospital do Pacaembu, na segunda-feira (29), o prefeito Bruno Covas anunciou que 180 leitos permanentes seriam criados nos próximos dias em dois hospitais da cidade.

    O sistema suportou

    Para o pesquisador, a pandemia não impactou o sistema de saúde de São Paulo com a mesma gravidade como na Itália, por exemplo. “Esse medo que se gerou no início fez com que a gente decretasse isolamento mais cedo, e esse ‘colapso’ foi mais alongado no tempo, espalhado por regiões, muito mais fragmentado e heterogêneo. Mas não foi nas proporções do que aconteceu em outros países. De certa forma, isso exigiu menos, mesmo que o sistema tenha ficado sobrecarregado em vários momentos”, afirmou.

    Há variação também nas necessidades de internação entre casos leves e mais graves da doença. Em abril, o médico Aluisio Segurado, responsável pelo setor que trata de doentes da covid-19 no Hospital das Clínicas de São Paulo, afirmou em entrevista ao jornal El País Brasil ter se surpreendido com o fato de a taxa de ocupação na instituição ser maior entre os leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do que entre os de enfermaria reservados para pacientes com coronavírus. A equipe médica imaginava, no início, que a maioria dos pacientes fosse ser internada com casos leves, mas o que se viu foi um volume maior de internações de pacientes que já estavam em estágio grave.

    O hospital de campanha do Pacaembu era voltado a casos leves. A rede de saúde já montada em São Paulo acabou sendo capaz de absorver os doentes de covid-19, como sugerem os dados oficiais de ocupação de leitos. Segundo informações do estado, 53,4% dos leitos de enfermaria e 65,4% dos de UTI na região metropolitana de São Paulo estavam preenchidos na terça-feira (30).

    Inicialmente, a resposta de São Paulo à pandemia foi organizada, na visão de Leonardo Mattos. A cidade conseguiu reorganizar a oferta hospitalar, criar hospitais de campanha, e embora se tenha chegado muito perto de uma situação de colapso, o quadro não foi grave como o vivido no Amazonas, por exemplo.

    “Em alguns momentos houve dificuldade, sobrecarga da rede, pacientes esperando um pouco mais de tempo, mas, de certa forma, conseguiu-se atender a essa demanda”, disse. Ele lembra também que a contratação de leitos privados tornou-se uma carta na manga do governo no caso de ocorrer novos surtos da doença.

    A interiorização dos casos

    Com o tempo, a pandemia também foi migrando para o interior do país. Em São Paulo, o resto do estado acabou superando a capital no número de casos a partir do final de junho. A interiorização da doença, no entanto, também pode representar um risco para a cidade. Como o interior não tem a mesma estrutura de saúde, a rede da capital pode ser impactada por esse avanço em municípios médios e pequenos.

    “Diante dessa diminuição, pelo menos na região metropolitana, em que se tem o esvaziamento de alguns desses hospitais, é até plausível que você feche leitos considerando que tem outras alternativas pela frente caso volte a acontecer um segundo pico, ou então que as próprias demandas do interior refluam para a capital e levem novamente o sistema a ficar sobrecarregado”, afirmou Mattos.

    Segundo o pesquisador, devido ao relaxamento do isolamento social, existe o risco de o pico da doença voltar a todo vapor. “A gente não tem uma garantia. Inclusive a situação mais provável é que nos próximos meses novamente isso volte”, disse.

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