As dificuldades do bar que marcou o início do movimento LGBTI

Stonewall, em Nova York, foi palco de revolta contra abusos policiais em 1969. Local tenta levantar fundos para não fechar as portas de vez em meio à crise da pandemia 

    O bar Stonewall, em Nova York, marco inicial do movimento por direitos e visibilidade LGBTI, corre risco de fechar por definitivo depois de três meses sem funcionar devido à pandemia do novo coronavírus.

    Localizado no bairro de Greenwich Village, em Manhattan, o Stonewall é o primeiro local de designação histórica ligado à causa LGBTI dos Estados Unidos. Sua importância deriva do célebre levante de 1969, quando gays, lésbicas, trans e drag queens reagiram ao abuso policial que era rotina no local.

    Uma campanha de levantamento de fundos foi lançada para tentar evitar que o local seja fechado em definitivo. A meta de arrecadação é de US$ 100 mil (perto de R$ 550 mil, na cotação de 26 de junho). “Mesmo nas boas épocas pode ser difícil sobreviver como pequeno negócio, e agora enfrentamos um futuro incerto”, afirmou uma postagem no perfil do bar no Instagram.

    Com a cidade de Nova York na chamada fase 2 da reabertura pós-pandemia, o bar já pode servir clientes para consumo ao ar livre. Segundo Stacy Lentz, uma das proprietárias, em entrevista à CNN, essas vendas são insuficientes para cobrir o rombo. Só o aluguel do local custa cerca de US$ 40 mil todo mês (em torno de R$ 220 mil, segundo câmbio de 26 de junho). Além disso, há os custos do seguro e as despesas operacionais.

    A revolta de Stonewall

    Na cidade de Nova York, em 1969, era ilegal uma pessoa abordar outra do mesmo sexo com intuito de se relacionar. A comunidade LGBTI se refugiava em alguns poucos lugares em que sua orientação era aceita, caso do Stonewall Inn, em Christopher Street.

    No entanto, mesmo nesses espaços seguros, era comum que policiais à paisana fingissem ser pessoas à procura de parceiros com o objetivo de fazer prisões.

    Três anos antes, uma lei que proibia a venda de álcool para homossexuais havia sido derrubada. Mesmo assim, a polícia seguia dando batidas e fechando locais frequentados pela comunidade LGBTI sob o pretexto de preservação da ordem pública.

    Havia um componente de corrupção também. Os lugares que atendiam gays e lésbicas eram geralmente operados pela máfia. Muitas vezes, o não pagamento de propina a agentes era motivo para uma batida, conforme verificaria mais tarde um inquérito que apurou a corrupção policial na cidade.

    Não se sabe até hoje o motivo que inspirou a batida no Stonewall no dia 28 de junho de 1969, por volta da uma da manhã. De acordo com o autor do livro “Stonewall”, Martin Duberman, uma das teorias mais ouvidas é de que o pagamento da máfia não havia sido realizado.

    Do mesmo modo, não há certeza sobre o início da rebelião. Duberman, em entrevista à revista Time, conta que diversas testemunhas afirmam que “uma lésbica começou o levante ao atacar um policial que a atacou fisicamente”. Outros relatos dão conta de que uma mulher trans, Tammy Novak, lutou contra um policial que tentou colocá-la dentro de um camburão. O protesto escalou rapidamente, engrossado por dezenas de frequentadores do bar, que arremessavam objetos em direção à polícia e sacudiam seus veículos. O tumulto durou pelo menos 48 horas e se espalhou por ruas vizinhas.

    Para Duberman, para além dos motivos imediatos, o contexto maior foi um fator decisivo para que a revolta de Stonewall acontecesse. “É preciso conhecer todo o contexto da década de 1960 e o quanto o sentimento de rebelião estava presente em toda a cultura. O nascimento do movimento feminista, a luta negra pelos direitos civis, o assassinato de Martin Luther King Jr. — foi uma década extremamente volátil. Começamos a pensar: bem, os negros são definidos como inferiores há muito tempo. Mas agora estão dizendo que o negro é lindo. Nós, gays, somos definidos como inferiores há muito tempo. Talvez seja a hora de começarmos a dizer: Gay é lindo”, explicou.

    Nos meses seguintes à revolta de Stonewall, o ativismo gay nos Estados Unidos ganhou força e inspiração. As movimentações discretas de antes se transformaram em uma mobilização ostensiva, que deu origem a protestos de rua e às primeiras organizações. Uma delas foi a Stonewall Veterans Association, que continua em atividade até os dias atuais.

    Exatamente um ano depois do levante, em 28 de junho de 1970, ativistas organizaram o Dia da Libertação de Christopher Street, considerada a primeira parada do orgulho gay do mundo. Nesse dia, milhares de homens e mulheres gays saíram em passeata de Greenwich Village até o Central Park para protestar contra a discriminação e o preconceito. A data marca, até hoje, a celebração do dia do orgulho LGBTI.

    Nunca teremos a liberdade e os direitos civis que merecemos como seres humanos se não pararmos de nos esconder em armários e no abrigo do anonimato”, afirmou Michael Brown, um dos fundadores da Frente de Libertação Gay, em entrevista ao New York Times na época do evento.

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