As ações do Reddit e da Twitch contra Trump e o discurso de ódio

Plataformas dão fim a comunidades que usam falas do presidente americano para incitar violência e atacar minorias

A rede social Reddit e a plataforma de streaming Twitch estão tomando decisões que enfrentam a proliferação de discursos de ódio por parte do presidente americano, Donald Trump, e seus apoiadores.

Na segunda-feira (29), o Reddit anunciou o fim da comunidade “The_Donald”, formada por apoiadores do presidente, que discutem suas propostas e criam memes com suas falas – mas que, ao mesmo tempo, atacam grupos sociais com discursos de ódio e ridicularizam críticos de Trump.

“Todos têm o direito de usar o Reddit sem receber assédio, ataques e ameaças de violência. Comunidades e usuários que incitam a violência ou que promovem ódio baseado em identidade e vulnerabilidades serão banidos”, diz o comunicado enviado à imprensa pela rede social. Outras 2.000 comunidades denunciadas foram encerradas pelo Reddit.

Cerca de 20 minutos depois, a Twitch, que é de propriedade da Amazon, anunciou uma suspensão temporária da conta de Trump na plataforma. Dias antes, o canal transmitiu um discurso de campanha de 2015, no qual o presidente americano afirmava que o México estava enviando estupradores para os EUA e que, por isso, a construção do muro na fronteira era necessária.

“Assim como todos, políticos na Twitch precisam aderir aos nossos Termos de Serviço e Diretrizes da Comunidade. Não fazemos exceções para conteúdos políticos ou noticiosos, e vamos tomar atitudes em conteúdos que violam nossas regras”, afirmou a empresa em comunicado oficial.

Não se sabe até quando a conta de Trump ficará suspensa. O presidente americano não comentou as decisões até a manhã de terça-feira (30).

Trump e os protestos antirracistas

Em junho de 2020, protestos antirracistas se espalharam pelos EUA e pelo mundo, catapultados pela morte de George Floyd, um homem negro que foi asfixiado por um policial branco de Minneapolis, no estado do Minnesota.

Em sua busca pela reeleição, Trump respondeu aos protestos apresentando-se como “o presidente da lei e a ordem”. Ele criticou governadores democratas por serem fracos demais no enfrentamento aos manifestantes, e postou uma série de comentários depreciativos sobre Joe Biden no Twitter, candidato opositor, chamando pelo apelido de “Joe sonolento”.

Trump ameaçou criminalizar o movimento antifascista no país, enquadrando-o como “organização terrorista” e prometeu colocar o Exército nas ruas, caso os atos de vandalismo, saques e incêndios criminosos não cessem.

O presidente americano pouco mencionou Floyd e a questão racial. Ele tentou marcar uma linha divisória entre o que ele classifica como protestos pacíficos legítimos e badernas provocadas por “grupos de extrema esquerda”, em sua definição, apoiados por “radicais democratas” e por uma “imprensa mentirosa”.

A ênfase no uso da força e no discurso presidencial é dirigida ao eleitorado republicano – majoritariamente branco e politicamente conservador –, que deu a Trump seu atual mandato nas eleições de 2016.

O presidente, que não costuma participar de missas e cultos, visitou a histórica Igreja de São João, em Washington, no dia 2 de junho, posando para fotos com uma Bíblia na mão.

Para garantir a segurança do ensaio fotográfico, a polícia dispersou com bombas de gás lacrimogêneo um grupo de manifestantes que protestava pacificamente nas imediações. O gesto foi criticado tanto por líderes religiosos quanto por rivais democratas, que viram na iniciativa um sinal de oportunismo eleitoral.

No dia 21 de junho, Trump novamente foi acusado de racismo por seus opositores, após realizar um comício na cidade de Tulsa, no estado de Oklahoma.

A apoiadores, o presidente chamou manifestantes antirracistas de “bandidos”, dizendo que os protestos violentos forçaram o cancelamento de um outro evento de campanha que ele faria na cidade.

Trump chamou de “máfia esquerdista” aqueles que querem a remoção de estátuas públicas de figuras ligadas à escravidão, reivindicação que voltou à tona na onda dos protestos após a morte de Floyd.

Por fim, o republicano chamou a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, de “kung flu”. O termo é um trocadilho com “kung fu”, arte marcial tradicional da China, tentando culpabilizar os chineses pela pandemia.

