O limite entre o pluralismo da imprensa e a desinformação

O 'Nexo' conversou com o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva sobre as complexidades de um modelo que favorece o debate num contexto repleto de mentiras e ameaças

    Janela de Overton. O conceito, criado por Joseph P. Overton, explica que políticos bem-sucedidos definem as bandeiras que irão levantar em campanha ou durante o mandato a partir da percepção do que é considerado legítimo pelo eleitorado naquele momento. Isto é, a partir da análise do que está, ao menos momentaneamente, dentro da janela do aceitável.

    Nos últimos anos, a onda de extrema direita que atingiu os mais diferentes países revelou que essa janela do aceitável se deslocou, ou pelo menos se ampliou, para a direita do espectro político. No Brasil, por exemplo, temas como intervenção militar e restrição da autonomia acadêmica, que ficaram excluídos da agenda política durante anos por serem considerados extremistas, voltaram ao debate público, ainda que causando bastante reação.

    Nesse cenário, como o jornalismo profissional deve atuar? Também deve se pautar pela janela de Overton e apresentar ao público todas (ou só) as opiniões que encontram algum respaldo social? O pluralismo das opiniões apresentadas deve ser irrestrito e alcançar qualquer tema?

    Um caso emblemático

    Nos Estados Unidos, recentemente, o jornal The New York Times publicou um artigo do senador republicano Tom Cotton. O contexto era o das manifestações antirracistas que ocorreram nos Estados Unidos depois do assassinato de George Floyd — um homem negro asfixiado até a morte por um policial branco.

    Cotton levantou a mesma bandeira de Trump e defendeu o uso de tropas militares federais (em regra acionadas para guerras contra outros países) nos protestos internos, contra cidadãos americanos.

    O artigo foi duramente criticado, seja por seus erros factuais seja por suas posições extremistas. Mas inicialmente o editor de opinião do jornal, James Bennet, afirmou que a publicação do artigo se justificava pelo tradicional compromisso da página com a diversidade de opiniões.

    Repórteres e colaboradores do jornal, no entanto, se manifestaram contra a decisão. Para eles, ainda que a ideia exposta fosse representativa de parte do eleitorado, o artigo não deveria ter sido publicado, por ter características fascistas. Funcionários negros do The New York Times afirmaram que aquelas ideias colocavam suas próprias vidas em risco, ameaçando toda uma comunidade americana.

    O desfecho do caso se deu com o pedido de demissão de Bennet, editor de opinião de um dos mais prestigiados jornais do mundo, depois de ele admitir que o texto não havia passado por sua avaliação antes de ser publicado. Atualmente, o artigo aparece precedido de uma nota do jornal, segundo a qual “o ensaio ficou aquém dos nossos padrões e não deveria ter sido publicado”.

    O episódio expõe as complexidades das escolhas editoriais, quando se tem como norte a defesa de um pluralismo de opiniões. Acende um debate que inclui a denúncia das falsas equivalências de argumentos, mas também a defesa da necessidade social do debate de diferentes ideias.

    Sobre todas essas questões, o Nexo conversou com Carlos Eduardo Lins da Silva, jornalista com mais de 30 anos de atuação e ex-ombudsman da Folha de S.Paulo — cargo criado pela publicação nos anos 1980 para mediar as demandas do leitor e a produção da redação. Atualmente ele é professor de jornalismo do Insper.

    Lins da Silva falou sobre a importância do modelo pluralista de jornalismo, adotado no Brasil e nos Estados Unidos, bem como sobre verdade factual, incitação ao crime e efeitos de um debate público limitado.

    Todos os lados de uma discussão devem ter pesos iguais na imprensa? Por quê?

    Carlos Eduardo Lins da Silva Essa é uma questão que deve ser respondida sem verdades absolutas. No modelo de jornalismo clássico americano, que é o modelo que o Brasil adota há bastante tempo, pelo menos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, essa questão de todos os lados relevantes terem igual peso na participação no noticiário ou nas opiniões externas ao jornal é uma espécie de um paradigma. É um tipo de jornalismo que tem como uma de suas premissas essa imparcialidade.

    Mas evidentemente isso não é um dogma, uma coisa escrita em pedra. Não tem sido assim, não foi assim e não precisa ser assim em todo lugar. Até porque não é algo consensual no mundo. Nem no mundo ocidental. Em países como Reino Unido e França, que são democracias representativas de grande envergadura, os veículos jornalísticos se construíram a partir de um modelo mais partidarizado. E, por exemplo, eu acho o Le Monde, o Guardian [ambos com linha editorial alinhada à centro-esquerda] grandes jornais até hoje. O que é indispensável para mim é que as opiniões sejam embasadas em verdade factual. O que é indispensável é que a verdade factual seja a norma prevalente em qualquer tipo de jornalismo e em qualquer veículo.

