Quais os impactos da pandemia para a população LGBTI no Brasil

Pesquisa do coletivo #VoteLGBT coordenada por pesquisadores da Unicamp e UFMG evidencia agravamento de fragilidades econômicas e sociais devido à crise sanitária

Um relatório divulgado neste domingo (28) pelo coletivo #VoteLGBT expõe os efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre a população LGBTI brasileira. A pesquisa coletou dados por meio de um questionário online entre 28 de abril e 15 de maio, e obteve cerca de 9.500 respostas de pessoas LGBTI de todos os estados do país. Os resultados mostram que os três maiores efeitos são:

  • Piora na saúde mental;
  • Afastamento da rede de apoio;
  • Ausência de fonte de renda.

Também foi elaborado um índice de vulnerabilidade dessas pessoas à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Chamado de IVLC (Índice de Vulnerabilidade LGBT+ à Covid-19), ele mede os diferentes níveis de risco e impacto da doença para a saúde, renda e trabalho entre LGBTIs de acordo com a raça, orientação sexual e identidade de gênero. Pessoas trans e LGBTIs negros e indígenas apresentam os maiores índices de vulnerabilidade.

O coletivo #VoteLGBT aplica desde 2016 pesquisas em manifestações públicas do orgulho LGBTI, como as paradas de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, buscando definir o perfil de quem participa das marchas. O trabalho realizado pela organização tenta mitigar a escassez de estatísticas sobre essa população no país, um obstáculo à elaboração de políticas públicas.

Entre os ativistas do coletivo estão os pesquisadores Fernanda de Lena e Samuel Silva. Ambos são doutorandos em Demografia, respectivamente pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), e atuaram no desenvolvimento do questionário sobre o impacto da pandemia na população LGBTI e na análise estatística dos dados.

As questões da pesquisa abrangeram o perfil socioeconômico dos participantes, emprego, trabalho, renda, percepção e impactos do coronavírus na saúde mental e física, acesso à informação e avaliação da atuação dos gestores públicos durante a pandemia.

A demógrafa Fernanda de Lena disse ao Nexo que os resultados da pesquisa evidenciam que a população LGBTI brasileira já se encontrava em uma situação de instabilidade econômica e apresentava níveis elevados de depressão mesmo antes da pandemia. O contexto atual trouxe “o agravamento de fragilidades pré-existentes”.

“O IVLC mostra que esses indivíduos têm poucos recursos financeiros para se manter em isolamento social, o que aumenta as chances de contraírem o vírus. Além disso, o índice aponta como grande parte dessas pessoas tem menos possibilidades de acesso a serviços de saúde ou até mesmo tem um quadro de saúde considerado de risco que pode diminuir as chances dessas pessoas sobreviverem se contraírem o vírus”, afirmou de Lena.

O Nexo detalha abaixo, em três pontos, as principais descobertas da pesquisa.

Saúde mental

O agravamento de problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão e crises de pânico, foi apontado por 42,7% dos participantes da pesquisa como a maior dificuldade enfrentada durante a quarentena.

Os casos de depressão, ansiedade e estresse vêm aumentando na população geral devido à pandemia. Para a população LGBTI, que já é atingida com maior frequência por essas condições, o efeito sobre a saúde mental é ainda maior. Mais da metade (54%) dos participantes afirmaram estar precisando de apoio psicológico.

A vulnerabilidade emocional e psíquica é ainda maior entre os mais jovens. Segundo o estudo, um a cada dois LGBTI entre 15 e 24 anos de idade apontaram a saúde mental como o maior problema encarado durante o isolamento social. Em faixas etárias mais velhas, a proporção cai: a saúde mental foi indicada como a principal dificuldade por 21% das pessoas LGBTI de 45 a 54 anos.

O relatório relaciona esse dado à dependência financeira dos mais jovens em relação à família e à consequente necessidade de cumprir o isolamento social em um ambiente familiar no qual sua orientação sexual ou identidade de gênero não é aceita e em que podem ser alvo de violência. Uma porcentagem de 10,9% dos participantes apontou o convívio com a família como a maior dificuldade do período de pandemia.

