Qual o papel de um museu que conta histórias de vida

Exposição online reúne exemplos de acervo com mais de 15 mil depoimentos anônimos e famosos a respeito de suas trajetórias

    A pandemia do novo coronavírus, decretada em março de 2020, impôs o isolamento e adiou os encontros do cotidiano, mas quem sente falta do contato humano pode encontrar outras formas de conhecer e se conectar com novas pessoas.

    A exposição virtual “Contar para viver — Narradores do Brasil”, organizada pelo Museu da Pessoa, está em cartaz no site da instituição e divulga histórias de vida de brasileiros, famosos ou anônimos, que narram suas memórias em depoimentos em vídeo. A ideia da mostra, no ar desde 17 de junho, é liberar um depoimento por semana.

    A primeira história divulgada pela exposição foi a do jornalista Gilberto Dimenstein, morto em maio de 2020 por causa de um câncer no pâncreas. Ele havia dado entrevista ao Museu da Pessoa um mês antes, em abril. “A coisa mais importante do ser humano é a narrativa”, disse o jornalista.

    A segunda história, até segunda-feira (29) a mais recente, é de Maria Irailde de Menezes, seringueira e professora, nascida em um seringal em Campo Lindo, no Acre. Ela contou sua vida ao Museu da Pessoa em 2010, pouco antes de a cidade em que mora agora ter sido inundada com a implantação da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, que fica em Rondônia.

    Lançada na pandemia, a exposição complementa um filme que o Museu da Pessoa também lançou em 2020, “Pessoas — Contar para viver”. Nele, cinco documentaristas contam o que veem a partir do acervo de milhares de histórias de vida reunidas na instituição. O filme está disponível em plataforma do canal Curta!.

    O que há no acervo do Museu da Pessoa

    O Museu da Pessoa foi criado em 1991 com o objetivo de registrar e preservar histórias de vida de todo e qualquer indivíduo. A ideia é valorizar essas memórias e torná-las uma fonte de compreensão, conhecimento e conexão entre as pessoas, dos narradores aos visitantes que a instituição atrai.

    O acervo do museu, hoje quase todo digitalizado, revela uma grande diversidade de experiências e pensamentos de quem vive no Brasil. Inclui mais de 15 mil depoimentos em áudio, vídeo e textos e cerca de 70 mil fotos e documentos dos entrevistados, que são de livre acesso no site da instituição.

    O Museu da Pessoa é colaborativo, ou seja, qualquer pessoa pode se voluntariar para contar sua história. Todas as pessoas que se dispõem a falar são entrevistadas por colaboradores da instituição, que durante longas conversas buscam estimular os participantes a lembrar os detalhes de sua trajetória.

    É possível encontrar nos arquivos histórias de professores, poetas, comerciantes, trabalhadores rurais e regressos do sistema prisional, de variadas idades e regiões do país. Entre os personagens estão um amigo de infância do jornalista Vladimir Herzog, morto na ditadura, e o ex-roupeiro do time do Santos.

    A partir dos arquivos, o Museu da Pessoa cria exposições temáticas, como “Memórias dos brasileiros”, que buscou registrar as histórias de pessoas consideradas excluídas, e “Memórias do comércio”, sobre a zona cerealista de São Paulo.

    Por que preservar histórias de vida

    A curadora e fundadora do Museu da Pessoa, Karen Worcman, teve a ideia de criar a instituição no fim dos anos 1980, quando participou de um projeto de entrevistas com imigrantes no Rio e percebeu que os depoimentos que ouvia ajudavam a contar a história mais ampla do país.

    Mais de 25 anos depois da fundação do museu, Worcman pensa o mesmo. “A história de cada pessoa é uma perspectiva única sobre a história comum que todos nós vivemos como sociedade”, disse a curadora ao Nexo.

    “Nós nos conectamos por meio das nossas histórias, aprendemos por meio de histórias, pensamos sobre nós mesmos a partir das histórias que nos contamos”

    Karen Worcman

    curadora e fundadora do Museu da Pessoa, em entrevista ao Nexo

    Para Worcman, as narrativas do acervo podem fazer o público do museu não só conhecer a vida de outras pessoas, mas “aprender sobre o mundo e a sociedade com o olhar do outro”. Abertas a outros pontos de vistas, as pessoas transformam seu modo de ver o mundo e criam uma sociedade mais justa e igualitária.

    As atividades do museu na pandemia

    O Museu da Pessoa é um museu virtual, portanto, suas portas não precisaram fechar durante a pandemia do novo coronavírus. A instituição, ao contrário, intensificou sua programação online e criou projetos voltados ao momento.

    Além da mostra “Contar para viver”, o museu lançou o Diário para o Futuro, projeto que recolhe depoimentos de pessoas que desejam falar sobre o que têm passado na quarentena. A iniciativa, como um diário, aceita depoimentos tão diversos quanto grandes reflexões sobre o isolamento ou a refeição escolhida para o dia.

    A instituição também criou uma série de postagens nas redes sociais chamada “Histórias para inspirar em tempos difíceis”, recuperando alguns dos depoimentos considerados mais marcantes em seu acervo.

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