    O modelo pluralista é melhor?

    Carlos Eduardo Lins da Silva Na minha visão de mundo, é necessário sempre rever suas opiniões, os seus conceitos e as suas posições. É assim que progride a sociedade, da revisão constante, permanente, dos pontos de vista de cada indivíduo.

    Senão o que acaba acontecendo é o que temos visto hoje na maioria dos países ocidentais, como no Brasil e nos Estados Unidos. São grupos que não aceitam verdades factuais se não forem coincidentes com seus pontos de vista. Nós chegamos a um ponto em que, como no começo do século 20, as pessoas estão dispostas a agredirem fisicamente quem diz que existe uma doença que é transmissível e que é preciso haver medidas que impeçam a transmissão dessa doença. Esse tipo de situação é resultado da falta de confronto civil de ideias contraditórias. Haver espaços para essas ideias contraditórias serem discutidas é absolutamente essencial para a sobrevivência das pessoas. É quase tão importante quanto se combater a mudança climática.

    Para o próprio veículo, o pluralismo também é importante, porque, ajudando a fortalecer a democracia, ajuda a si próprio. E, do ponto de vista de mercado, em princípio, também deveria ser melhor para o veículo ele ser pluralista. Porque, segundo indica a Universidade de Oxford, pelo menos 51% dos brasileiros preferem ter notícias de fontes que não têm um ponto de vista estabelecido.

    Quando um desses lados é intolerante ou recorre a fatos falsos, ele deve ser ouvido?

    Carlos Eduardo Lins da Silva Um veículo jornalístico não deve garantir espaço para opiniões que não estão embasadas na verdade factual. No meu entender, a verdade factual existe. Por mais que objetividade absoluta não exista — porque é impossível a qualquer pessoa, ao reportar algum fato, se divorciar totalmente de sua história de vida —, existem alguns fatos que são indiscutíveis. É indiscutível, por exemplo, que estamos conversando por telefone.

    Um veículo também não deve publicar um artigo de opinião que incite ao crime, dependendo de quem o assine, dependendo da repercussão que isso poderia ter. Numa situação hipotética: um artigo de opinião que incite as pessoas a depredarem um bem público ou a invadirem hospitais com o objetivo de agredir os enfermeiros ou os médicos. Isso é diferente de uma opinião, é incitação ao crime. Coloca vidas em risco.

    Vamos ao caso do artigo do senador Tom Cotton. Se o artigo tinha erros factuais, como parece que tinha, eu acho que ele não deveria ter sido publicado. Mas por causa desse argumento, e não por causa da opinião que o senador estava expressando. Quando Cotton defende a utilização das Forças Armadas para conter manifestações de civis, cidadãos americanos, há o argumento de que isso coloca em risco a vida de, por exemplo, repórteres que estão cobrindo essas manifestações, especialmente repórteres negros. Isso é verdade, o argumento é bom. Mas acho que ele não é suficiente para impedir que a opinião do senador seja publicada. Diferente seria se o artigo incitasse os militares a atirarem.

    Cotton é um senador, de um partido que tem a maioria do Senado americano, defensor de um presidente que tem o apoio absoluto de pelo menos um terço dos eleitores americanos e que é considerado um bom presidente por cerca de 40% de todos os eleitores americanos. Ora, se essa pessoa escreve um artigo que não é mentiroso, que não é incitador de crimes, eu acho que essa pessoa tem o direito de ter seu artigo publicado num jornal que se diz pluralista. Mesmo que o artigo vá contra a opinião do próprio jornal, da talvez da maioria da redação e provavelmente da maioria de seus leitores.

    Se um veículo busca ser pluralista, como pode seguir esse modelo de forma responsável?

    Carlos Eduardo Lins e Silva Ser pluralista é garantir espaço no veículo para todas as tendências da sociedade que sejam representativas de um número significativo de cidadãos. Por exemplo, o Brasil tem quase 40 partidos políticos. Deve ser dar espaço a todos? Acho que não. Deve-se dar espaço para os partidos políticos que representam uma parcela significativa do eleitorado. Nos debates para as eleições presidenciais, se há 16 candidatos, o debate deve conter os 16? Essa é uma questão que foi muito discutida tanto no Brasil em eleições passadas quanto nos Estados Unidos em eleições bastante recentes. Os debates ficam absolutamente inúteis, porque é impossível fazer um debate com tantas pessoas, em que cada um possa expressar um ponto de vista que seja minimamente coerente e convincente no pouquíssimo espaço de tempo de que cada um disponha.

