Por que as frentes amplas pela democracia resistem a Moro

Movimentos fazem ressalvas a ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro. O ‘Nexo’ ouviu analistas sobre as reações

    Na esteira de ameaças de ruptura institucional feitas pelo presidente Jair Bolsonaro e seu entorno, uma série de manifestos pela democracia foram lançados nos meses de maio e junho de 2020 com o objetivo de criar uma frente ampla de oposição aos moldes das Diretas Já dos anos 1980. Quando questionados sobre uma eventual presença de Sergio Moro no movimento, muitos signatários fizeram ressalvas a seu nome.

    Moro se tornou símbolo de combate à corrupção no Brasil como juiz da Lava Jato a partir de 2014. Mas também teve suas decisões contestadas, tanto por seus métodos jurídicos quanto por suspeitas de viés político. Após a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018, ele aceitou o convite para assumir o Ministério da Justiça do novo governo. Deixou o cargo em abril de 2020 acusando o presidente de tentar interferir politicamente na Polícia Federal.

    O que dizem os resistentes ao ex-juiz

    Parte dos articuladores de movimentos ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo disseram que o ex-juiz e ex-ministro não seria aceito entre os apoiadores. “Entrarão todos, menos os fascistas. Moro, fora. É o limite”, disse o jornalista Juca Kfouri, signatário do manifesto “Estamos Juntos”, do qual fazem parte o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o apresentador de TV Luciano Huck e o ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação Fernando Haddad, candidato petista derrotado por Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018.

    “Natural que exista constrangimento com a adesão de algumas pessoas. Estas mesmas figuras são responsáveis diretas por parte importante das mazelas do país”, afirmou o advogado Marco Aurélio Carvalho, signatário do manifesto “Basta!”, que reúne uma série de advogados e outras figuras do meio jurídico.

    A polêmica mais recente aconteceu no movimento “Direitos Já!”, um movimento criado ainda em 2019, antes portanto das ameaças de ruptura institucional do bolsonarismo. O grupo suprapartidário propôs a realização de um comício virtual na sexta-feira (26) com a presença de 100 lideranças. Entre os participantes confirmados estavam Haddad, além de outros candidatos à presidência em 2018, como Guilherme Boulos (Psol), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). FHC e Huck também estavam na lista.

    Moro foi convidado pelo deputado federal José Nelto (Podemos-GO). Ele justificou o convite dizendo que Moro “é um cidadão brasileiro e que nada pesa contra ele”. “É um homem que teve uma coragem que poucas pessoas tiveram no combate à corrupção no Brasil. Ele tem que ser convidado. Vou trabalhar para isso”, afirmou.

    A iniciativa sofreu resistência. À coluna da jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo, Boulos disse o seguinte: “se ele [Moro] entrar por uma porta, eu saio por outra”.

    Coordenador do Direitos Já, o sociólogo Fernando Guimarães, que já foi ligado a uma ala de esquerda do PSDB, afirmou que Moro não foi convidado por fazer parte do governo Bolsonaro até pouco tempo. Disse, também, que ele tem a prerrogativa de fazer os convites e que o número de participantes do movimento já estava fechado.

    Para além do debate sobre a entrada de Moro, o comício programado pelo grupo sofreu desistências de última hora. O ex-presidente Michel Temer, que havia feito uma gravação como participação, pediu que o vídeo não fosse exibido. Presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli também recuou após confirmar presença.

    A ligação de Moro com o bolsonarismo

    Bolsonaro foi eleito após o colapso dos partidos tradicionais, envolvidos nos escândalos da Lava Jato, maior operação contra a corrupção já realizada no Brasil que levou empresários e políticos poderosos para a cadeia. O lavajatismo foi um dos pilares que ajudaram o capitão reformado do Exército e deputado pouco expressivo a chegar ao poder nas eleições de 2018. Moro era uma das figuras mais comemoradas em meio aos apoiadores do presidente.

    A condenação de Lula no caso tríplex do Guarujá, cuja primeira sentença foi dada por Moro, tirou o ex-presidente da disputa eleitoral de 2018, após a condenação ser confirmada em segunda instância. O petista liderava as pesquisas de intenção de voto quando foi preso e posteriormente proibido de se candidatar, a partir da Lei da Ficha Limpa. Sem Lula, Bolsonaro saltou para a liderança das pesquisas.

    Às vésperas do primeiro turno, Moro derrubou o sigilo da delação premiada do ex-ministro Antônio Palocci, petista que teve cargos centrais nos governos Lula e Dilma Rousseff. Palocci fazia acusações diretas aos principais líderes do partido que integrou. Essas acusações foram usadas pelos candidatos adversários para criticar Haddad.

    Como Ministro da Justiça, cargo que ocupou durante quase 16 meses, Moro atuou a favor de Bolsonaro e sua agenda. Um dia antes de deixar o governo, por exemplo, ele e o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, assinaram uma portaria que aumentava significativamente a permissão para compra de munição no país. Também defendeu o presidente no caso dos laranjas do PSL, partido pelo qual o presidente foi eleito e na crise da polícia no Ceará, por exemplo.

