Representatividade: as mudanças nas dublagens de desenhos

Atores brancos deixam de fazer a voz de personagens de outras etnias em séries animadas americanas

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    Em duas das mais populares e longevas séries animadas de comédia dos EUA, “Uma família da pesada” e “Os Simpsons” (ambas da Fox), personagens negros, latinos e de outras etnias não brancas não serão mais dublados por atores brancos.

    A discussão sobre representatividade nas dublagens não é nova. Mas ganhou força em meio a um amplo debate sobre o racismo que tomou conta da sociedade americana desde o assassinato de George Floyd, homem negro que foi sufocado pelo joelho de um policial branco em Minneapolis, no estado de Minnesota, em 25 de maio.

    Na sexta-feira (26), os produtores de “Os Simpsons” declararam que não colocariam mais pessoas brancas para dublar personagens de outras origens étnicas.

    O programa enfrenta críticas há anos pela dublagem do personagem de ascendência indiana Apu Nahasapeemapetilon, considerada estereotipada por espectadores. Em janeiro, o ator Hank Azaria, dublador de Apu desde sua criação, em 1990, já havia deixado o papel em função.

    Também em 26 de junho, o ator Mike Henry, que é branco, anunciou em sua conta no Twitter que deixaria a dublagem do personagem negro Cleveland Brown, de “Uma família da pesada”, o qual interpretou por 20 anos. No tuíte, afirmou ter sido uma honra emprestar sua voz a ele, mas justificou estar deixando o papel porque personagens negros devem ser dublados por pessoas negras.

    As atrizes Jenny Slate e Kristen Bell, ambas brancas, haviam feito o mesmo poucos dias antes. Slate é responsável pela dublagem em inglês da Missy de “Big mouth”, série animada da Netflix, e Bell pela Molly de “Central Park”, da Apple TV Plus. Missy e Molly são meninas negras.

    Elas também se posicionaram nas redes sociais sobre a decisão. Em um comunicado publicado no Instagram, a dubladora de “Big mouth” afirmou ter considerado inicialmente permissível interpretar Missy uma vez que a mãe da personagem é branca e judia, assim como ela própria. Disse porém que esse raciocínio era falho, resultado do privilégio branco, e que sua interpretação da personagem contribuía para um apagamento de pessoas negras.

    Já Kristen Bell declarou se tratar de “um momento de reconhecer nossos atos de cumplicidade [com o racismo]”. Para ela, a escolha de uma atriz branca nesse contexto “compromete a especificidade da experiência negra americana”.

    Desde então, outros atores e criadores têm vindo a público fazer um mea culpa. Alison Brie, que dublou a escritora de origem vietnamita Diane Nguyen de “Bojack Horseman”, da Netflix, declarou que, em retrospecto, gostaria de não ter feito a voz da personagem.

    Brie afirmou terem perdido a oportunidade de representar a comunidade vietnamita-americana de maneira mais exata e respeitosa, e que aprendeu muito com os colegas que haviam deixado seus papéis nos dias anteriores. “Bojack Horseman” chegou ao fim no início de 2020, com sua sexta temporada.

    Os antecedentes

    A representatividade na interpretação de personagens animados foi bastante comentada em 2018, quando discussões sobre whitewashing e representatividade em Hollywood que vinham ocorrendo nos anos anteriores atingiram a área das dublagens.

    Lançado em novembro de 2017, o documentário “The problem with Apu” (“O problema com Apu”, em tradução livre) aborda criticamente os impactos negativos do personagem de “Os Simpsons” para a população de ascendência indiana.

    O filme foi escrito e estrelado pelo comediante de origem indiana Hari Kondabolu, que compara a interpretação caricatural de Hank Azaria ao blackface (ou “brownface”, por se tratar de alguém de “pele marrom”, como caracterizam os americanos).

    Em 2018, Azaria respondeu às críticas presentes no documentário dizendo que a ideia de que pessoas vinham sendo marginalizadas com base no personagem que ajudou a criar o entristecia muito, pessoal e profissionalmente. Disse ainda que vinha falando a respeito com os produtores de “Os Simpsons”, que se encarregariam da questão.

    No Brasil, a representatividade nas dublagens já gerou controvérsia não em uma produção animada, mas em um live action estrangeiro que ganhou versão dublada em português. “Pantera negra”, filme da Marvel com elenco praticamente todo negro, estreou no Brasil em 2018 e foi celebrado pela população negra.

    Quando um post exibiu que muitos dos dubladores dos personagens eram brancos, porém, iniciou-se um debate nas redes sociais em que pessoas chegaram a propor o boicote da versão dublada do filme. Outros afirmaram não ver sentido na discussão, argumentando que a dublagem deve levar em conta apenas a adequação da voz do ator ao personagem.

    Já a nova versão de “O Rei Leão”, lançada em 2019, contou com um elenco de dublagem predominantemente negro, incluindo celebridades como Beyoncé – a história é ambientada na África –, decisão que foi mantida na dublagem brasileira.

    Por que a representatividade na dublagem conta

    Em uma reportagem publicada em 2018 pelo site especializado Indiewire, a roteirista Jessica Gao (de “Rick and Morty”) sintetizou o que incomoda na dublagem de personagens de outras etnias por atores brancos.

    “São personagens animados, são desenhados, você pode fazê-los com a aparência que quiser. Então parece que a voz por trás deles pode ser arbitrária. Acho que nada disso seria um problema se mais atores de etnias não brancas conseguissem trabalhos. Mas como atores brancos dominam em todas as vertentes da atuação e há tão poucos papéis para atores não brancos, isso se torna um problema. Não seria uma questão se houvesse uma abundância de papéis para todos. Mas não é o que acontece”, disse.

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