    Então o pluralismo não é absoluto, ele se dá na medida da possibilidade. Há gradações. Mas é muito fácil distinguir um veículo que quer ser pluralista de outro que não quer ser pluralista. Um veículo, por exemplo, que coloca nas suas páginas opiniões de ministros tanto do governo Bolsonaro, mesmo que sejam em menor quantidade, quanto de importantes líderes de oposição ao governo Bolsonaro, é pelo menos um pouco pluralista. Se em outro veículo um ministro do governo, ou um oposicionista, nunca é ouvido, esse veículo é muito pouco pluralista.

    Não é que todo mundo deva ter acesso ao veículo e o mesmo espaço que todos os outros. Isso cabe ao mais representativos. E aí se cai na subjetividade, para se definir quem é mais representativo. É complicado, mas pode ser resolvido desde que haja honestidade intelectual e desde que o veículo tenha o firme propósito de ser o mais imparcial possível.

    Como isso pode ser atingido na prática?

    Carlos Eduardo Lins e Silva Deve-se garantir espaço para os negacionistas da mudança climática? Existe quase um consenso entre os cientistas de que a mudança climática ocorre, é provocada pela ação humana e coloca em risco a sobrevivência da espécie. Então eu acho que não é necessário dar aos que dizem o contrário o mesmo espaço e o mesmo destaque [dado à corrente majoritária]. Mas é preciso registrar que há uma posição minoritária contrária à posição quase consensual, se há cientistas renomados, que embasam sua argumentação em metodologia aceita pela comunidade acadêmica.

    Na sua avaliação, o momento político atual demanda que tipo de atuação de um veículo de imprensa?

    Carlos Eduardo Lins e Silva Acho que o modelo pluralista é o melhor que poderíamos ter. Principalmente nesta época, em que existem as plataformas das redes sociais, nas quais as pessoas estão tão divididas em clusters, em casulos de opiniões. Nas quais uma pessoa só faz repetir o que a outra já acha. Na minha visão de mundo, é importantíssimo que a sociedade tenha alguns espaços em que opiniões contraditórias se confrontem, para que as pessoas possam chegar às suas próprias conclusões. Para que elas possam rever suas posições, examinar os fatos sob perspectivas diferentes daquelas que elas já têm.

    É claro que há necessidade de se adaptar às tecnologias existentes, à linguagem. Também é necessário conhecer melhor o seu público, adaptar a formatação do produto ao gosto do seu público. Mas, fundamentalmente, eu acho que o modelo de jornalismo baseado nestes três pilares, pluralismo, apartidarismo e embasamento na verdade factual, continua valendo e deveria ser seguido. Isso não mudou dos anos 1950 para os anos 2020.

    Como avalia a imprensa brasileira atual nesse contexto?

    Carlos Eduardo Lins e Silva Há a questão da sobrevivência material da imprensa. O jornalismo é uma indústria que está há pelo menos 25 anos, talvez 30 anos, passando por uma crise estrutural seríssima. Então é evidente que, por conta dessa crise, a qualidade do jornalismo sofre. Sofre porque as redações ficam menores, as pessoas trabalham cada vez mais com menos tempo e sob maior pressão, o espaço é mais limitado, muitos dos profissionais que são contratados recebem salários menores, e muitas vezes esses salários menores só pagam profissionais não tão bem formados, do ponto de vista educacional e profissional. Com a qualidade sofrendo, a credibilidade também cai. Quanto mais erros factuais um veículo comete, menor é a sua credibilidade.

    Mas, apesar de todos esses percalços, a imprensa brasileira em geral vem cumprindo relativamente bem o seu papel. No caso da pandemia, por exemplo, as pesquisas de opinião pública no Brasil, assim como em outros países, mostraram que o público confiou e continua confiando muito mais nas informações que foram veiculadas pela imprensa tradicional, pelos veículos estabelecidos, do que pelas informações disseminadas pelas plataformas sociais ou pelos governos. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

    Isso não é por acaso. É resultado de um esforço e de uma obediência aos cânones da imprensa estabelecida. Obediência a determinados protocolos para se obter uma informação antes de a veicular, de forma a se ter a maior dose possível de certeza de que essa informação é correta.

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