“Ter que ficar ‘enclausurada’ com algum familiar que não entende e/ou respeita a sua orientação sexual é, ao passar dos dias, sufocante. Até um corte de cabelo vira motivo para algum problema”, afirma uma das participantes da pesquisa, identificada como mulher cis, branca, lésbica e da classe D.

Privação de redes de apoio

Em um contexto de marginalização dessas pessoas no âmbito familiar e em outras esferas do convívio social, como escola ou trabalho, as redes de apoio – formadas por amigos, parceiros afetivos e círculos de militância – se tornam especialmente importantes.

Para 16,6%, o maior impacto sentido da crise sanitária são as novas regras de convívio social, como o distanciamento, e para 11,7% é a solidão. Além de frequentemente confinadas em um ambiente marcado pelo preconceito, pessoas LGBTI estão afastadas de sua rede de apoio durante a pandemia, o que leva à solidão.

“Parte importante da minha sociabilidade depende de encontros marcados por aplicativos ou idas em bares e baladas. Moro sozinho, então sem essas opções de sociabilidade eu tenho muitos sentimentos de solidão, fracasso, abandono. Sentimentos que já existiam foram potencializados pelo isolamento social”, disse um respondente da pesquisa identificado como homem cis, branco e gay, da classe B.

O estudo mostra que a solidão afeta mais drasticamente pessoas mais velhas, de 45 a 54 anos ou acima dos 55, do que os mais jovens, de 15 a 24 anos.

Emprego e renda

Muitos brasileiros perderam o emprego ou tiveram sua renda reduzida em decorrência da pandemia. Com as dificuldades de acesso ao mercado de trabalho pela população LGBTI, o impacto econômico da pandemia é ainda maior. A perda de renda foi imediata para os LGBTI sem acesso ao trabalho formal e afetou diretamente sua capacidade de sobreviver.

“Sou trabalhador autônomo, também pela dificuldade de encontrar um trabalho CLT por ser uma pessoa trans. Por conta disso [da pandemia] estou sem conseguir fazer meus freelas”, declarou um participante declarado não-binário, branco, pansexual e da classe D.

A pesquisa mostra que 24% dos participantes perderam emprego devido à pandemia. Caso perdessem sua fonte de renda, 40% das pessoas LGBTI e 53,3% das pessoas trans afirmaram que não conseguiriam sobreviver por mais de um mês.

Bem maior do que para a população geral, que chegou a 12,6% em abril, a taxa de desemprego na população LGBTI está em 21,6%, segundo a pesquisa. Ela foi padronizada pelos pesquisadores com base na composição Parada LGBT de São Paulo de 2019, para evitar distorções possivelmente acarretadas pelo fato de a pesquisa ter sido feita online. Quase metade (44,3%) dos LGBTI que responderam ao questionário tiveram suas atividades totalmente paralisadas durante o isolamento.

Um percentual de 10,6% dos participantes indicaram a falta de dinheiro como sua maior dificuldade durante o isolamento social, enquanto a falta de trabalho foi apontada por 7%.

Esses percentuais crescem em recortes específicos, com destaque para pessoas trans, negras e indígenas. A população trans sofre com maior frequência expulsão do ambiente familiar e educacional e, com isso, tem o acesso ao mercado de trabalho inviabilizado.

Campanha de financiamento

Neste domingo (28), o #VoteLGBT também lançou uma campanha na plataforma Benfeitora de arrecadação de fundos para entidades que prestam ações de amparo à comunidade LGBTI.

O relatório elenca quatro tipos de apoio necessários à superação das vulnerabilidades enfrentadas pela comunidade LGBTI: emocional, social, financeiro e político. O documento aconselha manter contato com amigos LGBTI, certificando-se de que estão seguros e conectando-os com profissionais e instituições especializadas em saúde mental quando for necessário.

Destaca ainda a importância em contribuir para que pessoas LGBTI acessem fontes de renda, por meio da compra do que produzem, contratação de seus serviços ou mesmo indicando-as para postos de trabalho. Mais a longo prazo, o voto em representantes LGBTI identificados com a causa pode mudar o quadro.

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