Como os verdes crescem na política europeia

Movimento ambientalista tem desempenho histórico nas eleições municipais da França e consolida tendência mostrada em 2019 no Parlamento Europeu

    O Partido Verde conquistou a prefeitura de grandes cidades francesas como Bordeaux, Marselha, Lyon e Estrasburgo nas eleições municipais de domingo (28), mostrando força surpreendente num dos países mais importantes da Europa.

    Essa foi a primeira vez que os verdes franceses conquistaram o comando de cidades tão importantes no país, desbancando partidos tradicionais e favoritos.

    A “onda verde”, como foi chamada pela imprensa francesa, reforça uma tendência de crescimento que ganhou força ainda em maio de 2019, quando partidos ligados a causas ambientais também tiveram desempenho histórico no Parlamento Europeu.

    Essa tendência, reforçada pelas preocupações com as mudanças climáticas, sobretudo entre os eleitores mais jovens, ocorre em detrimento dos partidos tradicionais, tanto de esquerda quanto de direita, e representa um novo desafio para os políticos de maior renome e tradição no continente.

    No caso da França, o crescimento verde afetou sobretudo o projeto de renovação que o presidente Emmanuel Macron tentava emplacar no país desde 2016, com a fundação de seu “movimento” chamado République en Marche! (República em movimento).

    O partido de Macron, de centro-direita, conquistou apenas uma prefeitura importante, com a vitória de seu atual primeiro-ministro, Édouard Philippe, na disputa pela prefeitura de Havre, cidade de apenas 170 mil habitantes, no noroeste da França. Em outras 29 grandes cidades, o República em Movimento participará do governo, mas sem que o prefeito seja do partido.

    Philippe não precisa deixar o governo, pois a lei francesa dá aos ministros ou ao primeiro-ministro o direito de disputar eleições locais e, em caso de vitória, indicar um substituto do mesmo partido para o cargo eletivo conquistado.

    A extrema direita venceu apenas em Perpignan, no sul do país, com Louis Aliot, ex-marido da presidenciável Marine Le Pen, do Rassemblement National (Reunião Nacional).

    Já o Partido Socialista, à esquerda, conquistou importante vitória ao reeleger Anne Hidalgo, prefeita da capital Paris – ainda assim, numa aliança com os verdes. A direita tradicional, do Partido Républicains (Republicanos) venceu em cidades expressivas como Nice, Toulouse e Limoges. A direita segue controlando o maior número de municípios importantes no país.

    Particularidades da eleição francesa

    As eleições locais francesas foram prejudicadas pela pandemia da covid-19. O primeiro turno foi realizado no dia 12 de março, quando o país tinha 91 mortos pela doença e começava a impôr suas primeiras medidas restritivas, como quarentena e confinamento nacional.

    O segundo turno, que seria no dia 22 de março acabou postergado por mais de três meses. O índice de abstenção, no primeiro turno, foi de 55%. No segundo turno, foi ainda maior – 59%, o que representa um crescimento de quatro pontos em relação ao primeiro turno e de 20 pontos em relação às eleições municipais de 2014. O dado é um recorde negativo na história do país.

    Em Roubaix, no norte da França, a abstenção chegou a 77%. A rigor, o prefeito reeleito na cidade, Guillaume Delbar, representará 12% dos eleitores do município.

    Jornalistas e cientistas políticos franceses devem passar os próximos meses discutindo em que medida esses altos índices de abstenção estão ligados à pandemia ou a um desinteresse maior pela política atual, de forma geral.

    De um modo ou de outro, a situação pode ter beneficiado o movimento ambientalista, que dispõe de uma militância engajada não apenas no processo eleitoral em si, mas numa ampla pauta de reivindicações que estão colocadas de maneira permanente na sociedade francesa, seja em debates legislativos ou em protestos de rua.

    Quem são os verdes

    O movimento verde cresceu na Europa à medida que cresceram as preocupações com as questões ambientais, especialmente com as mudanças climáticas, de forma geral.

    As raízes do movimento estão ligadas às pautas de esquerda e de contracultura plantadas pelo Movimento de Maio de 1968 na França, mas se estendem muito além disso.

    Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do Maio de 1968 foi também um dos pioneiros do movimento ambientalista europeu, e hoje é eurodeputado justamente pelo bloco verde.

    A tendência de esquerda é predominante nesse setor, mas isso não impediu que, com o tempo, outros segmentos ideológicos reivindicassem associação com as questões ambientais.

    O crescimento do movimento nas eleições para o Parlamento Europeu são um bom termômetro para medir a expansão desse setor em nível continental.

    Na eleição europeia de maio de 2019, os verdes se tornaram a quarta maior força política do Parlamento Europeu, ao conquistar 69 das 751 cadeiras. No mandato anterior, eram apenas 52 assentos.

    A Alemanha foi o país que registrou o maior crescimento desse setor. Lá, em 2019, os verdes conquistaram o dobro dos votos na comparação com a eleição parlamentar europeia de 2014, transformando-se na segunda maior força. No Parlamento alemão, os verdes têm 67 dos 709 assentos, compondo a sexta maior bancada.

    Nas pesquisas mais recentes, os verdes só perdem para a coligação governista que é capitaneada pela CDU (União Democrata-Cristã) da atual chanceler, Angela Merkel. Enquanto a CDU tem 38% das intenções de voto, os verdes tem 18%, seguidos pela SPD (Social-Democrata), que tem 15%, e pela AfD (Alternativa para a Alemanha), de extrema direita, que tem 10%.

    Os verdes também cresceram no Reino Unido, transformando-se na terceira legenda mais votada do país para o Parlamento Europeu, embora tivessem uma expressão pequena no Parlamento local.

    Na França, os verdes tomaram o formato partidário atual em 2010, a partir de uma fusão entre o Partido Verde, criado em 1984, e a Europa Ecologia, criado em 2009 para disputar eleições no Parlamento Europeu.

    Na mais recente eleição europeia – para preencher as vagas do Parlamento Europeu –, em 2019, os verdes ficaram em terceiro lugar na França.

    A participação na Assembleia Nacional, equivalente à Câmara dos Deputados, ainda é pequena, com o bloco ecologista tendo apenas 16 dos 577 assentos. Mas a tendência é de crescimento, como demonstra o desempenho histórico nas eleições municipais de domingo (28).

    Das 236 maiores cidades francesas, os verdes passaram a controlar dez. O número absoluto pode parecer pequeno, mas ele representa um grande crescimento em relação aos anos anteriores. Em 2014 e em 2008, esse setor governava apenas duas grandes cidades francesas. Antes disso, nenhuma.

    Em Lyon, a vitória dos verdes foi tão expressiva que passarão a controlar 51 dos 73 assentos do Parlamento local.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto grafava errado o nome do partido "Républicains" e da cidade de "Roubaix". O texto também se referia ao partido de Marine Le Pen por seu antigo nome "Front National" (Frente Nacional). O nome mudou para Rassemblement National (Reunião Nacional) em junho de 2018. As três correções foram feitas às 8h50 do dia 30 de junho de 2020.

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