    Sua esposa, Rosângela Moro, chegou a dizer em fevereiro de 2020, dois meses antes de o marido deixar o governo acusando o presidente: “Sou pró-governo federal. Eu não vejo o Bolsonaro, o Sergio Moro. Eu vejo o Sergio Moro no governo do presidente Jair Bolsonaro, eu vejo uma coisa só”.

    Duas análises sobre a rejeição a Moro

    O Nexo ouviu dois cientistas políticos sobre a resistência ao nome de Moro por integrantes dos movimentos a favor da democracia.

    • Mayra Goulart da Silva, professora de Ciência Política da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
    • Paulo Peres, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

    Por que o nome de Moro sofre resistência das frentes amplas?

    Mayra Goulart A resistência a Moro está relacionada com a dificuldade dessas frentes em se estruturar, uma vez que precisam ser simultaneamente amplas e capazes de possuir um mínimo de coesão, isto é, precisam de uma identidade e uma pauta que faça sentido e ofereça possibilidades de ação e repercussão, mas, ao mesmo tempo, precisam articular diferentes atores. A ideia de democracia, ou mais precisamente, de Estado de Direito Democrático, até agora foi o que mais se aproximou de ambos critérios. Moro é oriundo do lavajatismo. Nessa dinâmica, o protagonismo dos operadores jurídicos se dava a partir de uma lógica que envolvia o esgarçamento das regras que constituem o campo democrático. Por ter capitaneado uma dinâmica de esgarçamento dos princípios que constituem a essência do Estado de Direito, o lavajatismo põe em xeque a própria natureza dessas frentes que se articulam a partir da defesa de tais princípios em um contexto de recrudescimento do autoritarismo.

    Paulo Peres A amplitude do movimento cria esse impasse. Há resistências da esquerda e da centro-esquerda. Algumas lideranças consideram que Moro atuou como ator político que desestabilizou as instituições representativas, perseguiu o PT, criminalizou a esquerda como um todo, desestabilizou parte da economia do país e, ainda, aderiu ao governo de um presidente sabidamente autoritário. Portanto, para essas lideranças, o Estado democrático de direito nunca foi a prioridade do ex-juiz e ex-ministro.

    A democracia nunca foi a prioridade de Moro. Ele mesmo admitiu, em entrevista, que sabia que Bolsonaro era autoritário, mas pensava que seria capaz de atuar como um “poder moderador” junto ao presidente. Além de uma autopercepção equivocada da sua estatura política, isso revela um desconhecimento completo da função institucional de um poder moderador, que, aliás, nem faz parte do nosso desenho constitucional. Também revela, como já disse, que Moro tinha plena consciência de que Bolsonaro, sempre coerente com sua trajetória, é um político autoritário.

    Seu potencial como presidenciável influencia nesse julgamento?

    Mayra Goulart Moro tem o que acredito ter se definido como o patamar mínimo para pleitear um cargo majoritário: 20% de apoiadores fiéis. Digo isto porque, em virtude de um processo de fragmentação identitária do tecido social, que caracteriza a contemporaneidade (queda do Muro de Berlim, emergência das questões de gênero, raça, etc), não se formam mais sujeitos políticos de cunho majoritário. Em outros termos, nenhuma bandeira ou candidato é capaz de atrair sozinho mais do que 20% dos eleitores. Toda maioria é fruto de uma articulação que se constitui em torno da rejeição a um determinado oponente. No caso das eleições de 2022, estamos falando de dois atores cuja rejeição pode ser capaz de aglutinar a maioria e, por conseguinte, definir o pleito: a rejeição ao PT e a rejeição a Bolsonaro.

    Moro precisará disputar eleitores com o próprio presidente e demais candidatos do campo conservador-direitista. Seu recente afastamento das alas mais radicais do conservadorismo (olavistas) e movimentação rumo ao centro político, no qual se situam as frentes democráticas às quais ele deu sinalizações positivas, pode reduzir sua capacidade de encarnar o ódio à esquerda e aos petistas.

    Paulo Peres Penso que sim. Algumas lideranças vislumbram em Moro um potencial candidato à Presidência em 2022, logo, não acham muito estratégico abrir esse palanque para ele. Apesar do seu fiasco como ministro, Moro ainda tem uma considerável popularidade e, por isso, seu nome aparece como um possível candidato com chances de ter um bom desempenho. Porém, tudo ainda é muito incerto. É muito cedo para sabermos como será a eleição de 2022. Não tenho dúvidas de que Moro teria plenas condições de ser eleito deputado ou mesmo senador. Agora, ser eleito presidente depende de muitos fatores, inclusive de quem serão os seus concorrentes. Além disso, sem ter tido sequer experiência como parlamentar, se eleito, Moro ficaria ainda mais desorientado do que ficou no ministério.

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