Dois dias antes do comício de Tulsa, o Twitter e o Facebook removeram um vídeo publicado por Trump, que mostrava um bebê negro correndo de um bebê branco. “Criança aterrorizada foge de bebê racista”, dizia a legenda.

O vídeo foi removido não por seu conteúdo ou legenda, mas sim por trazer, como trilha sonora, a música “Photograph”, do Nickelback, que apontou que o Republicano violou direitos autorais ao postar o conteúdo.

Em maio, o Twitter sinalizou pela primeira vez uma mensagem publicada por Trump, alertando os usuários que ela continha informações equivocadas sobre a votação por correios – opção que está sendo considerada para as eleições presidenciais de 2020 em meio ao cenário da pandemia.

O boicote de anunciantes

As ações do Facebook caíram 8,31% na sexta-feira (26). A queda é resultado direto da campanha “Stop Hate for Profit” (Pare de lucrar com o ódio, em tradução livre), que promove um boicote global às empresas que administram redes sociais, e em especial ao conglomerado tecnológico de Mark Zuckerberg.

A campanha é liderada pela ADL (Anti-defamation League – Liga antidifamação), organização sem fins lucrativos americana que tem como objetivo combater os discursos de ódio nas redes sociais.

O pedido da campanha é que as empresas não veiculem anúncios no Facebook (e, consequentemente, no Instagram) durante todo o mês de julho.

Apesar de ter como alvo específico o Facebook, a campanha também atingiu o Twitter. A empresa começou a sexta-feira (26) com ações a R$ 84,10 — em cotação de segunda-feira (29) —, e fechou o dia com os papeis a R$ 79,70, uma queda de 5,36%.

Empresas como a Coca-Cola e a rede de cafés Starbucks aderiram à campanha.

Na segunda-feira (29), o YouTube anunciou que baniu da plataforma nomes como Stefan Molyneux, youtuber abertamente racista; David Duke, neonazista que nega que o Holocausto tenha acontecido e ex-líder da Ku Klux Klan; e Richard Spencer, supremacista branco, abertamente racista, anti-islamista e xenófobo.

Molyneaux publicou um vídeo no Twitter afirmando que foi censurado, e que há uma perseguição política contra ele e contra outros “pensadores anti-comunistas”.

Também no Twitter, Spencer se limitou a publicar uma imagem que mostra a notificação do YouTube de que seu canal foi desativado e uma mensagem de apoio a Molyneaux.

Duke não se manifestou sobre o fim de seu canal no YouTube até a manhã de terça-feira (30).

As ações das redes contra fake news

Além do combate aos discursos de ódio, as plataformas digitais reforçaram o combate a propagação de notícias falsas, em especial aquelas relacionadas à pandemia do novo coronavírus.

O Facebook tem removido conteúdos falsos divulgados sobre o coronavírus e tem direcionado os usuários que buscam notícias sobre a pandemia ao site do Ministério da Saúde.

“Procurando informações sobre o coronavírus? Veja as informações mais atualizadas do Ministério da Saúde do Brasil para você se prevenir e ajudar a evitar a disseminação do vírus”, diz a mensagem que aparece aos usuários brasileiros. Alertas similares são enviados em outros países.

O Twitter afirma estar removendo boatos e notícias falsas sinalizadas por usuários ou autoridades e direcionando aqueles que buscam informações à página do Ministério da Saúde.

“Conheça os fatos. Para garantir que você tenha as melhores informações sobre o coronavírus (covid-19), recursos do Ministério da Saúde estão disponíveis”, diz a mensagem que aparece para os usuários que buscam informações sobre a pandemia.

O Instagram, de propriedade do Facebook, diz remover conteúdos falsos sobre o novo coronavírus, mas direciona os usuários para a página da OMS (Organização Mundial da Saúde) de maneira mais discreta: em vez de mostrar uma mensagem direta sobre a busca de informação qualificada, a plataforma apresenta o perfil da organização no topo dos resultados.

O YouTube lançou uma página inteira dedicada ao coronavírus, na qual fornece informações de contato para as principais autoridades sanitárias do mundo e explica suas medidas para combater a desinformação sobre a pandemia.

A plataforma de vídeos está removendo conteúdos que foram sinalizados pela comunidade e que trazem informações falsas sobre o coronavírus.

Além disso, a plataforma não está permitindo a monetização de vídeos sobre o assunto, exceto em canais que são verificados. Nos conteúdos que tratam do tema, a plataforma também incluiu um link para a página da OMS.

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