Quadrinhos coreanos: a história e a ascensão do manhwa

Indicação de ‘Grama’ ao principal prêmio da indústria de HQs dá destaque à produção do país asiático

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    O Eisner, principal premiação do mercado de quadrinhos dos EUA, vai anunciar seus vencedores em algum momento de julho, num evento virtual com data a ser agendada.

    A quadrinista coreana Keum Suk Gendry-Kim concorre em duas categorias: “Melhor roteirista e artista” e “Melhor trabalho baseado em fatos”. A indicação veio por “Grama”, álbum que conta a história de Lee Ok-sun, mulher coreana que foi escravizada sexualmente na infância por soldados do exército japonês na Segunda Guerra Mundial.

    No mesmo ano em que “Parasita”, um filme coreano ganhou o prêmio máximo do Oscar, é a primeira vez que uma quadrinista coreana é indicada ao Eisner.

    A HQ chegou ao mercado americano em 2019, pela editora Drawn & Quarterly. A publicação no Brasil está nas mãos da Pipoca & Nanquim, com lançamento previsto para julho.

    “Grama” foi fundamentado em uma série de entrevistas que Gendry-Kim fez com Lee Ok-sun. A HQ começa na infância da biografada e vai avançando os anos, com foco especial no período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

    A crítica aplaudiu a HQ. “A arte poderosa de Gendry-Kim, com linhas selvagens e pretos densos, entra no campo dos pesadelos. Vemos a silhueta dos homens, cada rosto com um par de olhos brilhantes e dentes demoníacos. As páginas seguintes são mais impactantes do que qualquer quadrinho que eu já vi. Retratam a morte de uma alma”, escreveu Ed Park, crítico literário do New York Times.

    “Difícil, tocante… Gendry-Kim conta a história poderosa de Ok-sun com delicadeza, destreza e humildade. Merece a leitura”, afirmou a revista Publishers Weekly.

    O que é manhwa

    Em Portugal, os quadrinhos são chamados de “banda desenhada”. Uma tradução similar é usada na França – “bande dessinée”. Na Itália, são conhecidos como “fumetti”. No Japão, são chamados de “mangá”. Por fim, na Coreia, usa-se o termo “manhwa” – palavra parecida com “manhua”, usada para se referir aos quadrinhos chineses.

    Todas essas palavras dizem respeito a uma mesma coisa – histórias em quadrinhos – mas são usadas fora de seus locais de origem como forma de diferenciá-los em mercados estrangeiros, para que os leitores saibam imediatamente de onde a obra veio.

    Ao contrário dos mangás e dos manhuas, os manhwas são lidos da esquerda para a direita – no sentido Ocidental –, escritas no alfabeto hangul, na maioria das vezes em preto e branco.

    Uma história dos quadrinhos na Coreia do Sul

    “Grama” faz parte da indústria dos manhwas que, só em 2017, faturou cerca de US$ 432 milhões, na cotação do dia 26 de junho de 2020.

    Assim como os quadrinhos do restante do mundo, os manhwas começaram a ganhar força no início do século 20.

    O primeiro quadrinista coreano moderno foi Lee Do-yeong que, em 1909, começou a publicar charges comentando o noticiário no jornal Daehanminbo.

    Porém, um ano depois, tudo mudou, e os manhwas ficaram dormentes e fora de circulação por quase quatro décadas. Em 1910, o Japão invadiu a Coreia e ocupou o país até o fim da Segunda Guerra, em 1945.

    Nesse período, obras culturais coreanas ficaram proibidas, e os quadrinhos a que a população tinha acesso eram todos de origem japonesa.

    Com a saída dos japoneses no meio da década de 1940, os manhwas voltaram a ser produzidos, timidamente. O interesse pelos mangás ainda era amplo, e eles tinham uma expressividade de vendas maior do que os quadrinhos locais.

    Nos anos 1950 e 1960, os manhwas se dividiam basicamente em dois gêneros, os humorísticos, que satirizavam o noticiário, e os adultos, que, por sua vez, se subdividiam entre ficção histórica, ficção científica, romance e fantasia.

    Foi nessa época que a Coreia do Sul viu surgir os manhwabangs, um tipo de café no qual se pode sentar e ler manhwas, acompanhado de bebidas quentes e lanches. O modelo de negócios existe até os dias de hoje, e estão espalhados por todo o país.

    A partir da década de 1980, os manhwas passam por uma expansão, com um número maior de publicações. Surgiram alguns quadrinistas, como Lee Hyeon-se, Park Bong-seong e Go-Haeng-seok, autores de histórias de aventura.

    É nesse período que o mercado coreano de quadrinhos passou a adotar práticas da indústria dos mangás japoneses, segmentando as publicações ao máximo, em revistas que compilam histórias específicas para um público e idade determinados. Assim como no Japão, os manhwas passaram a ser impressos em tiragens na casa dos milhões de exemplares, sendo vendidos a um preço baixo.

    Nas décadas de 1990 e 2000, autores independentes começaram a se proliferar rapidamente, vendo na internet um meio de publicar suas histórias sem depender da chancela do mercado editorial tradicional.

    Atualmente, os manhwas se encaixam em diversos gêneros, direcionados a públicos diferentes. Além da produção nacional, o mercado também consome as histórias de super-heróis dos EUA e também os muitos gêneros do mangá.

    Os manhwa da Coreia do Norte

    A Coreia do Norte também possui sua própria produção de manhwas, porém, infinitamente menor, e sempre ligada às propagandas do Partido dos Trabalhadores da Coreia, que governa o país desde 1949.

    Um dos manhwas de maior sucesso na Coreia do Norte é “Great General Mighty Wing”, de 1994. Direcionado às crianças, traz uma abelha militar que explica os ideais do partido, combatendo inimigos – que são formigas caracterizadas com os uniformes do exército japonês.

    Outro destaque é “World Professional Wrestling King Ryok To San”, de 1995, que conta a história de um lutador norte-coreano que jura defender a honra e os valores da nação.

    Diferentemente do Sul, a Coreia do Norte não exporta seus manhwas. O pouco que se sabe sobre eles vem por meio de poucas páginas que foram digitalizadas ao longo dos anos e posteriormente traduzidas para o inglês.

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