Perdas e ganhos: o acordo do Brasil para a vacina da covid-19

Ministério da Saúde anunciou investimento de quase R$ 700 milhões para fabricação no Brasil de imunizante que ainda está em fase de testes em humanos

    Temas

    O Ministério da Saúde anunciou no sábado (27) uma parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido, para a produção no Brasil de uma vacina ainda em fase de testes contra o novo coronavírus. O imunizante, desenvolvido pela instituição de pesquisa britânica e pelo laboratório AstraZeneca, é considerado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) o “mais avançado” em termos de desenvolvimento.

    A substância começou a ser testada em humanos no Reino Unido em abril e vem sendo aplicada em voluntários brasileiros desde junho. A vacina também está em fase de testes na África do Sul.

    Ela usa uma versão enfraquecida de um vírus comum de resfriado (adenovírus) que atinge chimpanzés. Esse adenovírus recebeu o material genético do Sars-CoV-2, o agente causador da covid-19, e não consegue se reproduzir em humanos, mas produz uma proteína que desencadeia uma reação de defesa do organismo, gerando anticorpos.

    Em testes com macacos, a vacina evitou que o coronavírus causasse danos nos pulmões dos animais. Mas os pesquisadores observaram também que o vírus ainda estava presente e se multiplicava na mucosa nasal das cobaias. Eles acreditam que isso se deve à alta dosagem usada na pesquisa, superior à observada em humanos na vida real.

    R$ 693,4 milhões

    é a previsão de investimento do Brasil no projeto

    No Brasil, serão produzidas, segundo o acordo, 30,4 milhões de doses da vacina pela Bio-Manguinhos, laboratório da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde. A previsão é de que o primeiro lote fique pronto em dezembro, e o segundo, em janeiro. Depois que a eficácia do imunizante for comprovada, o país produzirá mais 70 milhões de doses, totalizando mais de 100 milhões.

    O acordo prevê compartilhamento de tecnologia entre as instituições. Parte do investimento será feito também para a modernização do parque tecnológico da Bio-Manguinhos, no Rio de Janeiro.

    “Nossa parceria é de uma encomenda tecnológica. No desenvolvimento de uma encomenda tecnológica existe um risco associado a ele, mas nesse caso o mundo inteiro está testando e avaliando a eficácia dessa vacina”, afirmou Arnaldo Correia de Medeiros, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Ele afirmou que o imunizante não será aplicado na população enquanto não houver a comprovação de sua eficácia.

    Ao jornal O Globo a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, reconheceu na segunda-feira (29) os riscos do acordo, mas justificou sua necessidade devido às vidas que estão sendo perdidas no SUS (Sistema Único de Saúde) pelo coronavírus e pela “baixa capacidade de atendimento à população”.

    “Assumimos um risco de natureza econômica para ter a vacina no Brasil, um compromisso financeiro, esperando que o produto seja bem-sucedido, mas claro que ele pode não se provar eficaz. Há muitas pesquisas sem resposta sobre o coronavírus, e acredito que a escolha desta vacina foi muito bem pensada. Não somos o único país a tomar esta iniciativa”

    Nísia Trindade Lima

    presidente da Fiocruz, ao jornal O Globo, na segunda-feira (29)

    Em junho, o governo do estado de São Paulo também anunciou um acordo para a produção no Instituto Butantan de uma vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac Biotech. Os termos do contrato estão sob sigilo.

    Duas análises sobre a vacina

    Para discutir a iniciativa brasileira de firmar parcerias com instituições estrangeiras para a produção de uma vacina contra o coronavírus, o Nexo conversou com dois especialistas:

    • Marcos Boulos, professor titular do departamento de moléstias infecciosas e parasitárias da Faculdade de Medicina da USP
    • Flávio Guimarães da Fonseca, professor associado do departamento de microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG

    O Brasil deve participar dessa corrida por uma vacina?

    MARCOS BOULOS Nós estamos sempre a reboque do que acontece na Europa e nos Estados Unidos. Quando se assume a liderança ou se começa a trabalhar num projeto, é muito bom. Imaginar que isso vai dar certo é outra coisa. Normalmente, um instituto demora em torno de 15 a 20 anos para poder produzir uma vacina. Neste momento, nessa rapidez, tem grande chance de não dar certo. Pode dar certo no futuro. Não sabemos exatamente qual vai ser a resposta da fase 3, que é quando se testa a vacina com um outro componente não vacinal, o placebo, para saber se de fato protege. E, para isso, as pessoas precisam estar infectadas para sabermos quantos se infectaram com e sem a vacina. Isso [acordo da Fiocruz com Oxford] é um tiro no escuro se for pensar em comércio. Agora, se for pensar em melhorar a estrutura da Fiocruz, para tentar avançar e estar na linha de frente de um projeto, está correto.

    Certamente a pesquisa não será completa agora. A vacina não vai ficar pronta. Fizeram testes em macacos [em Oxford] e encontraram o vírus. Estou cansado de ver vacinas que produzem anticorpos de defesa na fase 2, e quando vai testar em humanos, na fase 3, não protege coisíssima alguma. Eu diria que é muito cedo para falar que teremos vacina boa neste momento. Quer participar da pesquisa, ótimo. O Butantan também está participando de outra pesquisa, com a vacina chinesa. Acho que a Fiocruz também pode participar, mas falar que tem uma vacina para resolver o problema, para vacinar as pessoas, isso já é um tiro no escuro enorme. Tem muitas chances de não dar certo.

    FLÁVIO DA FONSECA O Brasil estava numa posição muito ruim no caso de uma vacina ser descoberta em laboratórios externos, que é o que vai acontecer: são laboratórios com investimentos muito maiores, que começaram as pesquisas num momento anterior. Certamente eles vão sair com a vacina antes. Meu temor é que o Brasil se colocasse numa posição ruim na fila [para poder produzi-la]. A gente sabe que há uma demanda global de 7 bilhões de pessoas querendo essa vacina, e o Brasil poderia ter de aguardar ser atendido, porque nenhum laboratório conseguiria prover essa demanda global com a mesma rapidez.

    Ao realizar esse tipo de acordo [com Oxford], a gente se coloca numa posição um pouco melhor. O próprio acordo prevê que a gente vai ser atendido, num primeiro momento, com uma certa quantidade de doses e, num segundo, com a transferência de tecnologia para que a gente possa criar nossas próprias doses. Por si só é uma notícia muito relevante. Ela alivia nossa condição na fila para ser atendido por uma vacina que ficasse pronto primeiro. Agora, tem outras considerações: uma delas é que é uma vacina sendo testada. O Brasil vai adquirir, vai fazer um investimento numa vacina que ainda não tem sua eficácia comprovada.

    Quais os riscos de investir alto num projeto com tantas incertezas?

    MARCOS BOULOS Perder dinheiro. Claramente, não deveria fazer isso. Não pode adquirir 30 milhões de doses. Tem que pegar tecnologia para desenvolver os estudos aqui. Isso é uma história, e a pesquisa é justificada. Adquirir vacinas que tem boas chances de não dar certo neste momento é uma loucura. Você está jogando dinheiro fora. É um dinheiro social, que pode ser mais bem aplicado em outras circunstâncias. Em apostas, boa parte das vezes você não ganha.

    Os laboratórios multinacionais que desenvolveram vacinas a vida toda investiram fortunas na busca de soluções para vários problemas. Eles têm tecnologia que nós não conseguimos e ninguém consegue. Não é só aqui no Brasil. O que a Fiocruz está pegando é uma vacina feita por uma multinacional. Pega tudo o que foi feito e praticamente repete aqui. Não vai ser um avanço científico, mas a possibilidade de você produzir. Investir já na aquisição de uma vacina que você nem sabe se vai ser uma vacina mesmo é loucura. Pode até dar certo, mas vai ser ao acaso.

    FLÁVIO DA FONSECA O risco é enorme, mas estamos lidando com uma situação sem precedentes. Assumir esse tipo de risco acontece exatamente diante da emergência global de tudo o que a gente vive. Você acaba assumindo riscos para tentar ter alguma possibilidade de sucesso. É uma aposta, sem dúvida nenhuma. E que pode dar muito errado. Mas é uma aposta na ausência de alternativas ou com muito pouca alternativa. Tem a questão do [laboratório chinês] Sinovac que é a empresa associada ao Butantan, que é outra possibilidade. Pode ser que dê certo. Eu não sei quais são, pois não foram tornados públicos os termos do acordo.

    A gente tem que considerar também que nenhuma dessas empresas está se aproximando do Brasil porque nos acham legais. Na verdade, o Brasil é o epicentro, junto com os Estados Unidos, da pandemia. As empresas estão desenvolvendo vacinas e é claro que querem testar no Brasil. E eles têm que começar a oferecer algo em troca. Por isso que esses laboratórios estão procurando o Brasil. Na Inglaterra ou na China, testar vacinas ia levar muito tempo, porque lá a pandemia já está em declínio. Quanto menos casos há num local, mais longo é o estudo, porque tem que aguardar que a pessoa seja infectada. Aqui é o melhor lugar do mundo para se testar essa vacina junto com os Estados Unidos, mas como não conseguem entrar nos Estados Unidos, porque são empresas de fora, vieram para cá. É uma aposta enorme e a gente vai literalmente pagar para ver. Imagino que existam cláusulas de segurança nesse acordo, que a gente desconhece. Mas é uma vacina em teste e as chances de dar errado existem. Para se ter uma ideia, a cada dez vacinas que entram em testes clínicos em fase 3, apenas uma é aprovada, as outras nove ficam pelo caminho. E a chance histórica, considerando a média global de estudos de vacina, de dar certo na fase 3 é de 10%.

    Não vai ser uma epidemia que vai embora e ninguém nunca mais ouve falar. É um vírus com uma taxa de letalidade bem menor do que outros, mas muito mais adaptado ao hospedeiro humano, e veio para ficar. Provavelmente vai se integrar permanentemente ao rol de vírus respiratórios que infectam a gente todo ano. Até os países que, entre aspas, passaram do pico, e agora estão começando a reabrir, a gente tem ouvido a notificação de surtos. Assim que flexibiliza e as pessoas voltam a circular, o vírus está lá. Ele não vai desaparecer. Pode até não ter mais as proporções epidêmicas que a gente está vendo hoje. E certamente não terá, porque ele está causando uma quantidade tão grande de infecções que as populações começam a ficar imunes.

    A probabilidade mais concreta diante do que a gente está vendo é que esse vírus também se estabilize na população humana como um vírus sazonal que causa surtos e até pandemias de vez em quando. Por isso, é absolutamente necessário achar uma vacina. Só depois que a gente começar a vacinar a população é que a gente vai ter uma ideia se a gente consegue eliminar o vírus ou não. A gente vacina todos os anos para a Influenza. Ela some? Não. Vai ser uma coisa semelhante. Não acho que a gente vá ter essa vacina em 2020. Você não produz 30 milhões de doses de um dia para o outro. É para o início de 2021, se essa transferência técnica realmente for viável.

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